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Gabriela Cecchini faturou a medalha de bronze no Mundial Cadete apenas com auxílio do clube e dos pais. Dirigente da CBE diz que não há dinheiro para categorias de base

Gabriela Cecchini comemora a vitória sobre a alemã Leandra Behr durante o Mundial da Croácia
Divulgação/Site da FIE
Gabriela Cecchini comemora a vitória sobre a alemã Leandra Behr durante o Mundial da Croácia

O principal resultado do esporte olímpico brasileiro no último final de semana veio em uma modalidade pouco badalada no país. Na cidade de Porec, na Croácia, a gaúcha Gabriela Cecchini, de 15 anos, conseguiu um resultado considerado histórico no esporte, ao ganhar a segunda medalha para o Brasil em mundiais de esgrima, ao ficar com o bronze no florete no Mundial Cadete. Antes de Gabriela, apenas Élora Pattaro , prata no sabre no Mundial de 2003, havia subido ao pódio. Mas a conquista de Gabriela repete a mesma cartilha de velhos tempos, quando não havia dinheiro que existe hoje à disposição do esporte brasileiro: sem qualquer financeira ajuda da CBE (Confederação Brasileira de Esgrima).

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Atleta do Náutico União, de Porto Alegre (RS), Gabriela Cecchini só pôde viajar para a Croácia com o clube pagando as passagens de avião e sua família bancando hospedagem e outras despesas. E ela não foi a única a enfrentar esse tipo de situação. Outros 20 integrantes da delegação brasileira que está na Croácia também tiveram que pagar do próprio bolso sua participação (somente um teve passagem e hospedagem paga pela Federação Internacional da modalidade). Os gastos de inscrição dos 22 atletas no Mundial foi bancado pela CBE.

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O problema é que mesmo em uma época em que há recursos à disposição das entidades esportivas – a CBE receberá este ano como repasse da Lei Agnelo/Piva R$ 1,5 milhão e conta ainda com apoio da Petrobrás no projeto Esporte e Cidadania –, esta realidade está longe de ser uma exceção. “Infelizmente não sobram recursos para as categorias de base, essa é a nossa triste realidade”, reconheceu Ricardo Machado, vice-presidente da CBE.

A brasileira Gabriela Cecchini exibe sua medalha de bronze no pódio do Mundial da Croácia
Divulgação/Site da FIE
A brasileira Gabriela Cecchini exibe sua medalha de bronze no pódio do Mundial da Croácia

A CBE ainda conta com eventuais liberações de verba do Ministério do Esporte, mas mesmo estes recursos não chegam às categorias de base. Recentemente, em fevereiro, foi repassado pelo ministério um total de R$ 1.101.702,21, destinados a intercâmbio e treinamento de nove atletas na Itália e Ucrânia, durante oito meses.

“As verbas que recebemos da Lei Agnelo/Piva são destinadas em sua maioria aos atletas de alto rendimento, manutenção da entidade e realização de eventos nacionais”, justificou Machado.

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Segundo o dirigente, 1/3 do montante recebido pela lei das loterias pela CBE é destinado à organização de nove eventos nacionais, em todas as categorias. Outros 30% são para a manutenção da entidade, gastos com funcionários etc, sem detalhar os números. Pelo repasse de 2013, segundo mostrou o iG Esporte no final de 2012 , estas gastos seriam cerca de R$ 450.000 por ano.

Ciclo vicioso

Se a situação para uma atleta de potencial como Gabriela Cechini está difícil, o quadro geral não se mostra muito mais animador. “O nosso cobertor é curto, não existe mágica. Essa é a história do esporte brasileiro há anos. Na base, os atletas que têm condição de custear suas despesas, ou que contam com quem possa bancá-los, conseguem participar das competições internacionais. Os demais ficam pelo caminho”, diz Machado, que também tem dois filhos esgrimistas e precisa pagar as despesas deles nos torneios.

“Meu temor é o que acontecerá no esporte olímpico brasileiro após 2016. Será que ainda teremos o investimento que existe atualmente? Enquanto não existir uma política pública esportiva de longo prazo no Brasil, que contemple esporte escolar, essa situação não irá terminar”, completou o dirigente.