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06/05 - 10:10

Livro revela história do diário Lance! e discute o jornalismo esportivo no Brasil
Ampla pesquisa do jornalista Maurício Stycer, a obra traz saborosas histórias sobre os bastidores da imprensa esportiva brasileira

Por Gian Oddi, do iG Esporte


SÃO PAULO - “História do Lance! – Projeto e prática do jornalismo esportivo”, livro que o jornalista Maurício Stycer lança nesta quarta-feira pela editora Alameda, é bem mais do que o relato e a cronologia do surgimento daquele que é hoje o maior diário esportivo da América Latina – embora, convenhamos, isso já não fosse pouco.

Para narrar o nascimento, o crescimento e a consolidação do jornal Lance! – do qual participou como editor-executivo em sua primeira equipe, formada em 1997 –, Stycer vai além e conta, também, a história da imprensa esportiva (e não só) brasileira, desde o início do século 20, passando por Mário Filho e chegando aos dias atuais.

Compreende-se: o livro de Stycer, repórter especial e dono de um blog no iG, é resultado de uma tese de mestrado em Sociologia que exigiu do autor um intenso trabalho de pesquisa. Foram mais de 80 livros, teses ou ensaios pesquisados, 20 entrevistas, além de inúmeras consultas a jornais, revistas, almanaques, crônicas, biografias, manuais técnicos, documentários e sites sobre o tema.

Embora o texto tenha profundidade acadêmica, as deliciosas histórias colhidas pelo autor, sejam elas fruto da própria experiência no Lance! ou da pesquisa sobre o futebol e a imprensa esportiva no Brasil, dão ao estudo um caráter jornalístico que acaba por tornar a leitura do livro muito saborosa.

Maurício inicia sua pesquisa nos fatos do começo do século passado, quando o futebol ainda era classificado por alguns como “um modismo elegante”, para relembrar e comprovar, por exemplo, uma antipatia do consagrado jornal O Estado de S.Paulo em relação ao Palestra Itália, na década de 10.

“Parcialidade, má vontade, preconceito? Independentemente do que motiva O Estado de S.Paulo no período, é evidente que a questão étnica relacionada ao Palestra não escapa ao alcance do jornal”, conclui, referindo-se às origens italianas do time – hoje, o Palmeiras.

O bairrismo, originado com os dirigentes e depois ampliado à imprensa, é outro tema recorrente na obra. Desde o capítulo dedicado às origens da imprensa esportiva, quando São Paulo e Rio lutavam pela supremacia no país, até chegar à redação do Lance!, na qual o autor exemplifica, com a publicação de uma ríspida troca de e-mails (da qual ele próprio é um dos protagonistas), um episódio da “rivalidade” entre as redações paulista e carioca do diário.

Em um jornalismo tradicionalmente “visto como menor”, as mazelas não são poucas e nem recentes. O bairrismo e a parcialidade são exemplos. A relação promíscua entre imprensa e jogadores/dirigentes é mais um e, como revela o autor, ganha “outra dimensão a partir dos anos 80, quando crescem os investimentos de marketing esportivo, os negócios de compra e venda de jogadores mobilizam um maior número de agentes e a comercialização de direitos de transmissão de jogos alcança cifras milionárias”.

Aqui também Maurício Stycer expõe um exemplo das origens do problema relembrando uma inusitada entrevista de João Saldanha ao comentar o artifício que usou para enganar os jornalistas e liberar os atletas da concentração (da qual era contra) na Copa de 1970.

“Criei um esquema: todos desciam à noite numa Kombi, deitados no chão, cobertos com uma colcha, para a imprensa moralista, a que leva grana do cartola, não dedurar. Tinha um acordo: não podia trocar de mulher na mesma semana. Uma vez o goleiro Ado falhou e tinha de cumprir a pena de suspensão por cinco dias. Ele dizia ‘...mas era um avião, seu João, um avião’. Liberei com três dias, afinal era um avião.”

O Lance! como exemplo
Para contar a história de sucesso do Lance!, Stycer também traça um perfil de seu idealizador e proprietário, Walter de Mattos Jr., que classifica como uma “figura fascinante, corajosa, mas não tão inovadora quanto pretende fazer crer”, e o compara com os perfis de outros importantes homens de imprensa como Cásper Líbero, Thomaz Mazzoni e Mário Filho.

Traz à baila, assim, a discussão de temas determinantes para se compreender os rumos tomados pelo jornalismo esportivo brasileiro. Como, por exemplo, a influência dos proprietários no conteúdo dos veículos, seja para seguir as linhas editoriais definidas visando o sucesso comercial ou mesmo pelo mais prosaico dos motivos, a paixão por um time — no caso de Mattos, o Flamengo.

“Uma vez eu estava na sala do Walter e vi ele ligar para a redação e pedir que baixassem a nota [para a atuação] do Athirson..Ele ligou pra redação, perguntou qual era a nota do Athirson e mandou dar 2... Fiquei muito chocado”, conta, numa passagem do livro, André Fontenelle, um dos editores executivos do Lance! na época. 

Os bastidores da negociação para conseguir acionistas, a escolha da linha editorial e a necessidade de se criar um personagem que simbolizasse o leitor padrão do diário, a conturbada relação com as Organizações Globo, os dilemas sobre um eventual auxílio do Estado, o critério para seleção de funcionários (quase sempre jovens e homens) e os bastidores das coberturas bem e mal sucedidas são outros temas que ajudam a compreender as deficiências e os méritos do panorama do jornalismo esportivo no Brasil.

Na introdução do livro, Stycer lamenta: “Sempre soube que este estudo iria pagar algum pedágio à minha formação. Trabalhei seguidamente, por 20 anos, dentro de redações de jornais e revistas. Evidente, esta experiência está entranhada no trabalho. Há cacoetes insuperáveis, incorporados como prática profissional, que talvez sejam incompatíveis com a pesquisa acadêmica”.

Pode ser. Mas talvez seja justamente esse “pedágio” que faz da leitura de seu estudo não apenas uma obrigação para profissionais e estudantes interessados no jornalismo esportivo. Mas também um prazer para quem é, simplesmente, apaixonado por notícias de esporte.

Convite de lançamento do livro de Maurício Stycer


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Fernando F. Godoy

Maurício Stycer

Maurício Stycer
Colunista do iG lança nesta quarta-feira seu livro que conta a história do diário esportivo Lance!

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