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Técnico Edson Tavares diz que federação não paga salário desde outubro e teria até sacado dinheiro dele em conta bancária

O sonho do brasileiro Edson Tavares de levar o Haiti para a Copa do Mundo de 2014 terminou após perder para a seleção de Antigua e Barbuda em novembro, nas eliminatórias. O que viveu desde então, segundo o técnico, foi um pesadelo. Tavares pediu demissão na última quarta-feira alegando que não recebia salário desde outubro. Além do calote, segundo ele, um funcionário da federação haitiana de futebol teria conseguido tirar seu dinheiro que estava depositado em uma conta no país.

Edson Tavares em treino da seleção do Haiti
Divulgação
Edson Tavares em treino da seleção do Haiti
“Acabou, acertei minha saída. Não dava mais. O país é uma miséria só. É muito complicado aquilo lá”, afirmou o treinador, em entrevista ao iG . “Eu deixei dinheiro numa conta bancária, já se apossaram do dinheiro que tinha. Um funcionário da federação sabia que tinha dinheiro, foi na agência e conseguiu tirar. Isso que não me pagam desde outubro. É muito difícil, lá está todo mundo roubando todo mundo”, disse Tavares.

O brasileiro começou a treinar a seleção haitiana em agosto de 2010. Ex-jogador, ele já havia treinado clubes pequenos na Europa e seleções da Jordânia e Vietnã e tomou conhecimento da vaga devido a uma parceria da Federação Haitiana de Futebol com a ONG (Organização Não-Governamental) Viva Rio, que tem projetos no país.

Veja tabela da Copa do Mundo de 2014

O pagamento do salário era dividido entre a ONG e a federação local de futebol, com verba da Fifa. “A Fifa deixou de pagar em outubro. Ai, eles cortaram o meu salário. A Viva Rio também ficou me devendo”, afirmou.

A Fifa informou que existem dois projetos da Federação Haitiana de Futebol. “O primeiro é o Fifa Special Project que inclui a construção da sede da federação, a remodelação do estádio Nacional e outros trabalhos. O segundo é um programa entre a empresa alemã SAT1 e a fundação Rotary, que ajudaram a federação na construção de uma escola. Nesse a Fifa não está envolvida”, disse ao iG assessoria de imprensa da entidade.

É muito difícil, no Haiti está todo mundo roubando todo mundo."

De acordo com a entidade, o técnico brasileiro se refere ao segundo projeto, que está atrasado. “Os dois estão sem dinheiro, porque é impossível trabalhar no Haiti”, rebate Tavares. “Jogávamos sem luz no estádio, porque a Fifa pagou duas vezes a reforma da iluminação, mas nas duas vezes roubaram os fios”, completou.

Já a ONG Viva Rio informou que a parte que lhe cabia do salário foi depositada na conta do técnico no Haiti. “O dinheiro está lá ou era para estar. Como o projeto é no Haiti, tivemos que depositar em uma conta no país. Esse era o acordo com a federação local e com a Fifa”, afirmou o diretor de comunicação da Viva Rio, Ronaldo Lapa. O dinheiro, segundo Tavares, foi sacado por um funcionário da federação, que não o repassou.

País foi atingido por terremoto em 2010. Sede da federação de futebol local e maior estádio foram destruídos
Getty Images
País foi atingido por terremoto em 2010. Sede da federação de futebol local e maior estádio foram destruídos

Eliminação
A seleção haitiana de futebol foi eliminada das eliminatórias para a Copa de 2014 em novembro, após perder para Antígua e Barbuda, país situado em uma ilha no Caribe. “Nós tínhamos um time bom. Dava para chegar na Copa”, diz Tavares.

O técnico, entretanto, admite que sofreu para conseguir fazer os jogadores se comunicarem. Com tantas tragédias nos últimos anos - a última foi o terremoto de 2010, que deixou mais de 100 mil mortos – Tavares buscou jogadores haitianos que viviam no exterior para formar a seleção. “Identificamos 62 atletas no mundo inteiro. A maioria era de haitianos que saíram do país ainda bebês, adotados por famílias européias. Achamos e convocamos jogadores na Espanha, Escócia, Inglaterra, Alemanha, Holanda e Bélgica”, disse o treinador.

Alguns deles não falavam francês e quase nenhum entendia o crioulo, idioma local do Haiti. “Chegava no dia do jogo e um falando italiano, um francês, outro alemão, sem entender o crioulo, falado pelos locais. Isso foi um problema”, lembra Tavares.

O treinador chegou ao Brasil na última quarta-feira. Durante o período como técnico da seleção não passou mais de 45 dias no Haiti. Até mesmo o pedido de demissão não foi no país e, sim, na Suíça, onde estava o presidente da federação haitiana. O brasileiro já não esperança de recuperar o dinheiro que lhe devem. “No futebol é assim, um dia a gente ganha, outra a gente perde”, afirmou.


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