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Atletas mostram técnicas para treinar mesmo sem neve aqui no país, mas lembram que é preciso também viajar para ser um profissional de alto nível

Leandro Ribela treina com roller ski, um esqui adaptado com rodinhas, aqui no Brasil
Reprodução
Leandro Ribela treina com roller ski, um esqui adaptado com rodinhas, aqui no Brasil

No Brasil, poucos lugares têm temperaturas negativas. E também são raros os lugares com neve ao longo do ano. Mesmo assim, é possível ser um atleta de alto nível de esportes de neve, como esqui, por aqui? Para olímpicos do Brasil, a resposta é sim, mas com algumas ressalvas. Dá para adaptar alguns treinos, porém é fundamental viajar para competir.

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“Nasci em São Paulo, moro em São Paulo, sou casado aqui em São Paulo. E é possível treinar aqui”, afirma Leandro Ribela. Ele, ao lado de Jaqueline Mourão, já tem índice para competir em uma prova do esqui cross-country nas Olimpíadas de Inverno de 2014, em Sochi, na Rússia.

Quando está no Brasil, Ribela pratica o roller ski. “É um esqui com rodinha, que simula toda a técnica do cross-country”, explica. A ideia surgiu na Europa para que os atletas pudessem manter o treinamento durante o verão. A pratica ganhou seguidores e já existe Campeonato Mundial, Copa do Mundo e atletas especializados apenas em roller ski atualmente.

No Brasil, Ribela faz parte de um programa social que incentiva à prática do esporte e ensina o esqui com esse equipamento para jovens em São Paulo. 

Jaqueline Mourão também já andou de roller ski e mostra no vídeo abaixo, publicado em seu blog, a semelhança entre os movimentos da modalidade na rua e na neve. Assista:


A atleta também defende mais uma opção para andar de esqui mesmo longe da neve: deslizar pelas dunas. Jaqueline Mourão e Guido Visser, seu marido e treinador, visitaram Jericoacoara, no nordeste do Brasil, em 2009. Eles levaram os esquis, resolveram testar e aprovaram o resultado. “Você consegue deslizar na areia e já aprende a lidar com o esqui. Claro que não tem como simular o frio, o vento, mas dá para entender como funciona. E pode usar o equipamento de verdade, que é maior que o roller esqui. Dá para ter noção de tamanho, de como virar, de não cruzar ou tropeçar no esqui. É uma possibilidade e acho que a gente até poderia usar mais”, explica.

Jaqueline e Visser gravaram a experiência e atraíram curiosos nas areias. Enquanto jovens brincavam nas dunas, a atleta passeava de esqui. Depois, meninos do local também quiseras experimentar o equipamento. Mais uma vez, esquiadora e marido registraram os momentos em um vídeo no blog de Jaqueline. Veja como foi:


Diferença da adaptação para realidade

Leandro Ribela também foi praticante de biatlo (modalidade que reúne esqui e tiro com carabina) de 2005 a 2010. Ele foi o primeiro brasileiro no esporte e, como já sabia esquiar, começou a treinar aqui no Brasil a parte do tiro. Entretanto, ele descobriu que os treinos disso por aqui foram bem diferentes da realidade quando participou da sua primeira clínica de biatlo na Suécia.

“Atirava indoor, mas é um pouco diferente do tiro olímpico, que é em campo aberto. Ai, cheguei lá achando que o tiro era a minha parte mais forte. Meu técnico sueco me deu a carabina dele para eu regular e a primeira pergunta que ele fez: ‘você já atirou antes?’. Eu fiquei sem graça e até com vergonha de falar que estava treinando aqui no Brasil. Falei que a carabina era muito diferente da que eu estava usando”, lembra Ribela. “Mas no final, quis aprender mais e a viagem serviu para entender do que eu precisava”, conta.


Jaqueline Mourão segue os passos de Leandro. Depois do esqui, ela começou o biatlo e também busca vaga olímpica na modalidade. “O esqui tem como adaptar por aqui, mas o tiro fica muito complicado. Não dá para simular vento e as condições da pista. E isso influencia muito na hora de atirar, de ajustar a carabina”, diz a atleta, que mora com a família no Canadá.

A snowboarder Isabel Clark, que está entre as classificadas para Sochi 2014 até o momento, também sofre para praticar seu esporte por aqui.

“Digamos que dá para ser uma atleta de inverno sendo brasileira. Mas não dá para ser uma atleta de inverno praticando no Brasil e nem competindo no Brasil no meu caso. Apesar de terem espaços onde é possível andar com a prancha, aqui não dá para treinar e nem para competir de snowboard, ainda não”, afirma.

Parte do ano no Brasil, outra na neve

A solução de Isabel Clark foi ter duas casas: uma no Rio de Janeiro e outra no Vale Nevado, no Chile. “Fico cinco meses do ano no Chile, que é a temporada que treino na montanha. Entre as temporadas, eu venho para o Brasil. Passo um mês ou no máximo dois fazendo parte física”, conta. “Os outros meses viajo de novo. Vou para o hemisfério norte para competir. Os principais torneios, como Copa do Mundo, acontecem lá”, completa.

Apesar de dizer que vive no Brasil, Leandro Ribela também se divide. Para os atletas, é possível ficar no Brasil e fazer o treino de base e toda a preparação física para a temporada. Na hora de competir, é preciso viajar. “Geralmente vou para a Europa em novembro, no começo da temporada, e fico até o final de março, quando acabam as minhas competições. No inverno, não tem como simular aqui”, explica.