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“Junior sofre consequências, mas elas são muito divertidas”, afirma Fernando Meligeni. “A gente faz sorrindo. Vai que a gente reclama e tem que lavar roupa?”, fala Gabi, do vôlei

Aos 19 anos, Gabi é destaque da seleção brasileira de vôlei, mas não escapou dos trotes
Alexandre Arruda/CBV
Aos 19 anos, Gabi é destaque da seleção brasileira de vôlei, mas não escapou dos trotes

O primeiro dia de faculdade é certeza de trote e muita brincadeira. A primeira temporada em uma nova equipe segue a mesma regra. Quem é novato passa pelas brincadeiras dos mais experientes e admite que é melhor cumprir sem fazer objeção. “A gente faz rindo. Vai que reclama e tem que voltar a lavar roupa”, diz Gabi, ponteira da seleção feminina de vôlei e uma das “bixetes” da temporada, lembrando que sua vida já foi até pior.

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No vôlei, por exemplo, uma tradição é cuidar da roupa dos experientes. A ponteira fala que, nas gerações anteriores, havia histórias de lavar de fato a roupa das companheiras. Agora, elas precisam passar nos quartos, recolher o que será lavado, levar à lavanderia e devolver tudo. “A parte mais chata era arrumar os pares de meia. A gente sempre deixava isso por último. E se vai algum par errado, ficavam zoando a gente até o final do campeonato. Não tem que pagar nenhuma prenda, mas não esquecem”, conta Gabi. Ela teve tarefas duplas na temporada, já que, além de novata, era a caçula e tinha que passar em todos os quartos anotando pedindo de comidas ou avisando sobre o horário dos treinos. No geral, tudo não passa de diversão.

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O ex-tenista Fernando Meligeni foi jogador e capitão do Brasil na Copa Davis e já aprontou muito com os recém-chegados, ou júnior, como ele mesmo diz. “Júnior sofria alguma consequências, mas elas eram muito divertidas”. Entre as vítimas de Meligeni estavam Gustavo Kuerten e André Sá, por exemplo. E o trote era de acordo com a imaginação dos veteranos.

Meligeni ao lado de Guga e companhia na equipe brasileira da Copa Davis, palco dos trotes no tênis
Reprodução/Facebook
Meligeni ao lado de Guga e companhia na equipe brasileira da Copa Davis, palco dos trotes no tênis

“Em uma das nossas primeiras Davis, na disputa contra Bahamas, no Rio de Janeiro (em 1995), o Guga era júnior e a gente o maltratou a semana inteira. Ele tinha que fazer flexão de braço nos lugares que nós pré-determinávamos. Ele fez flexão em farol na avenida de Copacabana. A gente parava o carro, obrigava ele a sair e tinha que pagar as 10 flexões para poder voltar”, fala Meligeni.

Aquela equipe ainda contava com Luiz Mattar, o mais velho e tido como mais bravo do grupo. “No meio da tarde, a gente roubava os colchões do Guga e do André Sá, deixava no quarto do Mattar e obrigava os dois a terem que ir lá, à noite, bater na porta do cara para pedir o colchão de volta. O Mattar fazia a cara de bravo e eles morriam de medo”, diverte-se Fernando Meligeni. Ele e Jayme Oncis também faziam os novatos os acordarem com frases como “Bom dia, meu querido guerreiro”. E ai deles se fizessem algum barulho ao entrar no quarto.

Algumas brincadeiras já são de praxe, como ter que carregar as malas ou as bolas nos treinos. Entretanto, há esportes com suas tradições. Na seleção brasileira de futebol, o atleta convocado pela primeira vez deve fazer um discurso no jantar na concentração. Ronaldo e Robinho já foram os “presidentes” e comandavam as atividades. Agora a tarefa é de Neymar. Na NBA, as pegadinhas são mais elaboradas. Já teve novato que encontrou o carro forrado de pipoca, enquanto outros foram obrigados a usar mochilas, digamos, "fofas". No futebol americano, os veteranoschegaram embalar o carro de um novato com filme plástico. Veja mais na galeria:

De ‘cuecão’ à vida de aposentado

Esportes individuais, como o atletismo, também têm seus trotes. Ronald Julião é atleta do lançamento de disco e arremesso de peso e fez parte do “Projeto do Futuro”. Por lá, os novatos não escapam. “Entrei em 2000 e sempre davam apelido. O meu era Jabu, de jaburu, e eu odiava. Se não fizesse o que eles queriam, levava um ‘cuecão’. Eu era grandão, fugia de todas as brincadeiras e consegui me livrar uns quatro meses. Um dia, o Jadel Gregório se irritou, me pegou sozinho e arrancou a minha cueca. Depois, ainda tive que passar por todos os outros”, revela Julião. “Eu nem fiquei bravo. Acho que eu mereci porque aprontava demais”, completa.

Mais tarde, ele também se aproveitou da situação. “Quando virei veterano, falava que era aposentado e não fazia nada. Os novatos que limpavam meu quarto e pegavam minha comida. E eu ainda os ameaçava se eles contassem alguma coisa para o técnico. Foram três anos nessa vida boa”, diverte-se o atleta. Mas ele também sabia recompensar. “Eram os meus calouros e ninguém podia chegar perto. Eu os defendia, e muito”, afirma.

Qual é o limite?

Ronald Julião já se divertiu com trotes, mas prática foi vetada no atletismo
Agência Luz/BM&FBOVESPA
Ronald Julião já se divertiu com trotes, mas prática foi vetada no atletismo

Nem toda brincadeira é bem aceita. No caso do atletismo, por exemplo, Ronald Julião fala ainda que os trotes acabaram porque alguns passaram dos limites e decidiram acabar com a prática. Nos Estados Unidos, no final de outubro, Jonathan Martin deixou a equipe de futebol americano do Miami Dolphins. De acordo com a ESPN norte-americana, ele saiu depois de sofrer bulliyng e trote nos vestiários. Richie Incognito, apontado como autor das ofensas, foi suspenso por tempo indeterminado.

Fernando Meligeni vê as brincadeiras, pelo menos no tênis, como saudáveis. “A gente já passou dos limites e em um ano jogou todas as roupas e raquete de um menino na banheira pouco antes de ir embora. A gente já tomou esporro de técnico”, confessa o ex-tenista. “A gente sabia que estava sacaneando, mas também dava toda a ajuda em troca na hora dos treinos e na convivência. O cara fazia flexão, mas também aproveitava muito bem o que o veterano podia oferecer”, analisa.

Gabi, do vôlei, concorda e vê a situação até como forma de respeito. “Antigamente falavam que as brincadeiras eram mais pesadas porque tinham que mostrar que existia uma hierarquia e tinha que respeitar isso. Mas eu acho que tem que ser assim mesmo, porque elas são mais velhas e estão há mais tempo. Por respeito, não têm que ficar carregando nada, mesmo”, afirma a ponteira.

Agora, ela espera a sua vez de mudar de lado. “Eu espero continuar na seleção para revidar tudo isso”, brinca.

Veja o discurso com direito a Zeca Pagodinho de Marquinhos na seleção brasileira:


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