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Episódio que marcou a história das Olimpíadas, com o assassinato de 11 israelenses por terroristas palestinos, mudou o padrão de proteção nas grandes competições esportivas

A data de 5 de setembro entrou para sempre na história do esporte mundial há exatos 40 anos, mas não por causa de um feito memorável dentro de um ginásio, piscina ou estádio. Em 1972, em plena disputa dos Jogos Olímpicos de Munique, na Alemanha, as competições esportivas foram trocadas por armas, tanques, atiradores de elite e mortes. O sequestro e assassinato de 11 integrantes da delegação de Israel em plena Vila Olímpica, por membros de um grupo terrorista palestino chamado “Setembro Negro”, manchou a história olímpica. A tragédia de 40 anos atrás também trouxe lições importantes e o principal legado talvez tenha sido mudar o parâmetro de segurança das grandes competições esportivas a partir do caso.

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“Depois de tudo o que aconteceu, a segurança passou a ser a marca registrada de todas as competições esportivas do mundo. Nas Olimpíadas de Moscou, em 1980, por exemplo, tinha mais soldados do que atletas”, disse o ex-pivô Marquinhos, da seleção brasileira masculina de basquete e que esteve nos Jogos de Munique. De fato, o que se viu a partir dos eventos ocorridos em Munique foi uma mudança radical nos padrões de segurança, não somente em Jogos Olímpicos.

“Em 72, na Vila Olímpica, havia um espaço de convivência em que as pessoas podiam circular livremente e ter contatos com os atletas. O olimpismo sempre pregou isso, a mistura dos povos, a troca de experiências. Hoje não se pode pensar realizar esse tipo de competição sem muita segurança. Quem viu a Olimpíada até 1972 viu, quem não viu, não verá mais”, comentou o advogado Alberto Murray, neto do ex-presidente do COB (Comitê Olímpico Brasileiro), Sylvio de Magalhães Padilha e que estava em Munique na ocasião do atentado.


É impossível assegurar com 100% de certeza que se os rigorosos padrões de segurança existentes nos recém-encerrados Jogos de Londres 2012 fossem aplicados em Munique 1972, o atentado aos israelenses seria evitado. Mas a verdade 40 anos atrás os terroristas palestinos de um grupo chamado “Setembro Negro” entraram com relativa facilidade na Vila Olímpica na madrugada daquele 5 de setembro e invadiram um dos prédios onde estava delegação de Israel.

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Na ação, logo de cara foram assassinados dois atletas. Após fazer nove reféns, os terroristas começaram uma longa negociação com as autoridades alemãs, que se prolongou durante todo o dia. Sem chegar a um acordo, a polícia alemã armou uma operação para surpreender os terroristas na base área de Furtenfeldbruck, próxima a Munique. A tentativa de resgate foi um desastre completo e após um longo tiroteio que durou 45 minutos, os nove israelenses foram mortos, além de cinco terroristas e um policial alemão.

Falta de informações

Nelson Prudêncio só soube do atentado aos israelenses depois que tudo terminou
Divulgação/CBAt
Nelson Prudêncio só soube do atentado aos israelenses depois que tudo terminou

Em uma época sem internet, o atentado de Munique recebeu uma ampla cobertura da imprensa na época, mas dentro da Vila Olímpica, com exceção dos prédios vizinhos ao do Israel, pouco se sabia do drama que ocorria. “Nós não sabíamos de nada, nossa única preocupação era treinar e competir. Além disso, tudo ocorreu de madrugada, não ficamos sabendo”, lembrou Nélson Prudêncio, que em Munique conquistou uma medalha de bronze no salto triplo, uma das duas obtidas pelo Brasil naqueles Jogos (a outra foi também um bronze, com o judoca Chiaki Ishii).

“O helicóptero estava atrás do nosso alojamento, mas na hora a gente não sabia o que estava acontecendo. Ninguém podia entrar ou sair da Vila Olímpica. E como não tinha internet, não dava para a gente ter acesso às informações. Só fomos descobrir tudo depois. Na hora, era difícil ter alguma dimensão do que isso tudo representava. Demorou para ter a noção do grande impacto que aquilo causou”, comentou o ex-pivô Marquinhos.

Segundo Prudêncio, a sensação após descobrir o que havia ocorrido foi péssima. “A gente se preocupava apenas com nossas competições, mas não deixa de ser algo constrangedor saber que atletas foram mortos em plena Olimpíada”, afirmou. Para Marquinhos, trata-se de um trauma que jamais será superado.

“É uma sensação horrível, que te marca para o resto da vida. O sentimento que tenho é de tristeza por ter participado de um ato tão triste, por ter ficado próximo de algo tão revoltante. Nós ficamos revoltados pelo fato de outros atletas terem sido feito de reféns. Nós competíamos uns contra os outros durante os Jogos, mas nos cumprimentávamos e convivíamos juntos depois. Éramos todos iguais. E quando essa pureza de sentimentos que nós tínhamos foi arranhada, ficou uma cicatriz”, afirmou.