Flamengo cita avanço do jogo clandestino para defender bets

Rubro-negro alertou sobre o risco da perda de segurança jurídica com a Medida Provisória que restringe atuação das casas de apostas no país

Pedro - Flamengo
Foto: Gilvan de Souza/Flamengo
Pedro - Flamengo

O Flamengo divulgou, na tarde desta sexta-feira (25), uma nota que contesta a Medida Provisória, do Governo Federal, que pretende restringir a operação das bets em território nacional. O Rubro-negro alertou sobre os riscos de perder segurança jurídica em contratos e citou, como consequência da medida, um possível avanço dos jogos clandestinos de azar. 

Confira a nota na íntegra

O Brasil levou anos discutindo como regulamentar as apostas esportivas. O Congresso aprovou, o governo regulamentou, empresas pagaram para operar legalmente no país, fizeram investimentos e passaram a cumprir regras de fiscalização, tributação e proteção ao consumidor. Não se pode criar uma regra, levar empresas e instituições a assumir compromissos com base nela e, de um dia para o outro, mudar todo o marco regulatório. Nenhuma regulamentação é intocável. Se existem problemas, as regras precisam ser aperfeiçoadas. Se precisam ser mais duras, que sejam. Quem descumpre a lei deve ser punido. Mas existe uma diferença fundamental entre aperfeiçoar uma regulamentação e simplesmente desmontá-la. Isso é uma questão de segurança jurídica. E segurança jurídica não interessa apenas às empresas de apostas. Interessa a qualquer pessoa, empresa ou instituição que invista, contrate e faça planos de longo prazo no Brasil confiando nas regras estabelecidas pelo próprio Estado. A mudança atinge em cheio o esporte brasileiro. Uma decisão dessa dimensão afeta o futebol profissional, as categorias de base, o futebol feminino, os esportes olímpicos e os campeonatos. O esporte brasileiro não pode ser analisado apenas a partir da realidade financeira dos clubes de maior receita. E não são atingidos apenas os clubes, é uma cadeia que recebe um impacto imediato: empregos diretos e indiretos, empresas de comunicação, marketing e tecnologia, fornecedores, arenas, prestadores de serviços e toda uma cadeia econômica. Atinge também a arrecadação pública. O mercado regulado gera recursos por meio de impostos e das destinações previstas em lei, que chegam aos cofres públicos e são destinados a áreas de interesse da sociedade. Enfraquecer o mercado legal pode produzir uma combinação especialmente ruim: menos recursos para o esporte e menos arrecadação para o país. E o brasileiro ficará mais protegido? Essa talvez seja uma das perguntas centrais dessa discussão. Proibir as empresas que operam legalmente não significa acabar com as apostas. O jogo não desaparece e o mercado clandestino, que representa parcela expressiva da atividade, vai crescer e ocupar esse espaço. Pesquisa do Instituto Locomotiva, realizada em maio de 2026 em todo o país com 2.291 apostadores, aponta a presença relevante de práticas associadas ao mercado ilegal. Estudo da LCA Consultores, baseado nessa pesquisa, estima que entre 38% e 44% do valor apostado online no Brasil ocorra atualmente em plataformas clandestinas. Há um dado particularmente importante: a participação estimada do mercado ilegal caiu depois da regulamentação, passando daquela faixa de 41% a 51% em 2025 para 38% a 44% no primeiro semestre de 2026. O jogo não vai acabar com uma canetada. O que acaba é a parte que o Brasil consegue regular, fiscalizar, tributar e responsabilizar. E o resultado pode ser menos segurança para quem investe, menos recursos para o esporte e para o país e menos capacidade de fiscalização sobre a atividade. O Brasil precisa combater o jogo ilegal. Precisa proteger sua população. Mas também precisa preservar a segurança jurídica, a capacidade de investimento e a sustentabilidade de suas instituições esportivas. O esporte brasileiro não pode ser enfraquecido por uma decisão que não elimina o jogo, não elimina o mercado ilegal e ainda coloca em risco os investimentos, os empregos e os compromissos construídos dentro das regras que o próprio país estabeleceu.
Flamengo


A Medida Provisória,  que deverá ser assinada hoje pelo presidente Lula (PT), restringe a operação e publicidade das bets em território nacional. A decisão impacta diretamente na receita dos clubes de futebol, que são patrocinados pelas casas de apostas. O Flamengo é a equipe com o maior faturamento proveniente das bets entre os rivais da Série A do Brasileirão. A estimativa é que o clube carioca receba mais de 200 milhões de reais por temporada do patrocinador master. 

Diante da intenção do presidente Lula, os clubes chegaram a divulgar um comunicado em conjunto, na semana passada, alegando o "fim do futebol brasileiro" . Com o avanço da iniciativa, as equipes foram notificadas pelos patrocinadores sobre a possibilidade de rompimento de contrato caso a medida seja aprovada. A MP deverá ser anunciada, nesta sexta-feira (25), pelo presidente Lula (PT).

• SAIBA MAIS: BNDES nega socorro aos clubes com iminente fim das bets

Reféns das bets

Com a entrada das bets no mercado, os clubes passaram a receber valores superfaturados em patrocínio e comprometeram grande parte da receita em marketing com anúncios de casas de apostas. Dados da Sports Value mostram que os maiores clubes do futebol brasileiro movimentaram em 2025 um total de R$ 3,2 bi em receitas de marketing. Deste volume, cerca de R$ 1,1 bi vieram de casas de apostas, 34% do total. O faturamento total dos clubes passou dos R$ 15 bi em 2025 e as casas de apostas representam em média 8% das receitas geradas.

Impacto das casas de apostas nas receitas dos clubes brasileiros
Foto: Reprodução/ Sports Value
Impacto das casas de apostas nas receitas dos clubes brasileiros


O fim do patrocínio de bet atingiria o bolso do Flamengo, mas, segundo Amir Somoggi, especialista em marketing e gestão esportiva e sócio-fundador da Sports Value, não deixaria terra arrasada no rubro-negro. Segundo ele, equipes como Corinthians e São Paulo , que sofrem com desordem administrativa, levariam muito mais tempo para se recuperar. 

"Eu diria que aqueles que têm grandes contratos, como Flamengo, Corinthians e São Paulo, obviamente, mas entre esses, sem sombra de dúvidas, o Corinthians, que depende muito do contrato de bet (Esportes da Sorte) e está numa situação ruim. Teve essa questão da Fatal Model (site de acompanhantes de luxo), que afugenta grandes marcas interessadas. Além do Corinthians, o São Paulo, que está numa situação ruim, o Santos, que depende muito também do seu contrato, Botafogo. Na minha opinião, Flamengo e Palmeiras, que estão também muito dependentes, têm a chance de atrair marcas porque estão numa gestão mais sólida. Então, eu diria que, os que têm mais contratos, ou que têm contratos maiores, e que têm má gestão, vão sofrer mais, como é o caso de Corinthians e São Paulo", analisou.