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José Sinval Batista Carvalho foi atingido por um tiro no peito na praça Padre Monteiro Aleixo Mafra, em São Miguel Paulista

Barras de ferro, de madeira e rojões usados durante briga entre palmeirenses e corintianos
Helio Torchi/Simapress/Estadão Conteúdo
Barras de ferro, de madeira e rojões usados durante briga entre palmeirenses e corintianos

A família de José Sinval Batista Carvalho, morto no confronto entre torcedores no clássico entre Palmeiras e Corinthians, vai abrir uma ação judicial contra as organizadas envolvidas no conflito. A família pretende aguardar o andamento das investigações - 19 torcedores continuam presos -, mas vai lutar na Justiça por uma indenização para a filha de Sinval, Débora Carvalho. Nesta terça-feira, a briga das torcidas que se espalhou por quatro pontos diferentes da cidade, antes e depois do jogo, completa exatamente um mês.

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Sinval foi a única vítima. Ele foi atingido por um tiro no peito na praça Padre Monteiro Aleixo Mafra, em São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo. As investigações apontaram que ele estava passando pelo local, conhecido como praça do Forró, e não era torcedor. “Pensamos em processar o Governo, mas é muito difícil responsabilizar o Estado. Os responsáveis mesmo foram os torcedores que brigaram. São eles que têm de pagar pelo que fizeram”, explicou Luzia Fátima da Silva, ex-mulher de Sinval.

Representantes das torcidas organizadas não quiseram comentar o caso e preferem aguardar o andamento das investigações. “Se há um equipamento público, como esses em parques em que pessoas fazem ginástica, e ele desaba e mata uma pessoa, o Estado deve indenizar. Agora, quando uma terceira pessoa, um assaltante ou um torcedor delinquente, dispara uma arma de fogo em uma briga e acerta uma pessoa, é ele, quem atirou, o responsável, não o Estado”, opinou o advogado Roberto Delmanto Jr.

Luzia e Sinval viveram juntos por 13 anos e tiveram Débora, hoje com 16 anos. A mãe conta que a adolescente tem muitas dificuldades para voltar retomar as atividades diárias. Além do contato frequente - as visitas eram feitas uma vez a cada 15 dias -, Sinval ajudava financeiramente a família. Luzia é empregada doméstica e trabalha como diarista; Sinval era entregador de água.

José Sinval Batista Carvalho, vítima de briga de torcidas
Reprodução/DHPP
José Sinval Batista Carvalho, vítima de briga de torcidas

Outros familiares de Sinval também apoiam a responsabilização das torcidas. “Mesmo depois desse tempo, a gente continua indignado e inconformado. Ainda tenho esperança de que vão achar quem fez isso. É preciso fazer justiça”, afirmou Selma, irmã de Sinval.

A ação judicial ainda está em estudo. A família prefere aguardar o avanço das investigações, pois tem esperança de que a polícia consiga identificar de onde partiu o tiro. Exames de resíduo de pólvora feitos em torcedores presos logo após o conflito deram resultado negativo. A polícia ainda investiga a origem do disparo - o projétil e a arma ainda não foram localizados. “Ainda estamos na fase de análise para ver como podemos abrir a ação de ressarcimento, pois se trata de um caso bastante delicado”, afirmou a advogada Vania Lima. A especialista não descarta processar as torcidas mesmo que haja a identificação de um autor específico. “Se houver uma filiação à torcida, é possível. Se não houvesse a briga, ele ainda poderia estar vivo” explicou.

A morte de Sinval causou comoção na zona leste e se tornou um caso importante para a polícia. Depois da tragédia do dia 3 de abril, ele demorou a ser reconhecido por estar sem documentos. A polícia divulgou um retrato falado para facilitar a identificação e só conseguiu encontrar os familiares na quinta-feira, quatro dias depois.

Além do confronto em São Miguel Paulista, em frente à estação São Miguel Paulista da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), a estação Brás, da Linha Vermelha do metrô foi palco de tumultos. Outras duas brigas aconteceram em Guarulhos e próximo do estádio do Pacaembu, local do jogo.

PRESOS - No dia 15 abril, 12 dias após a briga das torcidas, a Polícia Civil de São Paulo cumpriu 98 mandados judiciais, entre prisões e buscas, nas sedes de torcidas organizadas. A operação, chamada Cartão Vermelho, atingiu a Gaviões da Fiel e Pavilhão 9, do Corinthians, e a palmeirense Mancha Alviverde.

O Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) informou, por meio de nota, que 19 torcedores continuam detidos até hoje. Eles são acusados de participação e autoria em diversos episódios de violência. A polícia também garante que as investigações continuam com “diligências e oitivas de vítimas e testemunhas”. De acordo com o DHPP, “a morte em São Miguel Paulista continua em investigação, por causa da complexidade para identificar a autoria do disparo e demais envolvidos”.