iG - Internet Group

iBest

brTurbo

 

Mais Esportes

01/01 - 10:50

A São Silvestre de quem corre por diversão e pelo desafio pessoal
Atleta da corrida mais festiva do Brasil pela 3ª vez, repórter do iG Esporte mostra a prova que não se vê pela televisão

Por Bruno Pessa, do iG Esporte

SÃO PAULO - Quem acompanha a Corrida de São Silvestre pela televisão pode pensar que depois de uma hora tudo está resolvido, afinal os dez primeiros no masculino e no feminino já cruzaram mesmo. Mas se você estiver correndo ou assistindo nas ruas que compõem o percurso, perceberá que a grande maioria dos atletas faz "outra" corrida, bem mais lenta porém muito mais divertida. 

Pela terceira vez eu fui um desses atletas. Abaixo, trago cenas da São Silvestre do pelotão geral - isso mesmo, o "povão", afinal, dos 20 mil inscritos, a grande maioria é anônima mas dá seu show particular.

* Antes de alinharmos para a largada, o desfile de atletas fantasiados e exóticos não pára. Mas muita gente pára para uma fotografia.

* Lá atrás, só sabemos que o pelotão de elite já largou porque soa uma alta buzina e o locutor oficial fala o tempo inteiro. Enquanto os primeiros rasgam a Avenida Paulista, nós temos de andar uns 500m, pois é tanta gente que fica impossível correr desde o início.

* Na Paulista e na Avenida da Consolação estão nossas últimas chances de tentar aparecer na transmissão da televisão. Basta que as câmeras se aproximem para levantarmos braços, gritarmos e mostrarmos nossas mensagens - meu cartaz dizia "Corra você também e seja feliz! Viva 2009!"

* Minha meta era tentar completar a corrida em cerca de 1h40min, meu melhor tempo, de 2005. Mas quando encontrei um grupo uniformizado portando uma enorme bandeira do Brasil (Playteam), fazendo algazarra com todos que viam no percurso, achei que me divertiria mais diminuindo um pouco o ritmo. 

* Na Praça da República, a multidão de corredores se dispersa um pouco. A maioria dos espectadores mexe com o pessoal da bandeira, muito engraçado.

* Na famosa esquina da Ipiranga com a São João, o relógio marca 25º C, tempo abafado com o céu fechando. A equipe da bandeira puxa o grito "Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor", e o público responde.

* Muito calor antes da subida do Minhocão (Elevado Costa e Silva). No primeiro posto de distribuição, os copinhos d'água vão muito mais para refrescar a cabeça do que matar a sede. Muitos pegam água e dão para quem ficou sem.

* Dos prédios do Minhocão, muita gente nas janelas, vibrando e brincando conosco. Diante das manifestações femininas, os corredores mandam beijos e se declaram.

* Completamos um terço da prova: 5 km em 35 min. A média é de 7min/km, acho que sem acompanhar o bandeirão eu faria 6min, 6min30s. Considerando que os vencedores fazem algo próximo de 3 min/km, é realmente outra corrida...

* Piada recorrente entre o pessoal do bandeirão: "Ninguém quer carregar o Brasil nas costas! Nem o Lula quer, porque eu vou querer?"

Arianne Azevedo
sao
Alguns daqueles que fazem o verdadeiro show da "São Silvestre B", antes da largada


* Sempre que ultrapassávamos alguém, o grupo mandava a bandeira subir e chamava o ultrapassado de "tartaruga". Isso sem falar nas brincadeiras com os variados personagens que íamos encontrando no caminho. Um azarado resolveu urinar no muro bem na nossa frente. Coitado...

* Muitas bandeiras do Brasil nos prédios, criando identificação com nosso bandeirão e facilitando a interação com o público, que gritava, torcia, incentivava e fotografava. Nós curtíamos e respondíamos: "Quem não corre, aplaude!"

* Descendo o Minhocão, ja sabíamos os resultados finais no masculino e no feminino através dos espectadores nos prédios. O vento frontal estava bom para se refrescar, não havia sol.

* Eu estava com uma pochete portando caixinha de água de côco e gravador, para registrar os principais momentos, mas ela foi caindo da cintura, tive de tirar e jogar numa lata de lixo. Continuo com o cartaz, vou tentar levá-lo até o final para subir a mensagem de novo!

* Quem comia e bebia ao redor do percurso fazia um gesto de oferecimento para nós, muitos saíam dos bares e vinham nos ver. Não tem como não se sentir importante...

* Na Alameda Olga e Rua Margarida, três mangueiradas d'água em cima da gente e mais diversão. E quando cruzávamos os pontos de hidratação, a turma da bandeira pegava vários copinhos d'água e jogava no centro dela, que servia como balaio para transportar água para quem quisesse.

* Passamos da metade: 8km em 57 min. "Olha o Brasil, pessoal, tá chegando!".

* Tempo estranho na Avenida Rudge: aberto do lado do centro, bem fechado na direção da Marginal Tietê. Quando a chuva cai de vez?

* Minhas pernas começam a pesar depois do km 9 (1h04min), até o pessoal parou de falar um pouco, sentindo o cansaço. Muitos corredores estão caminhando, sem força para correr.

* As coisas complicam no km 10, 1h12 de prova: muita água na cabeça, mas as costas começam a doer mais que as pernas e já sinto bolhas no pés. O jeito é tentar manter a postura ereta e diminuir um pouco o ritmo.

* O relógio da Av. Duque de Caxias com a Av. Rio Branco aponta 18h23, 25ºC. Começa a ventar forte e escurecer, mas a "platéia" se aglomera, brinca com os atletas fantasiados, todo mundo participa, só os policiais ficam parados e mudos.

Divulgação/Yescom

band

O bandeirão conduzido pelos atletas da Playteam



* Com 11km feitos em 1h20, sei que não vai dar para igualar 1h40 no fim do percurso. Mas diante do meu cansaço, esse ritmo está ótimo. E ouvir um sorridente e sincero "Feliz Ano Novo" de pessoas que nem me conhecem não tem preço!

* 1h25 de corrida no centrão (Teatro Municipal, Prefeitura, Largo São Francisco). O corpo pede para parar, mas a cabeça vai impulsionando, o pensamento tem que ser positivo, o público sente que precisa dar apoio aos corredores que não escondem a enorme fadiga.

* Enfim, a temida Av. Brigadeiro Luís Antônio, mais de 2km de subida. Com 1h36 passamos dos 13km, o vento refresca, e diante do subidão o jeito é gritar palavras de incentivo com os colegas e a platéia. "Vamos, vamos, falta pouco! Brigadeiro, eu vou te devorar!"

* Depois de perder peso, o corpo fica enfraquecido e a fome bate; ver as pessoas comendo nos bares e padarias é uma tortura!

* 1h44, falta só um 1km! Reduzi ainda mais e fiquei atrás do grupo da bandeira, o cansaço aliado à subida deixa meu corpo mais pesado ainda, mas nada de parar, tá acabando!

* Alívio total: às 18h56, com 20ºC, subo meu cartaz na esquina da Brigadeiro com a Paulista - depois de 15km e muitos banhos d'água, só sobrou a inscrição "Corra também". O resto da cartolina ficou no caminho...

* O pessoal do bandeirão acelerou, mas mesmo atrás e sozinho a sensação de vitória é maravilhosa, ainda mais porque vi meus pais e namorada incentivando na Paulista.

* Cruzo a chegada com 1h51 no meu relógio e 2h06 no tempo oficial (porque só cruzei a marca da largada 15 min depois do disparo da buzina!). O locutor pede para seguirmos andando até um estacionamento, onde trocamos o chip de cronometragem, que estava preso no cadarço do tênis, pela esperada medalha e um kit de suprimentos - nunca tomei um isotônico em tão pouco tempo!

Conclusão: "Venci!". Hora de agradecer pelo desafio cumprido e o ano que passou. Se os africanos foram os vencedores lá na frente, nós brasileiros não soubemos o que foi derrota na nossa "São Silvestre B".


Leia mais sobre: Corrida de São Silvestre

> Você tem mais informações? Envie para Minha Notícia, o site de jornalismo colaborativo do iG


Arianne Azevedo

bruno pessa

Corra, vale a pena
Depois dos 15km, o que sobrou de mim e do meu cartaz na Avenida Paulista: exausto porém feliz!

Topo
Contador de notícias