
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) deu um passo relevante para a modernização da gestão esportiva ao iniciar, em 2026, um programa que convida clubes das Séries A e B a estudarem de perto os modelos organizacionais e financeiros de três das principais ligas do mundo: Premier League, La Liga e Bundesliga. A comitiva, com dirigentes de clubes brasileiros, já está na Europa para este intercâmbio.
A iniciativa ocorre simultaneamente à implementação do Fair Play Financeiro no futebol nacional, reforçando o compromisso da entidade com a sustentabilidade econômica do esporte no Brasil.
Sob a ótica das finanças do esporte, o movimento vai além de uma simples troca de experiências institucionais. Ele sinaliza uma tentativa concreta de alinhar o futebol brasileiro a práticas consolidadas de governança, controle de gastos e responsabilidade fiscal, elementos que se tornaram essenciais para a longevidade dos clubes em mercados mais maduros.A adoção do Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF) surge como resposta a um histórico de desequilíbrios orçamentários, endividamento elevado e dependência de receitas extraordinárias.“Fazer parte dessa comitiva é uma oportunidade fundamental para trocar experiências e entender, na prática, como ligas consolidadas lidam com temas estruturais como governança, arbitragem e responsabilidade financeira. O Santos sempre teve um papel relevante nas transformações do futebol brasileiro, e estar inserido nesse debate é essencial para contribuirmos com a evolução do esporte no país”, comentou Marcelo Teixeira, presidente do Santos, que representou o clube neste intercâmbio.O Juventude foi representado pelo 1º vice-presidente, Paulo Stumpf, que destacou a importância da participação do clube no evento: “Estamos vivendo um momento decisivo para o futebol brasileiro, em que gestão e profissionalização caminham lado a lado. Esta imersão é uma oportunidade única de aprender com modelos que conseguem equilibrar excelência técnica e sustentabilidade financeira. Muito embora o Juventude já esteja no caminho certo, sendo um case-exemplo no Brasil na gestão de seus recursos, tenho convicção de que as experiências e contatos que faremos na Europa agregarão muito ao clube”.Já o presidente do Cuiabá, Cristiano Dresch, juntou-se à comitiva brasileira na última quinta-feira (8). O dirigente elogiou bastante a iniciativa da entidade máxima do futebol brasileiro: "A ideia é excelente. Um intercâmbio que o futebol brasileiro precisa ter, de poder conhecer as maiores ligas do mundo, como elas funcionam, o que tem de bom. Esse movimento vários segmentos empresariais fazem procurando obter troca de informação. Acredito que a CBF nunca fez isso, é a primeira vez, então, é mais um passo importante que a entidade está dando para a modernização do nosso futebol".Para Moises Assayag, sócio-diretor da Channel Associados e especialista em finanças do esporte, a iniciativa da CBF aponta para um caminho de um avanço estrutural importante para o futebol nacional. “Esta iniciativa da CBF de aproximar os clubes brasileiros dos modelos europeus demonstra uma postura importante da entidade. Ao incentivar o estudo de ligas que já operam sob regras de sustentabilidade financeira, a CBF sinaliza que não basta criar normas: é preciso capacitar os dirigentes, promover conhecimento e estimular uma visão de gestão mais profissional e alinhada às melhores práticas do futebol mundial”, analisou.“O Fair Play Financeiro não pode ser interpretado como uma medida punitiva, mas como um instrumento de organização geral, mais além até do que apenas a econômico-financeira. Ele cria limites baseados na realidade de cada clube e ajuda a evitar decisões que comprometem o futuro das instituições”, complementou Moises.Especialistas apontam que, em mercados mais maduros, regras de sustentabilidade financeira beneficiam o esporte ao contribuir não apenas para preservar a base da competitividade equitativa entre o clubes, mas também por reduzir riscos de insolvência, aumentar a transparência e fortalecer a credibilidade dos clubes junto a investidores, patrocinadores e parceiros comerciais. Ao promover o contato direto dos dirigentes brasileiros com essas experiências, a CBF busca acelerar o processo de amadurecimento da gestão no futebol nacional.“O Fair Play Financeiro tem potencial para transformar a gestão do futebol brasileiro ao exigir transparência, planejamento e responsabilidade compatíveis com a real capacidade de arrecadação dos clubes. Ao reduzir improvisos e frear o acúmulo de dívidas, o modelo cria um ambiente mais profissional e sustentável. Para os clubes, o impacto tende a ser ainda mais significativo, já que o acesso a investimento precisa caminhar lado a lado com disciplina financeira, controle de custos e rigor no cumprimento das regras, sob pena de sanções esportivas e administrativas”, explica a advogada Talita Garcez, especialista em direito desportivo e sócia do Garcez Advogados e Associados.Para Cristiano Caús, advogado especialista em direito esportivo e sócio da CCLA Advogados, preferiu adotar um tom de cautela sobre a calibragem regulatória dessas novas regras: “o fair play financeiro é importante para a sustentabilidade do futebol brasileiro, mas sua implementação não pode ignorar o estágio de maturidade econômica dos clubes. Exigir ajustes rígidos e imediatos pode produzir o efeito inverso: acelerar processos de insolvência, especialmente em instituições que já operam no limite. O ideal seria uma fase de transição mais ampla, com métricas progressivas e mecanismos que assegurem segurança jurídica e viabilidade prática às equipes”, comentou.Do ponto de vista econômico, o novo sistema tende a funcionar como um balizador estratégico para os clubes, incentivando planejamento de médio e longo prazo, controle de custos e investimentos estruturais em áreas como categorias de base, inovações tecnológicas e infraestrutura.Ao unir o benchmarking internacional e a regulação doméstica, a CBF procura criar as condições para um futebol brasileiro mais sólido do ponto de vista financeiro, sustentável no longo prazo. Se bem estruturado e bem executado, o Fair Play Financeiro pode não apenas reorganizar as contas dos clubes, mas também elevar o patamar de governança e credibilidade do futebol nacional, tornando-o mais competitivo e atrativo no cenário global.