Tamanho do texto

Em entrevista ao iG, Eduardo Salamanca fala sobre finanças, favorecimento no campeonato nacional e ‘discriminação cultural’ dos cariocas

Eduardo Salamanca assumiu a presidência do Real Potosí há três anos. Em 2007, quando o Flamengo esteve na cidade mais alta da Bolívia, a 4.070 metros acima do nível do mar, ele ainda não era o mandatário do clube cujos gastos anuais não chegam a ser metade da folha salarial mensal do clube carioca. O salário de Ronaldinho Gaúcho , diz Salamanca, cobriria 10 meses de despesas para o adversário do Flamengo no dia 25, pela pré- Libertadores . Em entrevista ao iG , ele afirma que a campanha contra jogos na altitude feita pelos cariocas após o último confronto foi uma “discriminação cultural”.

Leia também: Evo Morales condecora Ronaldinho Gaúcho em Sucre

Salamanca, que divide seu tempo entre o futebol e a gerência de uma cooperativa de telecomunicações, não se esconde da polêmica. Afirma que o Potosí deveria estar na fase de grupos da Libertadores, pois houve comprovado favorecimento ao Bolívar no campeonato nacional. Ele fala abertamente sobre finanças, motivação, idolatria a Ronaldinho e as chances reais de o time boliviano passar pelo rival brasileiro.

Veja ainda: Altos salários e Copa impulsionam invasão sul-americana no Brasil

Confira abaixo a entrevista de Eduardo Salamanca ao iG :

iG: Em 2007, quando o Flamengo esteve aqui, muitos jogadores passaram mal e o clube iniciou uma campanha contra os jogos na altitude. Como o senhor enxerga isso? Ainda há uma rivalidade?
Eduardo Salamanca: Não colocaria rivalidade, mas uma profunda decepção. Devo dizer que para nós e para os estudiosos dos direitos culturais, o território não é somente um espaço geográfico. É o espaço geográfico somado à vivência humana, à cultura. Para nós é o mesmo, temos nossa cultura, e a altitude é parte da nossa cultura. E quando alguém diz que não se pode fazer algo nesse território, nos discrimina. O que o Flamengo fez foi uma discriminação cultural. Nesta cidade, declarada patrimônio cultural pela Unesco, se pode fazer tudo e o futebol é parte dessa vivência. Então, mais do que uma rivalidade, é uma decepção. Mas entendo que não é mais o mesmo presidente. O anterior teve imensa cegueira cultural. Do ponto de vista físico, fisiológico, é outra história, pode afetar quem vem jogar aqui, como nos afeta por exemplo jogar em Recife. Mas o que não admito é a discriminação cultural.

iG: O que representa o futebol para esta cidade e para os dirigentes daqui?
Eduardo Salamanca: É uma paixão. Os dirigentes têm de ter algo de loucos. Na Bolívia, os dirigentes não são remunerados, pelo contrário, damos nosso tempo e muitas vezes temos de tirar do nosso próprio bolso para quitar compromissos. Assim tentamos levar adiante uma instituição como o Real Potosí. Aqui se vive esse momento histórico de enfrentar o Flamengo com um jogador de exceção como o Ronaldinho Gaúcho, eleito duas vezes o melhor do mundo pela Fifa. Estamos muito felizes e orgulhosos, porque para nós, humildemente, é uma satisfação dar a nosso povo a oportunidade de ver Ronaldinho em uma partida séria. Nossos jogadores não são Ronaldinhos, mas enfrentarão o Flamengo de igual para igual.

Eduardo Salamanca acredita que o Real Potosí deveria estar na fase de grupos da Libertadores
Vicente Seda/iG
Eduardo Salamanca acredita que o Real Potosí deveria estar na fase de grupos da Libertadores

iG: O senhor acredita que é possível vencer o Flamengo nessa disputa para entrar na Libertadores?
Eduardo Salamanca: Creio que, se não vamos entrar para ganhar, é melhor não participar. Entramos em campo, aplaudimos o Ronaldinho, e dizemos “está bem, já perdemos”. O grande favorito é o Flamengo. Se eles não se classificarem, seria algo extraordinário. O que digo a você é o mesmo que digo aos jogadores. O Flamengo se classificar não é notícia. Cumpriu-se o óbvio. Se o Real Potosí se classifica, o mundo vai falar de Potosí. De repente, conseguimos um milagre. Não queremos apenas ir ao campo tirar fotos e pedir autógrafos ao Ronaldinho. Queremos competir e, com a ajuda de Deus, derrotá-los. Falo para os jogadores que é claro que queremos fotos e autógrafos com o Ronaldinho, mas depois de vencer.

iG: Como o senhor está sentindo o povo de Potosí para este confronto?
Eduardo Salamanca: Acredito que o estádio estará lotado. Esperamos que seja assim, porque queremos ganhar a partida, mas também queremos um pouco de dinheiro, somos um clube pobre.

iG: Há quanto tempo o senhor comanda o Potosí?
Eduardo Salamanca: Sou presidente do Potosí porque nosso presidente vitalício, o espanhol Samuel Blanco, que viveu 35 anos em Potosí, é o fundador do clube, quem levou adiante tudo isso, e por problemas de saúde teve de ir viver em Santa Cruz de La Sierra. O vice-presidente, José Uchoa, também por razões de saúde, não pode assumir, mas ainda vive aqui. Sou presidente há pouco menos de dois anos. E nesse tempo, estivemos a ponto de sermos campeões nacionais e somos vice quando deveríamos ser campeões.

Ronaldinho: Salário no Flamengo cobriria 10 meses de gastos do Potosi
AE
Ronaldinho: Salário no Flamengo cobriria 10 meses de gastos do Potosi

iG: Como assim?
Eduardo Salamanca: Sei que vou incomodar muita gente dizendo isso. Mas a liga de futebol boliviana fez uma auditoria na arbitragem, comandada por um ex-árbitro, no primeiro torneio de 2011 que nos classificou para esta Copa Libertadores. E esta auditoria apontou que o Bolívar, o campeão, foi favorecido. Não estou dizendo que houve suborno, corrupção nada disso. De repente, os árbitros eram torcedores do Bolívar. Mas a auditoria estabeleceu favorecimento. Então o campeão deveria ser o Potosí, não foi por essa influência da arbitragem. É um tema vital. Deveríamos estar na fase de grupos da Libertadores. Temos 13 anos no futebol profissional boliviano e é a sétima vez que participamos de competições internacionais. Foram seis Libertadores e uma Copa Sul-Americana. É muita coisa nesse período.

iG: Quanto custa para manter o Real Potosí?
Eduardo Salamanca: Temos uma despesa anual que oscila entre US$ 700 e US$ 800 mil por ano. O que o Ronaldinho recebe em um mês paga meus custos por 10 meses aproximadamente. Queremos sempre grandes jogadores, mas essencialmente grandes pessoas. Temos um grupo nobre, que acredita na palavra do presidente. Isso nos ajuda muito.

iG: E qual a origem das receitas para manter o clube?
Eduardo Salamanca: Em primeiro lugar, patrocínio. Na Libertadores já nos criticaram. Disseram que a nossa camisa parece um jornal (risos). Mas os patrocínios na Bolívia são muito baixos, então temos de ter muitos. Um só seria impossível. Outra fonte são os direitos de transmissão e a terceiras as arrecadações de bilheteria que lamentavelmente não são como gostaríamos. Se tivéssemos uma média de público de 18 mil pessoas por jogo, seria ótimo. Mas hoje gira em torno de oito mil. É muito pouco. Com 18 mil, cobriríamos 60% a 70% dos gastos. A viagem ao Brasil nos custará uns US$ 40 mil, é muito dinheiro para nós. É quase 80% dos nossos gastos mensais. A outra fonte de sustento também vem do aporte, pequeno, dos dirigentes. Não é obrigatório, mas todos ajudam.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.