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Da vitória sobre o Atlético-MG na final do Brasileirão ao massacre sobre o Liverpool, relembre jogos e curiosidades da conquista

Nunes, o 'artilheiro das decisões', marcou duas vezes contra o Liverpool
Gazeta Press
Nunes, o 'artilheiro das decisões', marcou duas vezes contra o Liverpool
A tarde de 13 de dezembro de 1981, em Tóquio, no Japão, talvez tenha sido a mais importante da história do Clube de Regatas do Flamengo . Foi nesta data que diante de mais de 60 mil pessoas, o time comandado por Zico e companhia conquistou o título do Mundial de Clubes , que completa 30 anos nesta terça-feira. A vitória esmagadora de 3 a 0 sobre o Liverpool , porém, começou bem antes do apito inicial do mexicano Rúbio Vazques. A primeira parte desta história remete ao primeiro título Brasileiro do Flamengo, em 1980.

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O primeiro título Brasileiro
Além da conquista do primeiro campeonato nacional e da possibilidade de disputar a Libertadores do ano seguinte, a vitória por 3 a 2 sobre o Atlético-MG na final realizada em junho de 1980, colaborava para a formação de uma base que conquistaria praticamente todos os títulos disputados. Da equipe que venceu o Atlético-MG na segunda partida da decisão, Raul, Marinho, Júnior, Andrade, Adílio, Zico, Tita e Nunes estiveram em campo contra o Liverpool, um ano e meio depois. Carpegiani, que também atuou, seria o treinador contra os ingleses.

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“Tudo começou ali. Nós sabíamos da qualidade daquele elenco e éramos comandados por um grande treinador, que era o Cláudio Coutinho, mas aquele título deu moral e confiança para os jogadores, permitiu que o trabalho fosse bem feito sem ficar trocando de treinador e jogador a toda hora”, recorda o atacante Nunes, autor de dois gols contra o Atlético-MG. O título permitiu que em 81 o time da Gávea disputasse a Libertadores, o próximo passo em busca da conquista do mundo.

Para Zico, a preparação da equipe carioca foi fundamental para a vitória fácil contra o Liverpool. "Foi uma preparação tranquila. Viajamos no dia seguinte da decisão contra o Vasco. Não acredito ter passado pela cabeça do Carpegiane poupar alguém, e no momento que o Flamengo vivia, ninguém também queria ser poupado. Em um mês, jogamos várias decisões e fisicamente estávamos muito bem preparados para essa seqüência de jogos. Estávamos tão confiantes que não nos preocupávamos com desgaste", destaca o 'Galinho'.

Libertadores e violência
A campanha do Flamengo na primeira fase foi apenas regular, apesar de terminar invicta. Com duas vitórias e quatro empates, o time terminou empatado com o Atlético-MG na primeira colocação, com oito pontos. Como apenas o campeão do grupo avançava para a próxima fase, os dois times realizaram um jogo de desempate, cercado de polêmicas – muitas já carregadas da final do Brasileiro de um ano antes.

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Logo no início da partida, o atacante Reinaldo fez falta em Zico, no campo de ataque, um carrinho lateral duro, mas que o árbitro José Roberto Wright, em uma decisão no mínimo exagerada, mostrou o cartão vermelho ao jogador. Depois da expulsão, os atleticanos se desequilibraram completamente na partida e também tiveram Éder, Chicão, Palhinha e Cerezo expulsos. Com isso, o Flamengo foi decretado vencedor aos 37 minutos, já que o Atlético-MG estava sem o número mínimo de jogadores em campo.

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As confusões e entradas violentas continuariam na sequência do torneio. Após vencer o triangular semifinal, com duas vitórias sobre o Deportivo Cali, da Colômbia, e duas sobre o Jorge Wilstermann, da Bolívia, o Flamengo se garantiu na final contra o Cobreloa, do Chile. E uma das memórias do goleiro Raul é justamente das pancadas distribuídas pelos jogadores chilenos na segunda partida da decisão. Em uma das disputas, Lico sofreu um corte tão profundo no supercílio que não pode atuar na terceira partida da final. 

Zico levanta a taça do Mundial de 81
Reprodução
Zico levanta a taça do Mundial de 81
“Nosso time não sabia bater, claro que ninguém era criança ali, mas a gente tinha até dificuldade para marcar no um contra um, sempre marcava em bloco. Imagina para revidar pancada. Não tinha muito que fazer, era tentar se proteger e responder na bola, jogando. Eu ficava ali no gol só assistindo, vendo o ‘coro comer’. Era até meio angustiante”, lembra o arqueiro do Flamengo.

Mas nem em campo o time carioca conseguiu dar a resposta, ao menos naquela partida. Acabou derrotado por 1 a 0, forçando a realização do terceiro jogo. Uma reunião ainda no hotel no Chile 'fechou' o grupo, revoltado com o ambiente hostil - o Chile vivia o auge da ditadura militar de Augusto Pinochet - e as pancadas recebidas. Na terceira partida, vitória por 2 a 0, com dois gols de Zico, e a vingança com o zagueiro Anselmo, escalado nos minutos finais da partida apenas para 'vingar' os companheiros. Nos poucos minutos em campo, acertou um soco no zagueiro Mario Soto - o mesmo que quase havia cegado Lico na segunda partida da decisão -, arrumou uma grande confusão com os chilenos e foi expulso pelo árbitro. O Flamengo conquistava a América pela primeira vez em sua história após três verdadeiras batalhas.

Mais um título e uma paradinha nos Estados Unidos
A maratona de decisões do Flamengo continuava e apenas 13 dias após levantar a taça Libertadores, o time já tinha mais uma final, desta vez contra o Vasco, pelo Campeonato Carioca. Nada de time reserva ou jogadores poupados. Vitória por 2 a 1, com gols de Adílio e Nunes, na partida que ficou marcada pelo ladrilheiro, torcedor que invadiu o campo e esfriou a partida por cinco minutos, até ser retirado pela polícia. A final contra o Vasco foi também a última partida do Flamengo antes da grande decisão do Mundial no Japão.

Ao invés de ir direto para o Japão e de ambientar ao fuso horário, os jogadores fizeram uma parada em Los Angeles, nos Estados Unidos. Nos três dias na Costa Oeste, visitas à 'Calçada da Fama' de Hollywood e ao parque da Walt Disney. Para os jogadores, além de iniciar a adaptação ao fuso, já que na cidade a diferença já era de seis horas em relação ao Brasil, a pausa serviu para que o time relaxasse e não fosse tão ansioso para a partida decisiva.

"A ida para Los Angeles foi fundamental. Fomos para Disney, Hollywood e tudo aquilo já estava traçado no trabalho. Tirou um pouco o pensamento só no futebol e ajudou a descansar um pouco a cabeça. Poucos naquele elenco quando eram crianças pensaram que um dia andariam na 'Calçada da Fama'. Era motivo de orgulho também, ver que a gente tinha conquistado tantas coisas. Mas a gente queria mais", diz o atacante Nunes.

O riso inglês e a taça rubro-negra
Apesar do respeito ao adversário os jogadores do Flamengo admitem que pouco sabiam do Liverpool individualmente. Mais que se preocupar em conhecer os segredos do adversário, o técnico Paulo César Carpegiani tentou fazer com que o time simplesmente fizesse o que estava habituado nas últimas semanas de decisões e conquistas.

"A gente chegou até com um certo desconhecimento , individualmente falando, de quem era o time deles. Sabíamos da história do Liverpool, que era um time de tradição, mas a gente estava embalado, alegres e felizes de estar na final do Mundial. A gente não teve dúvida de que ia ganhar em nenhum momento, sem menosprezo ao adversário", recorda o goleiro Raul.

Jogadores campeões mundiais reunidos em festa na Gávea
Vicente Seda
Jogadores campeões mundiais reunidos em festa na Gávea
Menosprezo, que segundo os jogadores do Flamengo, partiu do próprio Liverpool. Durante o aquecimento, os atletas do time inglês teriam debochado dos brasileiros com sorrisos e risadas irônicas. Mais combustível para um time que já era brilhante tecnicamente. "Eu confesso que não vi nada, estava concentrado e não reparei, mas o Júnior chamou o time antes do jogo e contou que eles estavam dando risada da nossa cara. Falou 'quem ri por último ri melhor'. E foi o que aconteceu. Atropelamos eles", disse o atacante Nunes.

Com um dos 45 minutos mais espetaculares de um time de futebol, o Flamengo abriu o placar aos 13 minutos. Zico lançou Nunes nas costas da defesa e na saída do goleiro Grobbelaar, o 'artilheiro das decisões' deu apenas um leve toque, colocando a bola no fundo das redes. Gol que é inesquecível nos mínimos detalhes para o atacante.

"Era uma jogada ensaiada. O Zico sabia tudo que eu fazia em campo, as arrancadas, a presença de área, onde me movimentava. Ele fez o lançamento com confiança de que eu chegaria nela. Tinha uma explosão muito forte, modéstia a parte. Depois de tirar do goleiro, já fui comemorar antes dela balançar a rede", detalha Nunes.

Mandando na partida, o Flamengo aumentou a conta aos 34 minutos. Zico cobrou falta na entrada da área, Grobbelaar 'bateu roupa' e Adílio, após bate-rebate na área, completou para fazer o segundo do time carioca no estádio Nacional. Acuado, sentindo o golpe, o Liverpool sofreu o terceiro aos 41 minutos. Zico carregou pelo meio e deu ótimo passe em profundidade para Nunes invadir a área e marcar, garantindo a vitória e o título. No segundo tempo os dois times apenas esperaram o tempo passar e a partida ficou chata. 

"Acabamos o jogo com 45 minutos, no segundo tempo só fiquei assistindo de braços cruzados. Lembro que até brinquei com os outros jogadores que não ia aparecer na edição (dos melhores momentos). Mas melhor assim", recorda Raul. Apito final e festa em Tóquio. O Flamengo da Gávea, do Rio e do Maracanã agora também era do mundo.

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