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Zagueiro do Botafogo-SP acredita que êxodo brasileiro para a China desenvolverá o futebol do país e diz que Zi Zhao, ex-Corinthians, não é jogador de primeiro escalão na China

Ma Cheng fez o caminho inverso e busca ser o primeiro chinês a ter sucesso no Brasil
Rogério Morotti/Agência Botafogo
Ma Cheng fez o caminho inverso e busca ser o primeiro chinês a ter sucesso no Brasil

Cada vez mais rico e dominante, o mercado chinês tem, temporada-a-temporada, se destacando como o mais emergente e dominante da Ásia e um dos que mais consegue crescimento em transferências. Na última janela, que se encerrou no dia 26 de fevereiro, teve as três maiores transações do futebol mundial e, além disso, levaram grandes nomes e superaram concorrências com o mercado europeu para adquirir craques. No total, a China investiu cerca de R$ 1,6 bilhão na janela de inverno.

O Brasil foi uma das grandes vítimas e viu nomes como Ramires, ex-Chelsea, e Alex Teixeira, que recusou oferta do Liverpool seduzido pelo dinheiro chinês, assinarem suas transferências, que ocupam o pódio das mais caras transações da janela, para o emergente mercado.

Além deles, Jadson, Renato Augusto, Ralf, Gil, Geovânio e Luis Fabiano deixaram o futebol brasileiro rumo ao país asiático, se juntando a nomes como Elkeson, Diego Tardelli, Aloísio e Paulinho que já estavam por lá,  totalizando 42 jogadores do país atuando nas duas principais divisões chinesas.

Na contra-mão do crescimento do mercado, um jovem jogador deixou, em 2012, a China para tentar a sorte no futebol brasileiro. Trata-se do zagueiro Ma Cheng, de 19 anos, que no Brasil recebeu o apelido de Gattuso, e que integra o elenco do Botafogo-SP.

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O jogador iniciou sua carreira no futebol chinês e veio para o Brasil em uma parceria entre os paulistas de Ribeirão Preto com o Ole Beijing da China e figurou na base do clube brasileiro através do projeto Botafogo Academy, ao lado de mais 15 compatriotas.

Zagueiro diz que Zi Zhao não é jogador de primeiro escalão na China
Rogério Morotti/Agência Botafogo
Zagueiro diz que Zi Zhao não é jogador de primeiro escalão na China

Em entrevista exclusiva ao iG Esportes , o jogador contou um pouco sobre sua trajetória e falou sobre a adaptação no Brasil, sobre o crescimento do mercado Chinês e o impacto que a presença recorde de brasileiros terá no futebol do país e até das dificuldades que eles encontrarão na casa nova. Fã de churrasco, Ma Cheng ainda falou sobre o compatriota Cheng Zi Zhao, que chegou ao Brasil na mesma época que ele, para jogar no Corinthians e teve poucas oportunidades, fato que segundo ele não causou decepção no povo chinês:   “Ele é conhecido na China, mas não é um jogador de primeiro nível. Existem outros jogadores chineses melhor que ele”

Apesar de treinar com o grupo principal do Botafogo, o zagueiro não deve ser aproveitado no Campeonato Paulista, recebendo chances durante o segundo semestre na Copa Paulista, que o clube terá autorização para disputar com sua equipe sub-20.

Confira a íntegra da entrevista:

iG Esportes: Como está sendo sua adaptação ao Brasil? Quais têm sido suas dificuldades?

Ma Cheng: Eu cheguei ao país em 2012 e estou me adaptando muito bem ao Brasil. Gosto muito da comida, principalmente do churrasco.  O que não gosto aqui em Ribeirão Preto é o calor, pois prefiro o frio. Outra dificuldade é o idioma que é muito difícil de aprender. Tenho alguns amigos aqui em Ribeirão Preto, como o pessoal da base do Botafogo, já que ficamos juntos no mesmo CT, assim como o pessoal que cuida da gente, como professores, funcionários, técnicos, entre outros.

iG: Como começou sua trajetória no futebol? Como funciona a formação de novos atletas no futebol chinês? É muito diferente do que você passou na base do Botafogo?

MC: Comecei com cinco anos, já em Pequim, no clube Guo An Yue Yei. Naci em An Hui e fui para Pequim com cinco anos. Em 2012, fui escolhido pelo Ole Beijing, parceiro do Botafogo Academy, juntamente com mais 15 meninos, para vir ao Brasil treinar. Na China, a formação é bem parecida com a do Brasil, nos clubes e escolas, porém aqui é muito mais profissional do que é na China.

iG: De onde veio a idéia de utilizar o apelido de Gattuso?

Ma Cheng recebeu no Brasil o apelido de Gattuso, em alusão ao tetracampeão do mundo pela Itália
Arquivo iG
Ma Cheng recebeu no Brasil o apelido de Gattuso, em alusão ao tetracampeão do mundo pela Itália

MC: Quando chegamos ao Brasil, os professores do Botafogo Academy pedem para que nós escolhamos um nome ocidental. Meu professor Tony disse que o Gattuso é um bom jogador e eu aceitei a ideia.

iG: Nos últimos anos e, principalmente, na última janela de transferência muitos jogadores brasileiros saíram para atuar na China. Como você enxerga essa movimentação?

MC: Isso é muito bom. Acredito que o futebol chinês já teve uma boa fase no passado, caiu muito e agora vem crescendo novamente com a chegada de todos estes estrangeiros. O futebol chinês vai crescer muito com tudo isso que vem acontecendo na Liga chinesa.

iG: O que esses brasileiros podem esperar do futebol chinês?

MC: O futebol chinês vem melhorando muito, mas acredito que ainda não vai brigar por uma vaga na Copa do Mundo de 2018, na Rússia. Se o trabalho continuar da forma que vem sendo realizado, acredito que temos muitas chances na Copa de 2022.

iG: Quais vão ser as dificuldades que eles vão enfrentar?

MC: Os brasileiros enfrentam a dificuldade da adaptação em geral e não em relação ao futebol. O que complica para eles, em geral, se diz respeito a comida, língua, entre outras coisas.

iG: Acredita que a chegada dos brasileiros vai ajudar a desenvolver o futebol da China?

MC: Sim, pois os brasileiros estão entre os principais jogadores do mundo, com muita técnica. Acredito que eles poderão nos ajudar, assim como já fizeram em outros países.

iG: Você fez o caminho contrário e veio ao Brasil. É um caso raro de asiáticos atuando no futebol daqui. Pelas experiências que você vem passando e pela sua adaptação, você recomendaria que outros fizessem esse caminho?

Para Ma Cheng os brasileiros ajudarão a desenvolver o futebol chinês
Rogério Morotti/Agência Botafogo
Para Ma Cheng os brasileiros ajudarão a desenvolver o futebol chinês

MC: Recomendaria sim. Acredito que evolui bastante em todos estes anos treinando e vivendo no Brasil.

iG: Em 2012, o Corinthians trouxe o Cheng Zi Zhao com a idéia de abrir o mercado chinês para o Corinthians. A chegada do atacante ao Brasil fez com que, não só o Corinthians, mas o Brasil ficasse em evidência na China? Vocês ouviam falar mais do futebol brasileiro?

MC: Em geral, na China eles conhecem a Seleção Brasileira e os jogadores que jogam na Europa. Pouco se conhece dos clubes e dos campeonatos que se jogam aqui. Claro, existem pessoas que gostam muito e sabem, mas a grande parte sabe mesmo da seleção.

iG: O Zi Zhao atuou muito pouco. Existiu uma decepção do povo chinês com isso?

MC: Acredito que não. Ele é conhecido na China, mas não é um jogador de primeiro nível. Existem outros jogadores chineses melhores do que ele.

Ma Cheng acredita que a seleção da China deverá ficar de fora do Mundial 2018, chegando com força ao de 2022
Rogério Morotti/Agência Botafogo
Ma Cheng acredita que a seleção da China deverá ficar de fora do Mundial 2018, chegando com força ao de 2022

iG: Hoje a seleção da China ocupa a terceira posição do Grupo C das eliminatórias. Como está a expectativa do povo com essa seleção? Acreditam em nova classificação para a Copa?

MC: Como disse acima, acredito que a China poderá brigar realmente por uma vaga na Copa de 2022.