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10/11 - 10:27

De volta, Derly diz que patrocínio pode influenciar vaga olímpica

Como agora cada atleta luta por um lugar no ranking com os resultados obtidos, judoca espera contar com recursos para ir às competições

Gazeta Esportiva

SÃO PAULO - Sogipa e Minas Tênis Clube se enfrentam no Grand Prix Nacional de Judô. Na beira do tatame, João Derly é o próximo a lutar. Ansioso, ele morde os lábios, ajusta a faixa na cintura e esfrega o quimono azul com a palma das mãos e a sola dos pés repetidas vezes. Durante o duelo com Yuri Miranda, o gaúcho de 1,63m é observado até mesmo pelos judocas evolvidos em outra disputa. A 38 segundos do final, ele vence por ippon. Sem alarde, o único brasileiro bicampeão mundial voltou na tarde da última sexta-feira.

Com uma lesão muscular, Derly passou quatro meses longe dos tatames. Minutos após sua primeira luta, ele concedeu entrevista exclusiva à GE.Net. Campeão mundial no Cairo-2005 e no Rio de Janeiro-2007, o brasileiro perdeu a chance de defender seus títulos na Holanda. Angustiado ao falar sobre a temporada perdida, o judoca cuida dos detalhes de seu retorno pensando no início da corrida por uma vaga nas Olimpíadas de Londres-2012.

Após os Jogos de Pequim, a Federação Internacional de Judô (FIJ) decidiu mudar o sistema de classificação olímpico. Antes, as vagas eram distribuídas por países, que podiam determinar seus representantes em cada categoria através de seletivas. Agora, cada atleta luta pelo próprio lugar em um ranking que levará em conta os resultados obtidos entre 1º de maio de 2010 e 30 de abril de 2012. Assim, o judoca que contar com recursos para participar dos torneios importantes no exterior multiplica suas chances.

Diferente de seus principais companheiros na seleção brasileira, que dizem confiar nos critérios da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), João Derly;vê as condições financeiras de cada atleta como fator determinante na disputa pela vaga olímpica. "Aquele que tiver um aporte melhor de patrocínio para poder viajar, pode sim sair beneficiado", disse o judoca. Suspenso por doping em 2002, ele ainda deu conselhos para a ginasta Daiane dos Santos, imersa no mesmo problema.

GE.Net - Depois de sofrer uma lesão durante o treinamento no começo de julho, você acabou de voltar a lutar. Como foi esse primeiro combate? Sentiu alguma dor, ainda tem receio de fazer alguns movimentos?
João Derly -
Fiquei muito contente de voltar ao tatame. Em todo recomeço, a gente se empolga. Acho que ainda estou muito longe em termos de preparação e senti um pouco a luta, mas peguei um atleta duro logo de primeira. Graças a Deus, não senti a lesão, mas também não fiz nenhum movimento que pudesse trazer a dor de volta. Então, vamos ver se tudo corre bem daqui para frente.

GE.Net - Você pretende participar do Grand Slam de Tóquio, em dezembro. O que está projetando para essa competição? Acha que pode brigar por medalha ou a ideia é apenas ganhar ritmo de competição?
João Derly -
Quero participar de uma competição internacional ainda nesse ano para começar a pegar ritmo. Acho que vai ser muito importante, porque é sempre diferente dos treinamentos. Tenho só um mês de preparação, por isso é difícil falar em título. Mas eu entro em todas as competições com vontade de vencer, então se minha vontade prevalecer sobre os adversários, quem sabe posso trazer uma medalha. Mas o objetivo principal é estar competindo e dar o reinício que estou precisando.

GE.Net - Por conta da crise econômica mundial, a Federação Internacional de Judô decidiu não levar em conta os resultados dessa temporada na classificação para a Olimpíada de Londres. Essa medida acabou sendo boa para você...
João Derly -
Para mim, foi muito bom. Acho que não só para mim, mas também para a maioria dos atletas. Você passar quatro anos em competição e se manter bem nesse período, é muito difícil para o atleta. Também é muito difícil para montar o treinamento dos judocas. Então, acho que favorece a todos esse começo um pouco mais tardio.

GE.Net - O que você achou desse novo sistema de classificação olímpica?
João Derly -
Eu acho que todos os sistemas têm prós e contras. Nessa fórmula, o bom é que o atleta é que vai se ranquear e garantir a vaga. Isso favorece aqueles que estão melhores. O ruim é que tem que estar competindo mais fora e buscando viagens, além de que já estamos acostumados com um sistema de avaliação e agora é outro. O judô está passando por várias mudanças e a cabeça do atleta gira um pouquinho às vezes.

GE.Net - Nesse contexto, ainda mais com a crise econômica mundial, você acha que a condição financeira de cada atleta pode acabar tendo um peso significativo na definição da vaga olímpica?
João Derly -
É... Talvez possa acontecer isso. A Confederação vai tentar dar o suporte para que todos tenham a oportunidade de chegar, mas aquele que tiver um aporte melhor de patrocínio para poder viajar, pode sim sair beneficiado.

GE.Net - Já estamos em novembro, época de começar a fazer aquele balanço do ano. Você se lesionou no começo de julho, perdeu o Mundial da Holanda e está voltando agora. Como foi essa temporada para o João Derly?
João Derly -
Eu já vinha de um ano difícil em 2008, com muitas lesões. Acho que aquela ansiedade de querer voltar antes para o treinamento por causa da Olimpíada acabou me prejudicando em Pequim. Então, esse era um ano de reestruturação, de treinamento. Eu vinha já numa melhora, vinha sentindo minha evolução durante o ano, mas acabou surgindo a fatalidade de me machucar num treinamento antes da Copa do Mundo (de Belo Horizonte). São essas as coisas que um atleta tem que lidar: com a derrota, com a lesão. Então, esse momento de lesão você sente bastante. Agora, tem que tentar acertar para que no ano que vem tudo corra bem no começo da classificação olímpica.

GE.Net - Quando perguntei sobre o seu ano, você fez uma cara de angústia. Dá para dizer que 2009 foi um ano perdido para você ou seria um exagero afirmar isso?
João Derly -
É... Quando você tem uma lesão que leva tempo para recuperar, fica bem apreensivo, porque você fica fora dos tatames, fora das competições, perde um pouco aquele ritmo. Então, fica aquela angústia no atleta de querer voltar o mais rápido possível. Graças a Deus, dessa vez eu consegui ter paciência para voltar devagarinho e sem me cobrar muito. Tive essa consciência de voltar com calma para fazer as coisas correrem bem. É uma linha muito tênue, é muito difícil saber o momento de apertar um pouco mais e de segurar. Estivemos em constante contato com o treinador, com o preparador físico e com o psicólogo para fazer sair tudo bem.

GE.Net - Em função da lesão, você ficou fora do Mundial da Holanda e não pôde defender os títulos conquistados no Cairo-2005 e no Rio de Janeiro-2007. Você assistiu pela televisão ou procurou ficar um pouco mais distante?
João Derly -
É duro ficar fora de uma competição importante e que seria ainda mais importante para mim por estar defendendo o titulo pela segunda vez. Então, fiquei um pouco chateado, é claro. Mas acompanhei o Mundial porque sou um apaixonado pelo judô. Vi a participação dos brasileiros e como se saíram os estrangeiros. Tive aquele sentimento de não ter ido e fiquei só na torcida. Então, você acaba ficando um pouco mais nervoso assistindo do que estando lá.

GE.Net - O judoca Tsagaanbaatar Hashbaatar, da Mongólia, venceu o espanhol Sugoi Uriarte e foi campeão mundial na sua categoria. Pelo nível da disputa entre os meio-leves, você acha que poderia ter brigado por medalha?
João Derly -
É complicado dizer isso. Acho que só estando na competição para poder falar alguma coisa nesse sentido. Muitas vezes, você acha de repente que o nível estava bom ou não estava, mas só vivenciando o momento para dizer isso. Como fiquei de fora, não posso imaginar como poderia ter sido.

GE.Net - Mas com certeza o pessoal ficou pilhando você: "Pô, Derly... Se você estivesse lá, teria ganhado medalha"...
João Derly -
(risos) O pessoal ficou tranquilo e nem comentou muito do Mundial comigo porque sabia que eu estava bem triste pela lesão.













AFP
QUESTIONADO NA RUA POR SUPOSTA TRAIÇÃO


Um dos favoritos ao ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim, João Derly foi derrotado pelo português Pedro Dias logo na segunda luta. Na época, o algoz se disse vingado por uma suposta traição do brasileiro com uma antiga namorada.

"No momento, foi muito delicado para mim. Eu já vinha chateado com a derrota na Olimpíada e ainda tive que responder aquilo. Até as pessoas na rua me questionavam sobre isso", revelou Derly.

O brasileiro negou a acusação e em seguida Pedro Dias tentou colocar panos quentes. "Foi um momento bem frustrante, mas hoje em dia já dou risada do episódio. Nunca mais voltei a encontrá-lo", disse Derly.



GE.Net - O Brasil ficou fora do pódio pela primeira vez desde 2001. Já que você acompanhou, como analisa o desempenho dos brasileiros na Holanda?
João Derly -
Eu acho que esse Mundial teve algumas peculiaridades. Dois atletas nossos fortíssimos e com chances de medalha, como o Luciano (Corrêa, meio-pesado) e o Tiago (Camilo, peso médio), perderam para atletas novos e que não conheciam muito bem (Corrêa foi derrotado pelo mongol Temuulen Battulga e Camilo perdeu para o sul-coreano Kyu-Won Lee - futuro campeão mundial). Talvez eles não tenham estudado bem esses adversários e acabaram surpreendidos. Outro aspecto que também prejudicou muito a participação dos brasileiros é que não houve repescagem. Como o Tiago perdeu para o campeão, não voltou para lutar pelo bronze. Então, acho que esses aspectos acabaram prejudicando os brasileiros.

GE.Net - No Mundial anterior, disputado no Rio de Janeiro, você, o Tiago Camilo e o Luciano Corrêa foram campões e o João Gabriel Schlittler ainda ganhou o bronze. Você acha que esse desempenho, o melhor do País na história da competição, acabou criando uma expectativa prejudicial?
João Derly -
(Antes do final da pergunta, o judoca balança a cabeça afirmativamente). O fator local fez muita diferença e deixou os brasileiros mal acostumados. A gente sabe da dificuldade que é o Mundial, até 2005 o Brasil ainda não tinha medalha de ouro. No Mundial anterior, a gente obteve três medalhas de ouro e uma de bronze. Isso deixou todo mundo mal acostumado, deixou todo mundo achando que o Brasil poderia fazer medalhas a qualquer momento. A gente sabe da dificuldade que é o Mundial, todo mundo treinou muito e nossos principais atletas foram muito estudados. Então, acho que isso desfavoreceu um pouco a nossa equipe.

GE.Net - Você acha que esse desempenho abaixo do esperado pode ter alguma consequência maior, como perda de visibilidade ou diminuição de patrocínio?
João Derly -
Acho que são coisas do esporte. A gente nunca sabe o resultado e esse Mundial teve muitas vitórias de atletas diferentes (32 dos 56 campeões em Pequim disputaram o Mundial, mas apenas 11 medalharam e somente a peso pesado chinesa Tong Wen conseguiu repetir o título). Isso demonstra a globalização, a dificuldade que é hoje em dia a gente praticar um esporte que não tem mais país fraco. Diversos países que antigamente não eram conhecidos, hoje estão despontando no cenário mundial. Isso aumenta a qualidade e a dificuldade, também.

GE.Net - Por outro lado, no Mundial Júnior o Brasil foi bem, especialmente no feminino. A Mayra Aguiar (meio-pesado) e a Mariana Silva (meio-médio) ganharam o bronze e a Sarah Menezes (ligeiro) foi campeã...
João Derly -
Acho que o feminino demonstrou uma evolução grande já no Mundial Sênior. Tivemos dois quintos (com a ligeiro Sarah Menezes e a leve Rafaela Silva) e a chance da medalha passou muito perto. A Mayra Aguiar, minha colega de treino, voltou de cirurgia e ganhou sua terceira medalha em Mundial Júnior, um recorde. A Sarah Menezes foi bicampeã mundial júnior. Então, são recordes sendo batidos no feminino. Fico muito feliz com essa evolução das meninas.

GE.Net - Mas no masculino o Brasil passou em branco...
João Derly -
Fico um pouco triste pelo masculino, que poderia ter ido um pouquinho melhor. O masculino vem passando por uma etapa de renovação. Se Deus quiser, essa gurizada vai chegar de novo e trazer medalhas nos Mundiais Júnior, como há muitos anos o Brasil vem trazendo e deu uma paradinha agora.

GE.Net - No Cairo-2005, você foi o primeiro brasileiro a ganhar um título mundial de judô. No Rio de Janeiro-2007, repetiu o ouro ao lado do Tiago Camilo e do Luciano Corrêa. Não ser mais o único tira um peso das suas costas? De alguma forma, você se sente responsável por abrir as portas?
João Derly -
Eu fico feliz, muito contente. Saiu aquele negócio que todo mundo falava: "ah, o Derly é o único brasileiro campeão mundial". Acho que foi muito bom quando eles também se tornaram campeões mundiais. Foi importante para mim. Não sei se tive participação direta na vitória deles, mas fico muito contente de poder ter aberto as portas e no Mundial seguinte o Brasil ter conquistado três medalhas de ouro.





GE.Net - Você é o único judoca da história do Brasil a ganhar o bicampeonato mundial. Com uma medalha de ouro olímpica, pode ser o maior judoca da história do País em termos de resultado. Isso é um objetivo da sua carreira?
João Derly -
Olha, é uma coisa que eu nunca procurei. Quando fui o primeiro brasileiro (a ganhar o Mundial), até me assustei com as comparações. Uma coisa que nunca fiz na vida e nunca vou fazer é me comparar. Tenho como grande ídolo o Aurélio Miguel (tem um ouro e um bronze olímpicos e duas pratas e um bronze em Mundiais). Para mim, ele está em uma estante de vidro e é intocável. O que busco sempre na vida esportiva é dar o meu melhor, dar o meu máximo. Se tiver que sair com medalha olímpica ou mais algum título, eu sei que isso pode acontecer no futuro. Mas também se não acontecer nada, vou sair realizado, porque sei que dei o meu melhor. Então, não busco e não quero em nenhum momento ser comparado ou ser intitulado um dia como "o melhor judoca do Brasil".

GE.Net - Nos Jogos Olímpicos de 2016, você estará com 35 anos. Pretende competir ou quer participar de alguma outra maneira?
João Derly -
Um passo de cada vez! (risos) 2012 está mais perto e só depois tem 2016. Eu vou estar presente de qualquer maneira. Seja na torcida ou lutando, mas o foco principal agora é 2012 e depois a gente vê o que vai fazer. Não dá para dizer que não vou se depois posso estar em uma boa fase... A gente não sabe, tem muito tempo ainda para mudar.

GE.Net - Em 2002, você testou positivo para um diurético e tomou seis meses de suspensão. A ginasta Daiane dos Santos foi flagrada com o mesmo tipo de substância. Que conselho você pode dar à sua conterrânea?
João Derly -
Esse momento é muito difícil. Realmente, você conhece as pessoas nesses momentos. Fico muito triste por conhecer a Daiane e saber o caráter dela. O que posso dizer é que nesse momento tem que pegar o suporte com a família e daqueles amigos verdadeiros, que eles fiquem perto dela nesse momento difícil. Você se sente marginalizado, parece que as pessoas te olham até diferente. Tem que segurar essas pessoas que podem dar um suporte bem grande de carinho para que ela possa passar por essa dificuldade. Ela já passou por muitas outras, superou muitos problemas e provavelmente vai superar esse também.

GE.Net - Li que você chegou a pensar em abandonar a carreira nessa época, mas começou a surfar e se dedicou à Igreja. O negócio nesses momentos é procurar se ocupar com coisas diferentes?
João Derly -
Foi um momento de tirar um tempo para mim. Me apoiei bastante na família e na Igreja. Recebi o carinho dessas pessoas. Tirei um tempo livre para surfar e relaxar. Acho que é o momento de ela desocupar um pouco a cabeça, sair um pouco daquele burburinho para poder relaxar e se preparar para essa luta que vai enfrentar agora. Tem que tirar um momento para ela e tentar fazer uma coisa diferente na vida.

GE.Net - Na época, você lutava na categoria até 60kg e tinha dificuldade para manter o seu peso. Como foi esse doping? Alguém te ofereceu, você resolveu tomar?
João Derly -
Na verdade, não consegui achar o que tinha tomado que pudesse... Fizemos uma busca para ver que remédio eu tinha tomado e não conseguimos achar. Posso ter ingerido alguma coisa que eu não sabia ou alguma contaminação... Não conseguimos avaliar isso, o que me deixou ainda mais apreensivo, porque não sabíamos de onde vinha. É uma coisa que não gostaria que ninguém passasse. É um momento bem difícil na carreira.

GE.Net - Atualmente, qual é a importância da religião na sua carreira?
João Derly -
Fundamental. Acho que esse apoio, essa segurança... Na verdade, é uma segurança muito grande que o apoio religioso me proporciona, uma autoconfiança muito grande, saber lidar com as derrotas e com as vitórias. Isso é muito importante. Então, acho que é fundamental na minha carreira.

GE.Net - No futebol, os chamados Atletas de Cristo são frequentes. Como é essa questão da religiosidade no judô? O pessoal respeita ou você já sofreu algum tipo de preconceito?
João Derly -
Não, pelo contrário. O pessoal encara normalmente. Talvez pelo respeito ao próximo, que vem do Japão, ninguém nunca me perseguiu por isso. Muitas vezes, até pedem orações, pedem uma ajuda, uma conversa. É muito bom, os atletas do judô têm uma postura muito boa.

GE.Net - Para terminar, sei que você é colorado. Acha que o Inter ainda tem chance de ganhar o Campeonato Brasileiro?
João Derly -
Estou torcendo bastante, mas o Inter não emplaca no Brasileirão! Fui a alguns jogos e tenho acompanhado, mas quando você acha que o time vai, ele resvala (sorri). A última foi contra o Botafogo, aquela derrota lá ficou muito engasgada (na 33ª rodada do Campeonato Brasileiro, o time carioca venceu por 1 a 0 no Beira-Rio).


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