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Destaque na bela campanha alviverde no Campeonato Brasileiro com quatro gols, Mina pensou em seguir os passos do pai e do tio, que foram goleiros

Do alto de seu 1m95 de altura, o colombiano Yerry Mina olha para baixo, costas levemente curvadas que realçam sua timidez, e indaga se pode responder às perguntas em espanhol, e não em “portunhol”. O acanhamento nada tem a ver com a desenvoltura que o zagueiro de 22 anos exibe nas danças que incorpora nas comemorações de gol – já foram quatro em apenas nove jogos vestindo a camisa 26.

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Ao ouvir que sim, o novo xodó da torcida sorri e diz que ainda não se sente seguro para uma entrevista no idioma do Brasil, país que está aprendendo a amar por causa do clube que o acolheu. Carinho recíproco que vem das arquibancadas por ter se igualado em pouco tempo – pelo menos em estatística – ao maior zagueiro que o alviverde já teve.

Zagueiro Mina comemora gol marcado no Brasileirão. Ele igualou marca de Luís Pereira ao balançar as redes dos três rivais
Cesar Greco/Ag Palmeiras/Divulgação
Zagueiro Mina comemora gol marcado no Brasileirão. Ele igualou marca de Luís Pereira ao balançar as redes dos três rivais

Carrasco nos clássicos contra os três rivais, ele se colocou no patamar de Luís Pereira, até então único defensor da história do time a fazer gols no Santos, São Paulo e Corinthians. Atingiu esse degrau em pouco mais de dois meses, entre a partida contra o time da Vila Belmiro, no Allianz Parque, em julho, e o Dérbi, na Arena Corinthians, em setembro.

A habilidade no cabeceio e de se impor pelo alto faz de Mina uma opção letal no arsenal ofensivo do técnico Cuca em jogadas de bola aérea. O zagueiro, que assinou com a Palmeiras por cinco anos, é o mais alto do elenco ao lado do goleiro Vinícius Silvestre.

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O que poucos sabem é que a vontade dele no início da carreira era de defender, mas não como faz atualmente, e sim com as mãos. José Eulices, pai de Mina, e Jair, o tio, foram goleiros, e não deixaram que ele seguisse debaixo da meta.

“Quando eu era criança, comecei como goleiro, como todos na minha família. Mas é uma posição muito difícil, complicada de se destacar, e então fui logo jogar como volante por recomendação do meu pai e dos meus tios”, recorda o colombiano em entrevista à "Revista Palmeiras".

José atuou profissionalmente por América de Cali e Once Caldas. Jair é quem vive com Mina em São Paulo – é o empresário dele também. O sucesso rápido do pupilo mostra que a decisão de interromper a dinastia de goleiros da família foi acertada. “Ainda bem que comecei a jogar como volante e depois zagueiro”, comemora.

Mina ao lado do seu tio Jair, um dos que impediu que ele se tornasse goleiro
Divulgação
Mina ao lado do seu tio Jair, um dos que impediu que ele se tornasse goleiro

Outro personagem importante na formação de Yerry como defensor foi o técnico Flabio Torres, responsável por lançá-lo no Deportivo Pasto, há quatro anos. Ele treinou o clube entre 2011 e 2013 e observou a evolução do jogador nas categorias de base. Primeiramente, no meio-campo.

“Eu o vi jogando num torneio sub-20 e já pedi para trazer ao profissional. Ele estreou num torneio primeiramente como volante, e desde o início percebemos que ele seria importante para o grupo”, diz à Revista Palmeiras. Atualmente, Torres treina o Atlético Bucaramanga, da primeira divisão da Colômbia.

A mudança de posição se deu ao longo dos treinamentos. Torres percebeu que, mesmo tendo um bom passe e um chute de qualidade de longa distância, a transição para o ataque de Mina era mais demorada. “Aproveitamos para recuá-lo para a defesa e aproveitar sua boa estatura. Soube que ele queria ser goleiro depois, então o deixamos mais perto do gol”, brinca Torres.

Quem observa os treinos de Mina nota logo a força da impulsão. É muito difícil vencê-lo pelo alto, tanto na defesa como no ataque. Com três gols pelo Independiente Santa Fé na Copa Libertadores deste ano e participação determinante no título da Sul-Americana de 2015, ele passou a ser observado com mais atenção por diversos clubes.

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Desde a contratação, em maio, e até a estreia, contra o Sport, em julho, Mina não viveu só de alegria e dança no Brasil. Uma lesão muscular, minutos após anotar o seu primeiro gol pelo Palmeiras (contra o Santos), o deixou fora da equipe e dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. De volta, porém, se firmou como um dos pilares de uma das melhores defesas do Brasileirão.

“O Palmeiras me tratou muito bem desde o primeiro contato que tivemos. Cheguei aqui e todos me receberam de braços abertos. A lesão foi difícil, mas são coisas do futebol. Foi muito mais fácil lidar com isso por causa do apoio. Quero muito ajudar e ser campeão por este clube”, acrescentou.

E para levantar uma taça, não importa a posição em campo. Se numa eventual necessidade um jogador de linha precisar ir para o gol, Mina estará à disposição. Ele ainda não precisou passar por isso na carreira, mas não descarta nada. Se for para acuar um adversário, ele já mostrou ter condições ofensivas de ajudar o time. “Isso é normal. Se estivermos perdendo ou empatando um jogo decisivo, vou para o ataque e viro atacante. Mas só nesses casos mesmos. Minha primeira função é defender, fui contratado para isso”, continua o jogador.

GINGADO

Mesmo com poucos meses no Palmeiras, o colombiano tem sido muito festejado pelos companheiros por uma característica marcante a quase todos os latinos: o gingado. A dança cheia de requebrado é marca registada de Mina desde seus primeiros gols pelo Santa Fé e pôde ser vista logo em seu primeiro jogo no Allianz Parque. Gabriel Jesus é um dos colegas que gostam de aprender os passos do dougie, o ritmo que é febre na Colômbia.

“A comemoração é uma característica dos colombianos. A maioria, como no Brasil, veio de comunidades mais pobres, em que o futebol era a única alegria. Todos gostamos de dançar também. E a dança no gol é um reflexo da felicidade que sentimos por jogar. Está na essência”, diz o zagueiro.

Mina ao lado do seu irmão mais novo, Juanjosé, e seu pai, José Eulices, ainda quando atuava pelo Santa Fé, da Colômbia
Divulgação
Mina ao lado do seu irmão mais novo, Juanjosé, e seu pai, José Eulices, ainda quando atuava pelo Santa Fé, da Colômbia

Logo que chegou ao clube, ele já ouviu perguntas sobre Pablo Armero, o lateral esquerdo que marcou seu período no Palmeiras como o protagonista do “Armeration” – como ficou conhecida entre os torcedores a celebração do jogador após um gol alviverde diante do Santos, em 2009. Mina, no entanto, pretende que seu nome fique gravado com títulos.

“Soube dos colombianos que passaram pelo clube, claro, todos são grandes jogadores. Se estou aqui, tenho condições de fazer história e também de ser campeão”, pondera o colombiano.

ESTILO DE ANDRÉS ESCOBAR

O primeiro treinador de Yerri Mina como profissional não hesita ao ser perguntado sobre qual jogador ele se assemelha entre os grandes do futebol de seu país. “Andrés Escobar”, comparou Flabio Torres.

Mesmo sendo destro (Escobar era canhoto), o palmeirense tem o que, para o técnico, era as maiores qualidades do zagueiro da Colômbia na Copa do Mundo de 1994: a saída de bola e facilidade de jogar em qualquer lado da defesa. “Além disso, ele é alto, mas não é lento. No mano a mano é difícil ganhar dele”, afirmou.

Escobar morreu tragicamente, aos 27 anos, em 1994 – foi assassinado pelo cartel de Medellín, que o culpou pela eliminação precoce na Copa. Ainda assim deixou seu nome na história da seleção colombiana. Para Torres, Mina trilha o caminho do sucesso.

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“Ele tem todas as características para se tornar uma referência entre os zagueiros em nível internacional. Já demonstrava isso no Santa Fé e agora no Palmeiras mantém a mesma boa impressão. É muito merecido. Mesmo com a juventude, tem personalidade e talento para figurar logo na seleção principal de Colômbia”, completou.

Mina teve a chance de defender a Colômbia na última Copa América e era nome certo para os Jogos Olímpicos do Rio, mas acabou cortado por lesão. “É um orgulho defender meu país e se eu voltar à seleção principal será porque estou indo bem no Palmeiras. Não me falta nada aqui e espero conseguir esse sonho mais uma vez”, concluiu o zagueiro.

*Texto publicado originalmente na "Revista Palmeiras"

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