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Em entrevista ao iG, ex-presidente do Palmeiras critica política do clube e pede mudanças no Estatuto

Para Luiz Gonzaga Belluzzo, a única solução para que o Palmeiras volte às vitórias é separar a política do futebol. O ex-presidente afirma que todo o ambiente, inclusive os jogadores, sentem que a guerra interminável entre conselheiros inviabiliza que atletas desenvolvam um bom jogo, além de afastar bons reforços que poderiam chegar.

Belluzzo lembra de Diego Souza, que pediu para sair do clube por causa de problemas com diretores e também conselheiros e ainda relata que jogadores chegaram a dizer não para sua proposta por causa da exposição na mídia.

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Ao iG , o ex-presidente também explica o motivo de não ter dado canetada para transformar o estatuto do Palmeiras e diz que sonha em ver o clube profissionalizado novamente para que as vitórias e títulos voltem a acontecer.

Leia a entrevista completa de Luiz Gonzaga Belluzzo:

iG: O senhor pensa em voltar ao clube depois de tudo isso?
Luiz Gonzaga Belluzzo:
Eu acompanho o clube pela televisão agora. Não acho que devo voltar. Os ex-presidentes deveriam formar um Senado para dar conselhos ao atual presidente. Tem gente que não acha que cometeu erros, mas eu sei que cometi. Por isso, acho que tem ser conselheiro, tem que estar acima. O torcedor quer título e a gestão precisa ser direcionada para isso. No Palmeiras, o que é meio, virou fim. Transformou o debate político em uma finalidade e ela tem movido o clube na direção errada.

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iG: Quando o senhor esteve internado, o Palaia destituiu o departamento de futebol. O senhor sabia desse golpe?
Luiz Gonzaga Belluzzo:
Os médicos não deixavam que eu soubesse de nada. Aquele foi um incidente muito desagradável, porque algumas pessoas insistiram que eu sabia ou falaram que eu deveria saber. Não sou dado a esse tipo de deslealdade. No caso do vice-presidente que estava na função, foi uma falta de compreensão do papel dele. Esse é um problema de incompreensão muito comum no palmeiras, de não entender o papel. Foi um sinal negativo de como as coisas podem ocorrer no futebol.

Durante sua gestão, Belluzzo trouxe de volta o técnico Luiz Felipe Scolari, ídolo do Palmeiras
Gazeta Press
Durante sua gestão, Belluzzo trouxe de volta o técnico Luiz Felipe Scolari, ídolo do Palmeiras

iG: Como o senhor sentia essa política na sua gestão?
Luiz Gonzaga Belluzzo:
Isso é coisa velha do Palmeiras. É o clube de entrechoques de interesse e paixão são mais agudos. O clube fica mais vulnerável. Agora, todo mundo já percebeu que usam o clube para se promover e isso não acontece nos outros clubes. Em outros clubes, a oposição não é negativa. No Palmeiras, isso se infiltra e chega ao ambiente do futebol. Eu via como os jogadores reagiram, eles lêem jornal, não estão bloqueados, então eles lêem e isso começa a gerar um clima ruim dentro do elenco. Isso atinge a adesão deles ao clube.

iG: O senhor tem um exemplo disso?
Luiz Gonzaga Belluzzo:
Eles comentavam muito comigo esse tipo de tensão. O Diego Souza, quando saiu, disse que não aguentava mais, assim como outros jogadores, que manifestaram a angústia por causa do ambiente em que tudo vaza. As coisas não permanecem dentro do âmbito certo. Tem a liberdade, mas dentro da empresa, dentro do futebol, não pode violar as regras, coisas que dizem respeito à sobrevivência da instituição.

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iG: Recentemente, tivemos um caso parecido com o do Diego Souza, o da novela Kleber. Como o senhor agiria?
Luiz Gonzaga Belluzzo:
Tenho ótima relação com o Kleber, conversava muito, mas ele derrapou. Não poderia falar o que falou do diretor (Roberto Frizzo). Isso exige uma atitude severa, porque é uma quebra grave de hierarquia. Tem que conversar para entender, mas depois disso, tem que tomar atitude disciplinar. É difícil entender, mas no futebol não podem quebrar regras, por isso me agastei com o Luxemburgo. Se recebe a proposta, tem que conversar, mas não pode aceitar aquela atitute. Mas no futebol, de repente, muda o panorama, um cara que era ídolo vira o vilão e eu assisti vários episódios desses, muito antes de ser presidente, e acho que isso não ajuda nada a ganhar adesão do elenco. Todos se sentem inseguros, não é um só.

iG: Isso afeta na hora de contratar jogadores?
Luiz Gonzaga Belluzzo:
Esse problema existe sim, diante de propostas iguais, os jogadores trepidam de ir ao Palmeiras. Por isso, precisamos trabalhar muito para terminar com isso. A trairagem, a falsidade, tudo isso pega muito mal, não ajuda. Isso é um ponto preocupante, sim, e acho que tanto o Tirone quanto o Frizzo podem mudar isso de uma maneira melhor. Tem que evitar que esse mal se alastre.

Belluzzo foi criticado por dar carta branca a Cipullo
Gazeta Press
Belluzzo foi criticado por dar carta branca a Cipullo

iG: E as eleições diretas? Vão continuar engavetadas?
Luiz Gonzaga Belluzzo:
Estamos tomando as providências jurídicas. Desde o começo, estou envolvido neste movimento, porque é uma forma, desde que inclua também o sócio torcedor. Quando eu saí do hospital, queriam que eu desse uma canetada. Não vou fazer, não farei e estava prestes a sair da presidência e não posso fazer disso. Precisamos ter respeito a normas estatutárias. Não faria jamais, porque seria um péssimo exemplo. Não podemos achar que se os outros fazem ditadura e nós fazemos é virtude. Isso é um recado que eu quero dar a todos. E não fiz e não faria. Nem depois de morto! Não é da minha tradição familiar, cultural e jurídica.

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iG: Você não acha que o estatuto engessa muita coisa? Por exemplo, o presidente do Conselho não tem prazo para convocar a requisição dos conselheiros.
Luiz Gonzaga Belluzzo:
No meu tempo, funcionou uma comissão de mudança estatutária, que não chegou a resultado nenhum. Este é um estatuto arcaico, que deveria ser atualizado. Você bloqueia o acesso dos mais jovens ao conselho, aos cargos de direção, sobretudo a presidência. Agora, quero dizer o seguinte: Não é só eleição direta. Precisa criar lideranças mais jovens, tem que sair do círculo vicioso, de sempre o mesmo. Não necessariamente as mesmas pessoas, mas o mesmo grupo.

iG: E isso se agrava com os vitalícios...
Luiz Gonzaga Belluzzo:
Passa pelos vitalícios também. O futuro do Palmeiras está na mão dessas mudanças. É uma mudança espontânea, tem que encontrar um veio político para encaminhar isso. Tem que ter método, patente. Não adianta ter repente, tem que construir um caminho para chegar lá. Na próxima eleição, você já não tem circulação, não tem renovação de elite. Fica sempre com as mesmas pessoas.

Belluzzo não entende atração de Mustafá pelo poder
Gazeta Press
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iG: E o que senhor pensar sobre profissionalização e separar futebol do clube?
Luiz Gonzaga Belluzzo:
É muito desejável, assim como fizemos no marketing e no âmbito financeiro. Separar o clube do futebol é mais do que desejável. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Ainda mais quando tivermos a Arena, que será de difícil implementação das tradições, porque diretor tem que ter conselheiro, etc. O futebol é muito disputado, é onde se dá, se ocorre a tensão. Sempre que o clube vai mal, tem uma tentativa de derrubar o diretor. Tem de profissionalizar com supervisão dos diretores, conselheiros, para escapar de súbitos desequilíbrios emocionais.

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iG: A impressão é que sempre tem alguém torcendo contra o futebol.
Luiz Gonzaga Belluzzo:
É mais ou menos por aí. É uma peculiaridade. Não noto que seja assim nos outros clubes, mas no Palmeiras, esse negócio de torcer contra é muito antigo. Para o time perder e poder desbancar os diretores.

iG: A política do ódio é instaurada ou é decorrência do estatuto arcaico?
Luiz Gonzaga Belluzzo:
Como você tem uma base eleitoral muito pequena, fica mais exacerbado o ódio. Se fosse mais amplo, teria amortecido pelo número maior de pessoas. Isso é um padrão que sempre é reproduzido no Palmeiras. Se você prestar a atenção, desde a crise do então presidente Sacomani, em 1976, o Palmeiras teve uma trajetória muito negativa no futebol. A década de 1980 foi horrível, com apenas uma final. Depois, perdeu duas semifinais com o Telê e só com a Parmalat conquistou título. Tem alguma fumaça saindo daí. É sinal de fumaça. Alguma coisa está errada, né? Porque o time só conseguiu ser campeão com associação com uma empresa privada? Deveríamos mexer com a imaginação edar uma resposta.

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iG: O poder do futebol saiu das mãos do clube...
Luiz Gonzaga Belluzzo:
Exatamente! O futebol consegue ficar imune à guerra. Não tinha chance de a empresa concordar com ingerência. Tivemos problemas com a Parmalat, mas eles seguravam a crise. A visão era de longo prazo, não era imediatista.

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iG: Você não acha que a atual gestão fala muito em cortar gastos e pouco em gerar receitas?
Luiz Gonzaga Belluzzo:
A discussão é sempre unilateral no Palmeiras, porque falam da dívida e não falam da receitas. E como isso virou objeto de disputa política, não há racionalidade e a mídia compra a tralha por causa do valor. Mas agora, por conta do Clube dos 13 ter armado toda aquela licitação, muda tudo. Tem que dar muito mérito ao Fábio Koff e à diretoria dele. Aí a Globo agiu como empresa privada e fez prevalecer seu interesse. O Palmeiras vai receber muito, mas muito mais dinheiro.

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iG: Mas você não acha que vai elitizar muito o futebol brasileiro, deixando poucos clubes com chances de título?
Luiz Gonzaga Belluzzo
: Concordo que vai desequilibrar a capacidade de aquisição de atletas. O poder econômico está mal distribuído e isso fixa uma diferença de poderio que pode limitar a disputa. Claro que isso vai fazer diferença. É como no Espanhol, que eles disputam em dois só.

Belluzzo exalta Fábio Koff, presidente do C13
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iG: Com sua experiência e o que vê de fora, como você analisa a influência do Mustafá.
Luiz Gonzaga Belluzzo:
O Mustafá é uma figura peculiar. Eu conheço ele há um tempo, já de muito antes, da época do meu pai, que sempre apoiou ele. Ele tem essa atração permanente pelo poder. Desde que ele é presidente, tem esse foco de tensão. Veja o que aconteceu com o Della Monica e agora aconteceu com o Tirone. Ele faz a antítese do que estou propondo e pregando. Os ex-presidentes deveriam ser conselheiros e abandonarem as pretensões de exercer o poder no clube.

iG: Para finalizar, qual conselho você daria ao Tirone?
Luiz Gonzaga Belluzzo:
Agora, ele tem que sufocar esse clima emocional ruim dentro do elenco, porque o futebol é o principal. Tem que reencaminhar isso, ajudar a comissão técnica.

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