Tamanho do texto

Jogadores líbios se tornaram herois nacionais depois de ganhar do Moçambique pelas eliminatórias para a Copa Africana de Nações

Após décadas nas quais o único ídolo permitido na Líbia era o ditador Muammar Kadafi, os jogadores da seleção de futebol do país se transformaram em verdadeiros heróis nacionais após a vitória sobre Moçambique, no último sábado, pelas eliminatórias para a Copa Africana de Nações.

Agora, todos querem tirar fotos e pedir autógrafos aos novos ídolos da Líbia. Na última segunda-feira, a equipe retornou para Benghazi, capital da revolução, gerando uma festa de orgulho nacional nunca antes vista no país árabe, segundo os torcedores que foram comprimentar a equipe em um hotel da cidade. A vitória sobre a seleção de Moçambique foi considerada um resultado épico para a "seleção rebelde", mesmo com o magro placar de 1 a 0.

Essa foi a primeira vez que a população hasteou a bandeira insurgente, com as cores preta, vermelha e verde, que substituiu o estandarte verde do regime de Kadafi. Apesar de a população ter exaltado todos os jogadores, sem dúvida o grande protagonista da festa foi o autor do único gol da partida, o lateral Rabi al Lafi, de 20 anos. Em tom otimista, seus companheiros o descreveram como "o novo Roberto Carlos" da equipe líbia.

"Foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Quando comemorei o gol, pensei nas pessoas na Líbia e, por isso, desejei estar aqui com eles", relatou Alaf, já em solo líbio. Detalhe: o jogador ainda vestia as cores da bandeira dos rebeldes. Para Alaf, há uma grande diferença entre jogar antes da revolução, iniciada dia 17 de fevereiro, e depois. "Agora há mais prazer e liberdade", sintetizou.

Seu companheiro de equipe, o meia Khaled Delaoui, de 25 anos, descreveu o que antes dependia da vontade de Saadi Kadafi, filho do ditador líbio e que, assim como seu pai, segue em paradeiro desconhecido. "Havia muita pressão. Sempre controlavam o modo como jogávamos e não me sentia como um jogador profissional. Não jogava para minha equipe, jogava para Saadi", explicou. "Aliás, Saadi já chegou a interromper uma partida para demonstrar suas habilidades com a bola durante uma cobrança de escanteio. A ideia era distrair o público", acrescentou.

Além disso, antes de 2008, as partidas transmitidas pela rede de televisão líbia não citava os jogadores por seus nomes, mas pelo número de suas camisas. Isso era para evitar que possíveis ídolos ofuscassem a imagem soberana de Kadafi e seus filhos. A partir desse ano, os locutores já começaram a narrar partidas com o nome dos jogadores. No entanto, o nome escrito na camisa ainda seguia proibido. "Na última partida, os nomes não apareciam nas camisas porque não houve tempo suficiente para estampá-los", disse Delaoui, que garantiu a identificação dos jogadores já nas próximas partidas.

Hospedado no mesmo hotel que os jogadores, o estudante Muhamad Shikanti, de 23 anos, que veio de Manchester (Reino Unido), foi um dos torcedores líbios que viajaram ao Cairo, no Egito, para assistir à partida. No entanto, o torcedor não conseguiu entrar no estádio por causa da junta militar egípcia, que só permitiu o acesso de 50 pessoas, em vez das 150 que haviam liberado. "Tive que voltar ao hotel, e de lá assisti à partida com mais cinco amigos", declarou Shikanti, que pouco depois foi pela primeira vez à Líbia desde o começo da revolução, em fevereiro.

Alaf, por sua vez, tenta se acostumar à condição de novo herói nacional. "É um sentimento que não se pode descrever. O gol foi para todo o povo da Líbia e para também para os mártires da revolução", declarou. Faltando duas partidas para o fim da fase classificatória, a seleção da Líbia é segunda colocada no grupo C, com 11 pontos. Em primeiro aparece Zâmbia, com 12 pontos, seguida por Moçambique, com 4 pontos, e Comores, com 1. No próximo dia 8 de outubro, a seleção líbia terá um confronto direto com Zâmbia. Otimistas, os líbios já sonham em chegar além: "Quem sabe não conseguiremos disputar um Mundial?", sonha Delaui.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.