Tamanho do texto

Em entrevista ao iG, Frank de Boer afirmou que não imaginava que equipes usassem o 4-4-2. “Não parece o jeito brasileiro de jogar”

Antes de enfrentar o Palmeiras , Frank de Boer, técnico do Ajax, da Holanda, resolveu assistir a uma partida do time de Luiz Felipe Scolari . O jogo escolhido foi a derrota para o Santos, por 1 a 0 , no último Campeonato Brasileiro. Em frente à televisão, o treinador disse ter ficado surpreso com o esquema adotado pelo time de Felipão.

Leia também: Técnico do Ajax diz conhecer apenas Felipão do Palmeiras

“Eles jogam no 4-4-2. Depois me disseram que muitos times brasileiros jogam assim. É um sistema que não se usa mais na Europa. Não parece o jeito brasileiro de jogar”, afirmou o holandês em entrevista ao iG .

Aos 41 anos, Frank de Boer treina o Ajax, clube onde surgiu como jogador
Getty Images
Aos 41 anos, Frank de Boer treina o Ajax, clube onde surgiu como jogador

Ex-zagueiro, Frank de Boer é um técnico "romântico", com uma visão nada pragmática do futebol. Para o comandante do Ajax, de Amsterdã, que enfrenta o Palmeiras no próximo sábado no Pacaembu, vencer não é tudo. O que pode ser notado nas lembranças que o ex-jogador guarda de dois confrontos com os brasileiros.

E ainda: Ônibus do Ajax raspa em carro, e trânsito paulistano assusta delegação

A vitória nos pênaltis do Ajax sobre o Grêmio , no Mundial Interclubes de 1995, é descrita pelo atacante como “o jogo mais feio da sua carreira”. “Realmente, não jogamos bem naquele dia”, lembra. Outra partida, a semifinal da Copa de 1998, contra o Brasil, é para o ex-jogador a melhor atuação da sua vida. “Eu marquei o Ronaldo”, conta. Detalhe: a Holanda perdeu o jogo. “Mas jogamos bem”, diz.

Confira a entrevista de Frank de Boer:

iG: Você enfrentou o Brasil algumas vezes, até mesmo numa Copa do Mundo, em 1998. Que lembranças tem dessas partidas?
Frank de Boer: Perdemos a mais importante, esse jogo na Copa do Mundo. Mas é até engraçado porque eu acho que foi talvez o melhor jogo da minha carreira. Por ser uma semifinal de Copa do Mundo, um jogo bem jogado, emocionante. Perdemos, mas jogamos bem. Eu marquei o Ronaldo..

iG: E ele fez um gol.
Frank de Boer: Sim, conseguiu se livrar de mim na área. Ele era impossível de marcar, mas guardo boas lembranças desse jogo.

iG: E o que você sabe sobre o Palmeiras, adversário no próximo sábado?
Frank de Boer: Realmente, não sei muita coisa. Eu vi uma jogo contra o Santos , que eles perderam por 1 a 0. O que foi uma surpresa é que eles jogam no esquema 4-4-2, com um quadrado no meio, com dois volantes defensivos, dois meias mais à frente e dois atacantes abertos. Depois me disseram que muitos times brasileiros jogam assim. É um sistema que não se usa mais na Europa. Vai ser interessante jogar contra. Atuamos no 4-3-3, que é o esquema hoje mais usado na Europa.

iG: Você acha o esquema 4-4-2 muito antiquado?
Frank de Boer: Não diria isso, mas não é mais usado na Europa. E também não é o jeito brasileiro de jogar que a gente imagina. Claro, depende da qualidade dos jogadores que você tem. Eu sei que o público do Brasil é muito crítico sobre jogar de forma defensiva. No Ajax é o mesmo. Se você vence, mas sem dar espetáculo, as pessoas continuam tristes. Na Itália, eles não estão nem ai, o resultado é o importante. O 4-4-2 pode ser atrativo, mas depende de como fazemos. Nós jogamos no 4-3-3, nunca no 4-4-2. Nós, na Holanda, fazíamos isso desde 1974, antes do Barcelona, viu? (risos) É a nossa filosofia.

iG: Como você acha que a Holanda estará na próxima Copa do Mundo, que será disputada aqui no Brasil?
Frank de Boer: Bem, temos muitos jogadores que disputaram a final e terão idade para vir aqui. Estarão mais experientes e no topo da carreira. Espero que nós possamos mostrar algo bom aqui.

Em 1998, ex-zagueiro teve a função de marcar Ronaldo na semifinal da Copa do Mundo
Getty Images
Em 1998, ex-zagueiro teve a função de marcar Ronaldo na semifinal da Copa do Mundo
iG: Você acha que o atual time do Barcelona é o melhor de todos os tempos?
Frank de Boer: Eu acho que sim. Eu concordo, pelo jeito que eles jogam, que eles dominam o jogo. E o tempo que eles dominam o futebol mundial. Uma coisa é ser um time espetacular por um dois anos. Eles já são há bem mais tempo. Acho que é o melhor. Em 1995, o Ajax teve um grande time. Fomos os melhores do mundo por dois anos. Mas o problema de ser um país menor é que os jogadores acabam saindo. Daquele time foram cinco, seis jogadores vendidos para Espanha e Itália. Então, o time não seguia. O Barcelona consegue segurar os jogadores. Eles continuam lá e se conhecem mais ainda. Mas o mais difícil é conseguir manter o foco dos jogadores, do time todo para continuar buscando vitórias, títulos. Esse é o mérito do Guardiola.

iG: Você jogou com o Guardiola. Ele será lembrado daqui a uns anos mais como um jogador ou um técnico?
Frank de Boer: Técnico, com certeza. Ele fez parte de um grande time como jogador, ganhou muitos títulos, mas não era o principal do time. Tinha o Laudrup, o Koeman, o Stoichkov. Ele não era o grande nome. Ele será lembrado mais por ter sido o técnico do atual time do Barcelona, com certeza.

iG: No Ajax, ainda quando jogador, você enfrentou o Luiz Felipe Scolari na final da Copa Intercontinental de 1995.
Frank de Boer: Sim, contra o Grêmio do Jardel. Foi um jogo feio. Não fizemos o nosso melhor e eles só tentaram segurar o jogo para ter uma ou duas chances e vencer. Acho que foi o jogo mais feio que joguei da minha carreira. Eles tiveram algumas chances. Nós éramos melhores, mas não jogamos nada bem. No final, até merecemos vencer, mas não foi o nosso melhor jogo.

iG: Quem foi o melhor jogador com quem você jogou?
Frank de Boer: O Rivaldo. Ele era muito talentoso.

Frank De Boer em coletiva para o amistoso
Gazeta Press
Frank De Boer em coletiva para o amistoso
iG: Você disse que a filosofia do Barcelona vem da Holanda, do Cruyff. Então, por que os times holandeses e até a seleção não conseguem mais jogar desse jeito?
Frank de Boer: A gente tenta. Nós jogamos no mesmo sistema do Barcelona, nós tentamos dominar o jogo. A seleção da Holanda consegue jogar assim em muitos momentos com o Sneijder, com o Robben, com o Van Persie. Nós jogamos assim. Mas o problema dos times holandeses é que não conseguimos segurar nosso jogadores. Eles acabam indo para Itália, Inglaterra e Espanha. Nosso capitão tem 23 anos. No próximo ano, quando ele tiver 24, provavelmente não estará mais no Ajax. Será vendido para outro time. Quando eles ficam experientes, quando ficam prontos para liderarem o time, são vendidos. E nós temos que começar tudo outra vez.

iG: Você esteve na Copa do Mundo como auxiliar-técnico. Qual era o sentimento dos holandeses no final do primeiro tempo da partida contra o Brasil, quando o placar estava 1 a 0 ainda?
Frank de Boer: Estávamos muito preocupados, bravos, até. Me lembro de conversarmos antes de entrar no vestiário para falar com os jogadores que nós não podíamos acreditar no que estávamos vendo. Era uma Holanda sendo dominada pelo Brasil, com medo de jogar. Parecia, realmente, que o jogo estava perdido. Falamos para os jogadores esquecerem o medo, que eles tinham que ser mais ofensivos, tentar mais. E foi assim no segundo tempo.

iG: Mas você não acha que o Brasil errou muito no segundo tempo?
Frank de Boer: Claro que errou, mas é do jogo. Que culpa, por exemplo, o Dunga tem se o então melhor goleiro do mundo, um jogador espetacular como o Julio Cesar, falha? E se depois outro jogador é expulso? No final poderíamos ter feito até mais um gol.

iG: E a final da Copa? Por que a Holanda não conseguiu jogar?
Frank de Boer: Foi um pouco o que aconteceu no primeiro tempo do jogo contra o Brasil. Foi um excesso de respeito à Espanha. Mas é difícil jogar com eles, é um pouco como o Barcelona. Eles dominam o jogo e o rival ficar refém, sem ter muita opção.

iG: Há um questionamento aqui no Brasil sobre se é possível um jogador ser eleito melhor do mundo atuando no país. Ronaldo, por exemplo, afirmou que nunca Neymar será o melhor enquanto jogar no Brasil. Você concorda com isso?
Frank de Boer: Não, muita coisa pode mudar. Vai depender do nível do futebol brasileiro. Tem muitos jogadores aqui. Se eles começarem a ficar aqui, o futebol vai evoluir. A economia brasileira pode ajudar também. Hoje é uma das mais estáveis do mundo. O brasileiros acabam saindo daqui pelo dinheiro que os clubes da Europa pagam. Se isso se inverter, o futebol nacional pode se fortalecer. Por que o melhor do mundo não pode jogar aqui? Acho que sim.

iG: Qual foi o seu sentimento após a queda na Liga dos Campeões do jeito que aconteceu, com o Lyon tirando uma vantagem de sete gols na última partida contra o Zagred?
Frank de Boer: Foi horrível para a gente, claro. Não esperávamos isso. Mas não fizemos a nossa parte. Jogar contra o Real Madrid não é fácil. Tivemos as nossas chances, tivemos dois gols anulados, infelizmente. Nunca pensávamos que o Zagreb perderia por 7 a 1 em casa.

iG: Você chegou a reclamar que havia algo estranho no resultado do jogo do Lyon, essa goleada por 7 a 1. Acredita que o Zagreb entregou?
Frank de Boer: É muito difícil provar se houve algo nesse caminho. Não adianta eu falar sem ter provas. É um resultado estranho, sim, que não acontece normalmente, mas sem provar não posso afirmar nada.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.