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"Futebol é um esporte em que o contato não significa falta", disse o chefe do Comitê de Arbitragem sobre polêmica em Brasil e Suíça; VAR revisou 335 lances até agora e taxa de acerto foi de 99,3%, segundo o italiano Collina

Lance do gol suíço contra o Brasil foi motivo de reclamação da CBF com a Fifa
FIFA/ Divulgação
Lance do gol suíço contra o Brasil foi motivo de reclamação da CBF com a Fifa

O chefe do Comitê de Arbitragem da Fifa, o italiano Pierluigi Collina, fez nesta sexta-feira (29) um balanço da arbitragem na fase de grupos da Copa do Mundo da Rússia, a primeira a contar com o assistente de vídeo (VAR).

Collina avaliou de maneira positiva a atuação das equipes de arbitragem até aqui e dedicou bastante tempo de sua conferência de imprensa para explicar o funcionamento do VAR. De acordo com a Fifa , foram revisados 335 lances ao longo de toda a primeira fase do Mundial (média de 6,9 revisões por jogo). O árbitro principal da partida foi à beira do campo para reavaliar incidentes em 17 oportunidades, o que resultou na reversão de 14 decisões até aqui.

O ex-árbitro italiano disse que, sem o VAR, os árbitros acertavam em 90% de suas decisões, índice que subiu para 99,3% graças à intervenção do assistente de vídeo.

"O VAR não significa perfeição. Ainda haverá interpretações equivocadas ou até mesmo erros. Não é a perfeição que queremos atingir com a implantação do VAR. Mas 99,3% é algo muito próximo disso", gabou-se.

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"Empurrão" em Miranda

Collina comentou lances específicos em que o assistente de vídeo foi utilizado, entre eles o polêmico gol da Suíça no empate por 1 a 1 com o Brasil. A Confederação Brasileira de Futebol chegou a enviar um ofício à Fifa para pedir explicações sobre a validação do gol , pois, segundo a CBF, houve falta clara do atacante suíço no zagueiro Miranda. A avaliação e revolta foram compartilhadas ainda pelo técnico Tite e pelos jogadores da seleção.

"Não achamos que vale a pena, durante a competição, entrar no mérito de incidentes específicos. Preferimos esperar até o fim da fase de grupos, já que agora entramos em um outro momento, onde tudo é reiniciado. E é por isso decidimos vir agora falar sobre o que aconteceu nesse momento em particular", introduziu Collina.

O lance do gol da Suíça foi reproduzido durante a sala de imprensa, seguido das imagens e áudio do que se passou na sala onde estava reunida a equipe responsável pelo VAR.  

"Eles estão falando em italiano porque o  líder da equipe do VAR [Paolo Valeri] e seu operador de vídeo são italianos", explicou Collina. "Eles falam que há um empurrão 'muito, muito leve'. E eles acharam que isso não é falta, mas sim um contato normal de jogo", completou.

"O futebol é um esporte em que o contato não significa falta. Nós já dissemos antes da competição que o VAR, para muitos incidentes, não é uma questão de decisão factual. É uma questão de interpretação feita por árbitros, que são humanos. Temos que estar prontos para diferentes interpretações feitas por diferentes pessoas", continuou. "Nós respeitamos as opiniões diferentes. [...] A checagem foi feita, houve comunicação e, ao fim do dia, não foi constatado um erro óbvio", concluiu.

O que acontece na sala do VAR?

Outro lance mostrado por Collina foi o pênalti do colombiano Davinson Sánchez em cima do senegalês Mané na vitória dos sul-americanos por 1 a 0 em jogo disputado nessa quinta-feira (28) .

O áudio da comunicação na sala do VAR revela o holandês Danny Makkelie, líder da equipe do VAR naquela partida comentando com seus colegas: "Ele atinge a bola". Depois pede ao operador de vídeo: "Outro ângulo". Convencido de que o pênalti foi assinalado erroneamente, Makkelie se comunica com o árbitro principal da partida, o sérvio Milorad Mazic: "Milorad, você me ouve?". O sérvio responde positivamente. "Para mim, ele [Sánchez] atinge a bola. Para mim, não foi pênalti", diz Makkelie, fazendo com que Mazic vá ao monitor na beira do campo.

"Eu te dei dois ângulos que você consegue ver claramente que ele atinge a bola", disse Makkelie quando o árbitro principal parou em frente ao monitos. Após rever o lance, Mazic decidiu anular a marcação do pênalti.

"Por muitos anos, o árbitro foi o chefe dentro de campo. E, agora, nós pedimos para eles
aceitarem algo vindo de outra pessoa. Não é fácil mudar isso", comentou Collina.

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VAR resulta em maior número de pênaltis e paralisações mais longas

Collina confirmou que já houve 14 pênaltis a mais na Copa 2018 do que o registrado na primeira fase da Copa disputada no Brasil em 2014. O ex-árbitro destacou que sete desses pênaltis a mais se devem às decisões dos próprios juízes principais das partidas, sendo os outros sete consequência da intervenção do assistente de vídeo. "O número é definitivamente mais alto, mas nem todo o aumento se deve ao VAR", ressaltou.

Segundo o chefe do Comitê de Arbitragem da Fifa , o tempo médio para se revisar um lance no assistente de vídeo é de oito segundos, o que aumenta consideravelmente caso o árbitro principal precise ir à beira do campo para rever o lance. "A acurácia é muito importante, mesmo que se perca 10 segundos de jogo", disse Collina, acrescentando que esse tempo têm sido compensado com acréscimos mais generosos do que aqueles dados na Copa de 2014.

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