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Há 25 anos no comando do Manchester United, técnico escocês coleciona desafetos e admiradores, sem perder a sede de vitórias

Sir Alex Ferguson gosta de chamar o complexo de Carrington, nos arredores de Manchester, de “minha fortaleza”. Ele ajudou a desenhar o Centro de Treinamento de 108 acres. Impenetrável, substituiu há 12 anos o amigável "The Cliff", onde torcedores e imprensa conseguiam assistir aos treinos e ter contato com jogadores sem grande esforço. O orgulho do treinador não é só pela modernidade. Permite-lhe controle, palavra-chave no seu reinado de 25 anos no clube mais rico do planeta .

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Também serve para colocar em funcionamento a lista negra de jornalistas/jornais impedidos de frequentar suas entrevistas coletivas. Antes do clássico contra o Liverpool, no dia 11 de fevereiro, chamava a atenção a pequena quantidade de repórteres presentes à conferência semanal. Vários dos mais importantes diários ingleses não estavam presentes. "Daily Mail", "The Daily Mirror", "The Guardian", "The Independent" e "Daily Star" não foram vistos. Não havia ninguém da Associated Press. Nem o "Manchester Evening News", o mais importante diário da cidade, tinha representante.

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O motivo era simples: todos estavam barrados. Irritou ou contrariou Sir Alex em algum momento? Pronto, está vetado. O evento em Carrington se resumiu ao "The Sun", "Express", "The Times" e "Telegraph", além de uma câmera da "Sky", emissora que tem direito de transmissão do campeonato nacional e a MUTV, o canal privado por assinatura do Manchester United . Ele passou oito anos sem dar entrevistas para a BBC porque a rede pública produziu documentário em que questionava o modus operandi de Jason, filho do técnico, agente de futebol envolvido em negociações do próprio time onde o pai manda.

“Sua vez”, aponta a assessora de imprensa, avisando ao iG que Ferguson aguardava para a entrevista exclusiva, a primeira para um órgão de imprensa brasileiro. Mesmo que por pouco tempo. “Lembre-se: são apenas 15 minutos.”

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Beckham e Giggs, dois ícones dos anos vencedores do Manchester com Alex Ferguson
Getty Images
Beckham e Giggs, dois ícones dos anos vencedores do Manchester com Alex Ferguson

Relaxado, mas nem tanto
Relaxado, de camiseta de treino e calça de abrigo, ele não parecia, à primeira vista, essa figura tão intimidadora. Até esboçou sorriso quando ouviu que o entrevistador era do Brasil.

“Futebol mudou em muitos aspectos e isso tornou este clube uma marca mundial. Sempre disse que a figura mais importante no Manchester United é o treinador e teve quem não entendesse isso. Os mesmos de sempre”, lamentou, sem entrar em detalhes e fechando a cara. “Se eu afrouxar o controle sobre um bando de milionários (os jogadores), estou perdido. Você tem de ser impiedoso. Pisou fora da linha, não tem volta.”

Raiva que foi batizada pelo ex-atacante (hoje técnico e desafeto de Ferguson) Mark Hughes como tratamento “hairdryer” (de secar cabelos). Há 25 anos, quem desafia suas ordens se dá mal, de um jeito ou de outro. Paul McGrath, Norman Whiteside, Lee Sharpe, Paul Ince, Ruud Van Nistelrooy e David Beckham sabem bem disso.

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Mas ninguém passa tanto tempo numa equipe do tamanho dos Diabos Vermelhos sendo inflexível. O mesmo chefe impiedoso com alguns, perdoou as bebedeiras de Bryan Robson na década de 80, enquanto dispensava outros pelo mesmo motivo. “Além de ser um meia fabuloso, era quem mais treinava. E não influenciava o resto do grupo de maneira negativa”, tentou explicar, surpreso por ser lembrado disso. O mesmo para Eric Cantona, o catalisador e transformador do United de grande time para potência global. Sir Alex o tratava como filho. “Mas ele não foi o jogador mais importante que tive em todos esses anos”, ressalta.

Então quem foi? “Roy Keane.”

A reposta é contradição. É típico Alex Ferguson. Ao se referir na entrevista a Paul Ince, usa a forma carinhosa “Incey”. Em 1995, o escorraçou de Old Trafford e o negociou com a Internazionale. Depois de viajar por anos com o volante Gordon Strachan, nos tempos de Aberdeen, para observar futuros adversários, escreveu em sua autobiografia, publicada em 1999, que o compatriota não era “uma pessoa confiável”. Rasga elogios ao mesmo Keane a quem mostrou a porta de saída de Manchester após o capitão ter dado famosa entrevista à MUTV, nunca levada ao ar, em que detonava e colocava em dúvida a qualidade de vários integrantes do elenco.

Com a taça da Liga dos Campeões de 1999, uma conquista histórica contra o Bayern
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Com a taça da Liga dos Campeões de 1999, uma conquista histórica contra o Bayern

Implacável com a imprensa
A relação com a imprensa não tem menos idas e vindas. “Quando comecei (como treinador, em 1974), o futebol já era complexo. Hoje está muito mais. Era bem mais simples lidar com jogadores no passado. Eram apenas trabalhadores, não astros pop. O segredo é estar sempre pronto para mudar, se adaptar ao que acontece”, afirma, com aquele sotaque escocês arrastado que fez o galês Ryan Giggs confessar: ao conhecê-lo, passou quase dez dias sem entender nada do que dizia.

Quando é lembrado sobre as circunstâncias da saída de Keane, cita apenas razões futebolísticas. Não comenta nada a respeito de entrevistas ou brigas. “Sentimos que ele já não era mais o mesmo. Continuava sendo um líder brilhante dentro de campo, mas havia perdido um pouco (da força física). Foi um jogador tão leal à causa do Manchester United que permitimos que saísse para o Celtic sem criar problemas”, recita.

O volante, apelidado de Capitão Fantástico pelos torcedores, deixou o clube do dia para a noite. Phil Neville, esforçado lateral/volante que nunca foi titular absoluto (embora útil muitas vezes) foi convidado à casa do técnico e, após lauto jantar ouviu, durante duas horas, porque a negociação com o Everton seria melhor para sua carreira. Estranho?

Bem-vindo ao mundo de Alexander Chapman Ferguson.

Alex Ferguson foi homenageado ao completar 25 anos de clube
Getty Images
Alex Ferguson foi homenageado ao completar 25 anos de clube
O sujeito criado em Govan, sudeste de Glasgow, ávido por agradar ao pai, trabalhador do porto local, intimida tanto que mesmo ex-jogadores continuam o chamando de “Boss” (Chefe, em inglês). David Beckham, outro com quem teve vários conflitos, ainda se refere a ele desta forma. Até José Mourinho usa o apelido para denominar o dono do emprego que sonha um dia ter.

Na imprensa, ninguém utiliza a palavra, mas quem não o trata com tal deferência...

“Não tenho problema nenhum com repórteres, só com quem entra na nossa vida pessoal ou faz observações que não são verdadeiras. Acho que atualmente estou bem mais condescendente. Já fui bem pior...”, jura. Há quem discorde. Daniel Taylor, chefe de reportagem do The Guardian, escreveu biografia não autorizada de Ferguson. Mesmo o chamando de “gênio” no título, está banido das coletivas desde 2007.

Se é discutível o veterano técnico, de 70 anos, ter amolecido no decorrer do tempo, é incontestável que a sede de vencer continua a mesma. O que justifica, então, prorrogar a aposentadoria para montar novos times vencedores? A capacidade de se renovar e a fome por desafios são o que move o ex-atacante de passagem discreta pelo futebol escocês, traumatizado até hoje pela forma rude como foi dispensado do Glasgow Rangers, seu time de infância.

“No futebol, a coisa mais difícil para o técnico é dizer para aquele jogador, útil várias vezes ao longo da temporada, que ele não vai participar de uma final ou jogo decisivo. Já fui obrigado a isso algumas vezes e sempre escolho avisar antes, conversar e explicar o motivo da escolha”, ressalta.

A lembrança é dos tempos de Dunfermline, quando foi alertado apenas minutos antes da final da Copa da Escócia de que não jogaria, em 1965. Com os pais na arquibancada para assistirem ao filho naquela época sem substituições, a reação do jovem Ferguson foi xingar incansavelmente o treinador diante de todo o elenco.

Algo que, para os padrões do hoje treinador Sir Alex, seria inaceitável.

Reencontro com o ex-craque francês Cantona: dupla mudou o status do clube
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Aposentadoria por cima
Os pensamentos de quem já viveu de tudo (e ganhou mais do que a maioria pode sonhar) começam a divagar. Fala sobre os tempos em que os atletas ganhavam pouco e pediam para os salários semanais serem enviados em dois envelopes. Retiravam uma parte para gastos “pessoais” e colocavam o resto no outro, entregue às esposas. No caso de Ferguson, a paixão era apostar em corridas de cavalos. Algo que preserva até hoje. “Quando resolvi comprar um puro sangue, minha mulher perguntou para que eu queria um. Batizei-o com o nome dela e tudo ficou bem”, se diverte.

O terreno é perigoso. Por um lado bom, porque o escocês parece começar a baixar a guarda. Ruim porque gasta o tempo da entrevista com outros pensamentos. A assessora de imprensa começa a olhar no relógio.

Talvez a abstração sobre a carreira seja fórmula para evitar mais questões e gastar o tempo. Em se tratando de Ferguson, nada é impossível. Especialmente no que os ingleses chamaram de “mind games” (jogos da mente). Ele é mestre na escola em que José Mourinho é um dos grandes discípulos. Tentar entrar na cabeça do adversário e ganhar vantagem. Árbitros inclusive, claro. Os acréscimos generosos nas partidas, quando o United costuma fazer vários gols decisivos, foram batizados de “Fergie time”.

Só não deu certo contra o Barcelona. Duas vezes, nos últimos anos, Ferguson foi à final do mais importante torneio de clubes do mundo. Perdeu ambas. Não apenas isso, foi totalmente dominado. Já conseguiu dois títulos continentais, mas tem na cabeça a necessidade de mais um. Não para entrar na história. Isso ele já está há muito tempo. Mas para sair por cima.

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“Entre 1999 e 2008 (intervalo das duas conquistas do clube sob seu comando) eu sempre dizia que um time importante como o Manchester United deveria ter mais troféus da Liga dos Campeões. Ganhamos mais um e chegamos a duas decisões (em 2009 e 2011). Isso em cinco anos. É um bom recorde, não é? Mas não estou satisfeito, não. Acho que podemos mais. Depois que você vence uma ou duas vezes, quer mais. E todos aqui querem.”

A entrevista acontece na véspera da partida contra o Liverpool, o grande clássico do futebol britânico. O United venceria por 2 a 1 no reencontro entre Patrice Evra e Luis Suárez (o francês acusou o uruguaio de ofensas racistas). Sir Alex se recusa a comentar o assunto, assim como já havia feito na coletiva de imprensa minutos antes.

É assunto indesejado, assim como a futura aposentadoria. Depois de anunciar o fim da carreira em 2002 e voltar atrás, fica receoso em determinar a data definitiva. A última estimativa que deu foi a de mais três anos, o que garantiria a permanência em Old Trafford até 2015. Há a preocupação em coordenar a própria sucessão. Há uma década, quando teoricamente abandonaria o barco, ficou sabendo por terceiros do acerto para que o sueco Sven Goran-Eriksson fosse contratado.

Não aceitaria que outro profissional colhesse os louros de uma nova geração de grandes jogadores que estava surgindo no clube. Isso seria insuportável. Tal qual havia sido para seu ídolo Bill Shankly, que deixou o Liverpool pouco antes de a equipe começar a conquistar os títulos europeus nos anos 70.

“Acho que o mais importante de tudo é deixar pronto um time forte e com jovens jogadores despontando. Isso vai facilitar bastante o trabalho de quem estiver no meu lugar. Não vou ser uma sombra para quem chegar porque sei que o clube vai continuar conquistando títulos”.

A assessora de imprensa interrompe. “Já se passaram 14 minutos e meio. Seu tempo está acabando.”

“Posso fazer mais uma pergunta?” Ferguson esboça um sorriso. “Se eu puder responder rapidamente...”

“Nunca pensou em voltar a dirigir uma seleção na Copa do Mundo? (ele comandou a Escócia em 1986)”

A resposta veio sem pestanejar. “Não. Quando você sai do Manchester United, não tem como subir na carreira. Só descer.”

Jogadores do Manchester United comemoram gol: gana por formar times vencedores
AP
Jogadores do Manchester United comemoram gol: gana por formar times vencedores

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