Ninho do Urubu, centro de treinamento do Flamengo no Rio de Janeiro
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Ninho do Urubu, centro de treinamento do Flamengo no Rio de Janeiro

Completos um ano do incêndio no Ninho do Urubu, que vitimou dez adolescentes que atuavam nas categorias de base do Flamengo, o Extra procurou o clube para cobrar explicações sobre o caso. As questões foram enviadas à pasta de comunicação, que utilizou um pronunciamento no canal 'FlaTV', no Youtube, para abordar os temas.

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Na ocasião, o presidente Rodolfo Landim, o vice jurídico Rodrigo Dunshee e o CEO do clube Reinaldo Belotti se manifestaram. O Flamengo informou que, com a proximidade do 8 de fevereiro — data do incêndio no Ninho do Urubu —, foi procurado por muitos veículos de imprensa com pedidos de entrevista de seus dirigentes, e optou por atender neste formato.

Confira como o Flamengo, via 'FlaTV', abordou os questionamentos enviados sobre as negociações com as famílias:

O clube havia prometido homenagens para as vítimas com um memorial no próprio CT, mas a área possui apenas um estacionamento. Por quê?

Rodolfo Landim: Existe um projeto de construir uma capela para São Judas Tadeu e dentro dessa capela vai haver um espaço específico destinado para homenagear os meninos que sofreram esse acidente.

São quatro acordos pontuais com os familiares de Athila Paixão, Vitor Isaias, Gedinho e pai do Rykelmo. Os seis demais estão avançando?

Rodrigo Dunshee: Nós fizemos quatro acordos, mas além disso fizemos outros 20 acordos com os sobreviventes e com os que se lesionaram. O Flamengo desde o acidente espontaneamente começou a pagar R$ 5 mil para cada família, para que essas famílias pudessem ter tranquilidade de negociar um acordo com o Flamengo sem ter necessidade emergencial de caixa. Os garotos em média recebiam R$ 800 por mês, e o Flamengo pagou mais de seis vezes, espontaneamente, o que pagava aos meninos. O Flamengo o tempo inteiro se colocou à disposição das famílias. No quesito acordo, o Flamengo, depois de muita conversa, chegou a um valor que entendemos ser muito alto e muito acima dos precedentes da Justiça brasileira. Esse valor não levou em consideração quesitos como a estatística de que esses meninos dificilmente percentualmente chegariam a ser titulares do Flamengo. Esse valor que nós oferecemos, três famílias e meia aceitaram. Não podemos tratar a tragédia de uma forma para uma família e de outra forma para outra família. No nosso valor oferecido, que nós consideramos satisfatório, e três famílias e meia também consideraram, é a nossa oferta. A gente tem um limite, a gente tem tentado pegar esse valor e transformar de uma forma que atenda às famílias restantes. O Flamengo está aberto a negociação, as famílias também parecem estar, porque só meia família entrou na Justiça, a mãe do Rykelmo entrou na Justiça carioca pedindo uma indenização. O pai fez acordo com o Flamengo, a mãe entrou na Justiça. São separados, ele entendeu que o valor que o Flamengo oferecia era capaz de resolver a situação para ele, ele recebeu, e ela foi à Justiça. É um direito individual de cada um. Ele tem a dor dele, ela tem a dor dela. Cada um vai resolver de um jeito diferente. Normalmente a gente tem negociado com a família inteira, mas podemos separar também. Estamos tentando continuar conversando com as outras famílias, nós temos contato com os advogados das famílias, estamos otimistas que isso possa resultar num acordo.

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Rodolfo Landim: Às vezes o Flamengo é cobrado porque não tem procurado as famílias. A verdade é que as famílias constituíram advogados, e os advogados procuram o Flamengo dizendo "Olha, o contato de vocês tem que ser comigo". Mesmo assim, a gente continua buscando, nossos psicólogos, eventualmente contato com as famílias. Uma das famílias a gente recebeu aqui em outubro, fizeram visitas no Ninho, foram ao jogo contra o Grêmio. Sempre que existe possibilidade de aproximação, o Flamengo está superaberto a isso. Às vezes essa aproximação é barrada pelos representantes legais dessas famílias, que são os advogados constituídos. Que na grande maioria das vezes têm criado uma barreira para que nós pudéssemos falar diretamente com as famílias.

Enquanto negocia, que recursos o Flamengo ainda disponibiliza para as famílias, tanto financeiros como outros tipos de apoio?

Rodrigo Dunshee: O Flamengo simplesmente fez a disponibilização de um valor inicial de R$ 5 mil, que era seis vezes acima do que as famílias recebiam através dos meninos. Depois o MP e a Defensoria entraram na Justiça pedindo uma penhora de R$ 57 milhões do Flamengo, e o juiz entendeu que melhor do que essa penhora seria dar R$ 10 mil. O juiz dobrou o valor que o Flamengo estava dando espontaneamente, e essa decisão está valendo. O Flamengo está depositando para as famílias R$ 10 mil por mês.

Fla TV: Quando foi a última vez que o Flamengo procurou as famílias dos meninos que morreram no incêndio?

Rodrigo Dunshee: Como advogado do Flamengo nesse assunto, eu tenho uma dificuldade: cada família que eu vá falar, eu tenho que pedir autorização ao advogado dela para poder falar. Eu tive contato com algumas pessoas e sempre foi difícil, porque tem um impasse e uma mágoa. As pessoas perderam seus filhos. Eu posso falar, por exemplo, que eu liguei para a mãe do Samuel. Ela tinha acabado de perder o filho e logo depois perdeu a mãe. Eu fui conversar com ela, eu pensei: "Eu, como advogado do Flamengo, o que posso fazer para minorar a dor da mãe do Samuel que perdeu a mãe e o filho?". Cada um tem a sua experiência de contato, mas acho que a questão vai ser facilitada depois que nós fizermos todos os acordos.

Reinaldo Belotti: É difícil dizer quem do Flamengo está conversando com qual família, mas a convivência desses adolescentes aqui no Ninho criou amizades muito intensas. Então a gente tem notícias de pessoas aqui conversando com os familiares, e o que posso garantir é que nossa área de Recursos Humanos, que é a responsável institucional por esse tipo de relacionamento, tem recebido frequentes contatos dos familiares e tem retribuído de uma maneira muito amistosa.

Rodolfo Landim, presidente do Flamengo
Twitter/Reprodução
Rodolfo Landim, presidente do Flamengo


Fla TV: Existe um prazo para finalizar esses acordos que faltam?

Rodolfo Landim: Impossível dizer (dar prazo para acordo). A gente pode dizer que está aberto para que esses acordos venham a ocorrer. A gente tem demonstrado isso ao longo do tempo, na medida em que, toda vez que a gente consegue equacionar dentro daqueles valores que eu falei, a gente tem tido acordos. Então é muito difícil, porque isso depende não só do Flamengo. Depende das famílias e do tempo delas. Muito difícil estabelecer um prazo. A gente vai estar sempre aberto para fazer esse tipo de acordo.

Fla TV: O Ministério Público e a Defensoria do Rio também buscam conciliação entre as partes. Os processos eventualmente movidos contra o clube invalidariam possíveis acordos com as famílias das vítimas?

Rodrigo Dunshee: O Ministério Público e a Defensoria não têm representação das famílias, as famílias têm seus advogados regularmente constituídos, apenas a mãe do Samuel é representada pela Defensoria Pública. Ela não tem poder de negociar acordo com o Flamengo. O Flamengo não reconhece nessas entidades a capacidade de representar as famílias, até porque ela não existe. Não obstante, existem processos judiciais feitos pelo MP e pela Defensoria tentando responsabilizar o Flamengo, mas esses processos não têm o condão de desfazer os acordos que foram feitos.

Fla TV: Alguns familiares consideram que o clube tenta diminuir o futuro que os atletas teriam como uma forma de diminuir o valor das indenizações. Como os senhores tratam essa percepção e aquilo que eles chamam de desprezo por parte do Flamengo?

Rodolfo Landim: A pergunta parte de uma premissa falsa, como se o Flamengo tivesse desprezo, é exatamente o contrário, e que estivesse diminuindo o futuro das vítimas. O que o Flamengo tenta fazer, através de um processo educacional de trazer esse jovem para cá, dar educação esportiva, alimentação e orientação, é criar um futuro para esses jovens, não diminuir o futuro deles. Muitos desses jovens, a gente acredita, que não teriam um futuro tão bom como eles vão passar a poder ter depois de terem passado por aqui. Independente de, no futuro, terem conseguido se tornar profissionais ou não. Mas só a base que o Flamengo acabou oferecendo para esses jovens, eu tenho certeza de que, sendo ou não no futuro atletas, eles vão sair daqui com um futuro muito melhor do que eles teriam se não tivessem vindo para cá.

Reinaldo Belotti: O Flamengo hoje pega esses garotos, quando traz para cá com habilidade de jogar profissional, é lógico, mas ele cuida não só da vida esportiva. Ele forma, além de atletas cidadãos. O Flamengo dá escola, alimentação, acompanhamento psicológico. Parte disso é exigido em legislação, porque o arcabouço do Estado brasileiro entende que um percentual muito pequeno desses garotos vão fazer sucesso como jogador profissional. Então eles têm que estar prontos para enfrentar a vida. Se ali não der certo, tem que dar certo de outra maneira. São essas ferramentas que o Flamengo oferece a eles. Isso está explicitado num recente TAC que nós fizemos com o MP. Nós não usamos estatisticamente nenhum tipo de ferramenta para fazer essa proposta que nós fizemos, porque a estatística não suporta essa proposta. O que nós fizemos foi colocar na mesa alguma coisa que a gente entendia como representativa daquilo que o Flamengo pode dar a essas famílias.

Fla TV: O Flamengo tem sido questionado por ter lucrado muito na temporada passada e com negociações bem-sucedidas, como é o caso da venda do Reinier para o Real Madrid, o que poderia aumentar a oferta para as famílias e os sobreviventes. Qual é o posicionamento de vocês sobre esse argumento?

Rodolfo Landim: Esses são processos totalmente distintos. Um são os danos que a gente causou às famílias, e outro é o resultado econômico do clube. Então, por exemplo, se o clube tivesse tido um resultado esportivo ruim, um resultado financeiro ruim e tivesse dado prejuízo, por acaso, o clube não teria mais responsabilidade para pagar essas famílias? Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, totalmente diferente. É importante dissociar as coisas. O Flamengo tem responsabilidade sobre a indenização dessas famílias, e ela será estabelecida em cima de critérios que a gente está avaliando para esse caso específico.

Fla TV: Alguns familiares se sentem perseguidos nas redes sociais por cobrarem o clube pelo que entendem ser justo. Parte dos torcedores entende que esses familiares querem usar o Flamengo e a tragédia para enriquecer. O que você pode falar sobre isso?

Rodolfo Landim: É muito difícil controlar mídia social, o que é dito e o que é escrito, a gente não tem como controlar isso. Particularmente, acho que todas as pessoas têm o direito de pleitear aquilo que elas quiserem. Em última análise, elas podem ir à Justiça se entenderem que aquilo que é justo não está sendo atendido. Eu penso assim. Mas eu não controlo a mídia.

Fla TV: Muita gente tem afirmado que o Flamengo tem se recusado a pagar indenizações? Isso é verdade?

Rodrigo Dunshee: Eu tenho notado que essa é uma indagação que incomoda o torcedor rubro-negro. Mas isso é mais uma mentira. É uma picuinha de adversários ou de parte da mídia. O Flamengo fez uma oferta de pagamento altíssima. E essa oferta está à disposição de quem queira fazer o acordo. Não há nenhuma ordem judicial para que o Flamengo pague nenhum valor nesse momento. O único valor que o Flamengo tem que pagar são os R$ 10 mil por mês, e estamos pagando. Então, algumas pessoas olham a questão sob o aspecto do copo vazio. Quando se tem de olhar o comportamento do Flamengo nesses 11 meses por outro ângulo. O Flamengo se colocou totalmente à disposição das famílias, o Flamengo ofereceu valores bem altos comparados ao que se paga no Brasil, o Flamengo está à disposição para fazer esses pagamentos no dia seguinte que as famílias quiserem, o Flamengo não está se recusando a fazer os acordos. Então, a torcida tem de ter consciência de que o Flamengo não está se furtando da sua responsabilidade.

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