O brasileiro tem o costume de falar mal de tudo o que é seu e elogiar os demais, a tal “síndrome de vira-lata”, expressão cunhada por Nelson Rodrigues. Mesmo no futebol, terreno em que somos os únicos pentacampeões do mundo, é frequente enxergar a grama — natural e não sintética — do vizinho sempre mais verde. É até compreensível, dado o momento da seleção brasileira, em seca de Copas desde 2002 e numa entressafra de craques internacionais, e dos bastidores do esporte, com mudanças constantes até na presidência da CBF.
Tudo isso é verdade, mas tem um produto que é um inegável sucesso: o Campeonato Brasileiro da Série A — ou simplesmente o Brasileirão . O torcedor já se acostumou a ter um formato que, a partir da adoção dos pontos corridos em 2003, não muda mais de ano a ano. No início eram 24 clubes, o que passou a 20 a partir de 2006, sempre com quatro rebaixados. Não podemos tomar essa estabilidade como a natureza da competição. Basta uma olhada nos jornais dos anos 90 para notar que até há pouco não era assim.
Um dos brilhos do Brasileirão: “Camarão que dorme…”
Com o inchaço dos torneios sul-americanos, em especial a Libertadores disputada por 47 clubes a partir de 2017, o Brasileiro ganhou uma dinâmica de disputa que o torna singular no universo do futebol. É único no mundo em que tantas equipes estejam lutando até a última rodada por algo, não apenas título ou rebaixamento, mas vagas em uma competição internacional (Libertadores ou Sul-Americana).
Em tempos de vídeos de 30 segundos se espalhando rapidamente nas redes sociais, nos acostumamos a ver torcedores e jornalistas estrangeiros — em especial argentinos — se surpreenderem com a dinâmica “mortal” da reta final do Brasileirão. O Ceará foi a prova disso em 2025. Após um campeonato seguro, bastaram cinco jogos sem vencer para o time entrar na zona de rebaixamento na 38ª e derradeira rodada. É o tal efeito “Camarão que dorme a onda leva” que só o nosso campeonato proporciona, inclusive com clubes de torcidas gigantescas. Não é lugar comum, precisamos preservar essa característica.
Fluminense, Bahia e Botafogo entraram em campo na última rodada lutando pela classificação direta à fase de grupos da Libertadores. Pode parecer pouco, mas a quinta posição era a certeza de um orçamento mais robusto no ano seguinte, já que o clube sabe que irá disputar no mínimo seis jogos da competição continental — e não correr o risco de serem apenas dois. Além disso, é a certeza de que não haverá jogos eliminatórios logo nos primeiros três meses do ano, quando o elenco ainda está longe do auge técnico e tático.
Menos vagas na Libertadores e rebaixados = menos emoção na reta final
Tudo isso pode estar em risco. Na última quinta-feira, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciou que a Copa do Brasil passará a partir de 2026 a dar uma segunda vaga à Copa Libertadores . Com isso, a Série A perde uma das vagas — fazendo o G-6 (4 vagas na fase de grupos + 2 na pré-Libertadores) deixar de existir para dar lugar ao G-5.
Nos bastidores, comenta-se que outras duas mudanças podem vir na esteira, ainda que não para efeito imediato: a redução do número de rebaixados — seguindo modelos internacionais em que apenas três são rebaixados, muitas vezes com direitos a um playoff contra times que disputarão a segunda divisão — e do número de jogadores estrangeiros, que atualmente é de nove atletas.
Ao tirar a luta no alto da tabela e ponderar reduzir a disputa na “zona da confusão”, o resultado é bastante óbvio: a chance de termos lutas até a última rodada será reduzida. É fácil notar que quem perde é o Brasileirão, campeonato que imagina-se que em algum momento não muito distante será gerido por uma liga — e não mais pela CBF.
A entidade seguirá controlando justamente a valorizada Copa do Brasil, a competição mata-mata que já tem uma força desproporcional devido às altíssimas premiações que distribui. Em 2025, só a final da competição irá premiar em R$ 77 milhões o campeão. Em 2024, o Botafogo ganhou R$ 48,1 milhões pelo título do Brasileiro (ainda não foi divulgada a premiação do Flamengo em 2025). Embora os direitos de TV possam fazer esse cálculo ser mais equilibrado, é nítido a falta de balanço entre prêmio financeiro e relevância.
Estrangeiros são arma para internacionalizar o campeonato
O futebol brasileiro costuma alimentar a ilusão de que o Brasileirão precisa conquistar o mundo — como se dependesse disso para se legitimar. Mas não é imprescindível que o campeonato tenha apelo internacional. Com mais de 210 milhões de habitantes, o Brasil tem um mercado interno gigantesco, diferente de outros países. Horários ruins para a Europa e Ásia e o desinteresse dos norte-americanos são obstáculos naturais.
Ao cogitar reduzir o número de estrangeiros, a CBF ameaça também a diversidade que enriquece o nosso produto mais valioso. Se é verdade que em outros continentes nossa competição enfrenta grandes barreiras, talvez elas sejam mais baixas justamente nas nossas redondezas, a América do Sul . Além de qualidade técnica, jogadores como Arrascaeta e Carrascal — para ficar apenas em dois do campeão Flamengo — são capazes de mobilizar audiências no Uruguai e na Colômbia .
Ao valorizar excessivamente a Copa do Brasil e tocar em pontos pacificados — como a presença de jogadores estrangeiros —, a CBF põe em risco a singularidade do Brasileirão, um torneio que espera-se que num futuro breve esteja nas mãos dos clubes. É preciso cuidado para mexer justamente em um dos nossos times que está ganhando.