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Secretário de Alto Rendimento do Ministério do Esporte vê como real a chance de o Brasil ficar entre os dez primeiros em 2016, mas fala em nova realidade pós-Olimpíadas

Ricardo Leyser, secretário de Alto Rendimento, discursa em inauguração de Centro de Desenvolvimento da Luta Olímpica, em Pirituba (SP)
Glauber Queiroz/Ministério do Esporte
Ricardo Leyser, secretário de Alto Rendimento, discursa em inauguração de Centro de Desenvolvimento da Luta Olímpica, em Pirituba (SP)

Na última terça-feira, logo depois de participar da cerimônia de entrega de novos equipamentos no Centro de Desenvolvimento da Luta Olímpica em Pirituba, o primeiro núcleo oficial da CBLA (Confederação Brasileira de Lutas Associadas) no estado de São Paulo, Ricardo Leyser, secretário de Alto Rendimento do Ministério do Esporte, só tinha um motivo de contrariedade: comentar a péssima fase pela qual passa o seu clube de coração, o Internacional , no atual Campeonato Brasileiro . "O importante é que ninguém pode falar do time do outro, inclusive você", brincou, ao saber da preferência clubística do repórter do iG ..

Como será a participação do Brasil nos Jogos do Rio 2016? Deixe seu palpite

A sinceridade, às vezes exagerada, é uma das características mais evidentes na personalidade de Leyser, 43 anos, responsável por coordenar o financiamento da preparação das equipes brasileiras para os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. E não se trata de pouco dinheiro, muito pelo contrário. Serão investidos cerca de R$ 1 bilhão nos próximos três anos, por meio do Plano Brasil Medalhas. Faz parte deste projeto o programa Bolsa Pódio, que ajudará na preparação dos principais atletas brasileiros, aqueles que são considerados apostas para a conquista de medalhas nas próximas Olimpíadas.

E as metas não são nada modestas. O Ministério do Esporte, ao lado do COB (Comitê Olímpico Brasileiro), planeja colocar o Brasil entre os dez primeiros no quadro geral de medalhas. Logicamente que uma meta tão exagerada como essa, além dos recorrentes problemas na organização dos Jogos do Rio, acabam despertando muitas críticas e denúncias, que são rebatidas com veemência por Leyser. "O problema é que tem gente que não quer trabalhar com a realidade e quer apenas impor a sua visão de que não existe nada no mundo do esporte olímpico brasileiro. Essas pessoas vão sendo desmentidas pela realidade", dispara.

Em entrevista exclusiva ao iG Esporte,   Leyser diz ser perfeitamente viável realizar a meta de colocar o Brasil no top 10 em 2016, a despeito do fato de o país ser competitivo em poucas modalidades olímpicas. Mas faz um alerta: o cofre deverá ser fechado após os Jogos do Rio.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista

iG: A meta de colocar o Brasil entre os 10 primeiros no quadro de medalhas dos Jogos de 2016 não é otimista demais? Especialistas dizem que em menos de oito anos não é possível formar um medalhista olímpico...

RICARDO LEYSER: Não acho ousada. É uma meta atingível, mas desafiadora. Toda meta tem de colocar um desafio, não pode ser para repetir o que já temos feito, mas sim para mudar uma situação. Só que esse trabalho já vem de algum tempo. Só aqueles mal informados que ficam sem explicação. Por exemplo, neste ano já conquistamos 25 medalhas em campeonatos mundiais de modalidades olímpicas. Em 2009, tivemos 11. Sempre conquistamos entre 11 e 15, no máximo. Esses atletas foram formados nos últimos 12 anos. Vamos pegar o Isaquias [Queiroz, campeão mundial da canoagem C1 500 m]. Ele nasceu no programa Segundo Tempo, do Ministério, com a Confederação de Canoagem. Tem Bolsa Atleta desde sempre. Então, ele tem esses oito anos de desenvolvimento. Assim como ele, tem a Sarah Menezes. Ela entrou no Bolsa Atleta com 16 anos. Não resta dúvida que sem essa ajuda ela não teria continuado praticando judô no Piauí.

A criação do Bolsa Pódio tem sido considerado por todos os atletas como uma importante ajuda na preparação para 2016. Mas isso só começou esse ano. Em apenas três anos será possível ver um efeito prático no desempenho dos atletas do Brasil?

Sim, dará, o próprio depoimento de atletas beneficiados pelo programa diz isso. É claro que você não pode fazer um corte muito simplista. O Plano Brasil Medalhas, e o Bolsa Pódio está incluído nele, contém diversos convênios desde 2010 já nesse espírito, com os equipamentos necessários para a preparação, treinamentos no exterior, auxílio para técnicos e atletas. Após 2012, conseguimos consolidar essas ações para um programa mais consistente, e graças à presidente Dilma conseguir um financiamento para um ciclo olímpico inteiro, Mas esse tipo de ação a gente já vê a um certo tempo.

Mas o prazo não é muito apertado para podermos ver resultados?

Creio que não e isso é o que tenho escutado direto de atletas e treinadores. Seis meses de antecedência de preparação adequada é bacana; um ano é melhor ainda; dois anos, muito melhor. Então, o importante não é saber se tal ação começou há quatro anos ou um ano. Para este próximo ciclo, alguma ação talvez tenha começado três anos antes de 2016, outras dois anos. Talvez alguma aconteça apenas na reta final da preparação. Quando for para os Jogos de 2020, 2024, todas essas ações terão cumprido um ciclo inteiro. Sempre tem um começo e sempre ocorre no meio de um período. O importante é começar, fiscalizar e consolidar uma política pública de médio e longo prazo.

Leyser posa ao lado de Marcos Goto, técnico do ginasta campeão mundial Arthur Zanetti: para ele, confederação da modalidade passa por dificuldades
Glauber Queiroz/Ministério do Esporte
Leyser posa ao lado de Marcos Goto, técnico do ginasta campeão mundial Arthur Zanetti: para ele, confederação da modalidade passa por dificuldades


Muitas pessoas temem que após o encerramento dos Jogos de 2016 o esporte olímpico brasileiro irá quase "desaparecer", com o fim dos investimentos atuais. O que você pensa sobre isso?

Não desaparecer, mas [a diminuição de investimento] é um risco que precisaremos lidar. Quando montamos estes núcleos de desenvolvimento, instalações etc, estamos criando uma representatividade social para cobrar essa permanência no futuro. Mas o que teremos em 2017 será uma quantidade tão grande de atletas em desenvolvimento no Brasil que será muito difícil que alguém fale: “Agora acabou, não quero mais, não vai ter mais patrocínio.” Acredito que vamos ter uma diminuição de recursos, mas isso irá acontecer apenas na parte de estrutura para os Jogos Olímpicos. Se tivermos 1/3 em 2017 do que teremos de recursos financeiros atualmente para os Jogos de 2016, será possível manter esta estrutura. Tudo, porém, está ligado aos resultados que iremos obter no Rio.

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Os dirigentes brasileiros já conseguiram aprender a lidar com tantos recursos financeiros disponíveis atualmente, tanto do Ministério do Esporte como da Lei Agnelo/Piva, ou ainda deixam a desejar?

Difícil falar genericamente. Temos casos de sucesso, como o judô brasileiro, que tem uma gestão técnica fenomenal, como também tem o vôlei. Há confederações pequenas, como a do pentatlo moderno, que têm feito um trabalho muito bacana. Outras têm mais dificuldade. O remo, por exemplo, não conseguiu fazer nenhum convênio com a gente. Várias confederações se encontram em uma situação intermediária. A ginástica e o basquete, por exemplo, estão com um desafio muito grande. São modalidades que não há como negar que existe um desenvolvimento, que a situação está melhor do que já foi em termos de resultados e participação, mas que as entidades enfrentam dificuldades. Estamos tentando ajudar para que exista uma uniformidade.

Mas a CBB (Confederação Brasileira de Basquete) teve seu patrocínio com a Eletrobras suspenso, além de ter contraído várias dívidas. Não há um problema sério de gestão nesse caso?

Acho que ocorreu um problema sério na Eletrobras, não na CBB. Independentemente das questões que possam haver entre as duas partes em relação ao patrocínio, a Eletrobras foi a única das estatais que, por uma decisão unilateral, não manteve o patrocínio que tinha assumido, inclusive em ato publico, no Palácio do Planalto. Vamos tentar encontrar alguém que possa ajudar a CBB, pois temos um time que foi quinto colocado no masculino em Londres, com uma base fantástica na LNB, com a liga feminina se estruturando. É o momento de investir e não de sair.

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Qual a maior preocupação do governo em relação à organização dos Jogos Olímpicos?

Os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos são uma preocupação permanente. Trata-se de um evento em que você não pode dormir até eles terminarem. São de uma complexidade tamanha que desafia qualquer país. Acho que a postura correta de encarar a organização destes eventos é de preocupação 24 horas por dia, sete dias por semana, daqui até os Jogos.

Mas e quando aparece um relatório secreto do COI, dizendo da preocupação deles em relação ao atraso das obras?

Bom, é um relatório restrito a quem está na organização, mas esse tipo de relatório existe praticamente todo mês. Nestes eventos sempre existem pontos mais avançados, outros mais atrasados... Mas se você olhar o relatório, verá que as maiores obras já estão prontas. O Maracanã, por exemplo, onde haverá a cerimônia de abertura e que é sempre o maior desafio para qualquer país-sede. Em Atenas, nos Jogos de 2004, até a véspera não se sabia se iriam conseguir fechar a cobertura. No Rio, a maior parte da estrutura está pronta. O percentual de “pontos verdes” na organização dos Jogos no Brasil é muito grande. Estamos com Vila Olímpica e Parque Olímpico em obras, temos mais de 50% dos equipamentos já colocados. Mas foi como eu disse: todos os detalhes precisam ser monitorados.

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A situação do Complexo de Deodoro é a que preocupa mais neste momento?

Deodoro é o que está menos sob controle. Ainda está na fase de projetos, teremos muito mais tranquilidade quando entrar em obra. É o que está mais atrasado, porém as instalações de Deodoro são as menores. Temos um ginásio de 3.000 lugares para fazer, o que representa um cronograma de 12 meses, por exemplo. Mas temos manutenção de um centro de tiro e de hipismo que já existem em Deodoro. No hóquei sobre grama, que terá uma instalação provisória, iremos fazer um campo. Só temos uma instalação com alguma complexidade, que é a canoagem slalom, que também não é nenhum Maracanã, é uma coisa menor. Está atrasado, é nosso foco atual de preocupação e atenção, mas não tem indício de que possa comprometer os Jogos ou que possa custar mais do que estava previsto, pelo contrário, após os ajustes que a Federação Internacional fez no circuito.

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