Tamanho do texto

“Uma parte dos jogadores estava nas ruas depois do terremoto, mas o amor deles pelo futebol tem mudado isso", disse Rubem Fernandes, fundador da ONG que iniciou o projeto no país

Jogadores do Pérolas Negras se preparam para participar da Copa São Paulo de Futebol Júnior
Reprodução/Facebook
Jogadores do Pérolas Negras se preparam para participar da Copa São Paulo de Futebol Júnior

Quando a tabela da Copa São Paulo de Futebol Júnior foi divulgada pela Federação Paulista de Futebol, no fim de novembro, um time não brasileiro entre os 112 participantes chamou a atenção de todos. Trata-se do Pérolas Negras, formado pela união da ONG Viva Rio e da Federação Haitiana de Futebol.

Será a quarta vez que uma equipe estrangeira participará do torneio, a última delas foi em 2014, com o japonês Kashiwa Reysol. Na ocasião, o time chegou até a segunda fase, quando foi goleado pelo Santos por 4 a 0. A situação das equipes, no entanto, é bem diferente.

Enquanto o Kashiwa Reysol tem 23 anos de história e conta com time profissional, que chegou a disputar o Mundial de Clubes, em 2011, o Pérolas foi fundado após um terremoto devastar o Haiti, em 2010, e deixar milhares de pessoas desabrigadas.

Leia mais:  FPF divulga os 28 grupos e suas sedes da Copa São Paulo de Juniores

"O Viva Rio está no Haiti desde 2004, nos convidaram e topamos aproximar esporte e cidadania. Os haitianos são muito apaixonados por futebol e começamos a trabalhar nessa linha. Em 2009, iniciamos a construção de um centro de formação de alto rendimento, mas em 2010, com o terremoto que devastou o país, as obras pararam por um tempo e foram retomadas no fim de 2010", afirmou Rubem Cesar Fernandes, fundador da ONG, em entrevista ao iG Esporte .

"Em meados de 2011 nós finalizamos o centro, que tem hospedagem para 96 atletas, quatro campos de futebol, sendo dois de grama natural e dois de sintética, acomodações para prática física, piscina, vestiários... Foi aí que iniciamos o trabalho do Pérolas Negras", continuou.

A participação na Copinha, porém, não será a primeira da equipe haitiana em torneios internacionais. Em 2013, com um time sub 16, os garotos do país mais pobre das Américas foram até a Europa e se sagraram vice-campeões mundiais em um torneio de verão, mas o maior mérito, de acordo com o diretor, foi eliminar o América do México nas semifinais. Além disso, eles participaram de outros dois campeonatos amadores no Brasil, um em 2014 e outro este ano.

Pérolas Negras participaram da Copa da Amizade, este ano, no Brasil
Vitor Madeira/Viva Rio
Pérolas Negras participaram da Copa da Amizade, este ano, no Brasil

“Foi um espanto, era a primeira vez que o time saía para jogar internacionalmente nessa faixa de idade”, contou o dirigente. “A gente vem explorando essa participação em eventos internacionais como uma forma de apresentar o trabalho desses garotos para o mundo do futebol em um mercado mais amplo”, acrescentou.

Rubem conta como o futebol tem sido importante para a recuperação dos jovens que sofreram com o abalo sísmico, cinco anos atrás.

“Uma parte dos jogadores estava morando em tenda, nas ruas, depois do terremoto. A situação se radicalizou muito em termos de condição de vida e o amor deles pelo futebol está mudando isso. Lá tem uma coisa com esse esporte muito forte, a gente tem vivido isso intensamente, fazemos outras coisas, mas o projeto de futebol ganhou um valor simbólico, de autoestima, muito especial”, falou Fernandes, que expôs ainda qual a rotina dos atletas.

“Ele estudam, depois descansam, treinam todos os dias... À noite aprendem outras línguas, principalmente o português. É muito trabalho, muita garra, algo muito competitivo, se o cara não rende, não fica. Por tudo isso, virou um centro de referência no país”, contou.

Com uma média de idade de 18 anos, a seleção dos jogadores foi feita de acordo com a técnica e a chance de continuidade, com jogadores de todas as regiões do país.

“Lá nós temos em torno de 90 atletas, todos haitianos, treinando. Desses aí selecionamos 26 na faixa de idade. São os melhores, com mais chances de continuar. Selecionamos pelo crescimento nesses anos que estiveram no CT”, revelou.

Engana-se, entretanto, quem pensa que o Pérolas Negras virá ao Brasil apenas para cumprir tabela. De acordo com Fernandes, esta é a maior chance de o time mostrar que o pequeno país também sabe jogar o esporte mais popular do mundo, além de ser a maior oportunidade do profissionalismo do time e da continuidade de um projeto iniciado com a ajuda de muita gente.

“A Copinha é uma oportunidade incrível para o nosso time retribuir dentro de campo, com demonstração de garra e competência, todos os gestos generosos que nos trouxeram até aqui. Eles mostrarão que o Haiti também tem futebol”, falou.

Treinamento do Pérolas Negras, time sub-20 do Haiti
Reprodução/Facebook
Treinamento do Pérolas Negras, time sub-20 do Haiti

“Esta é a nossa primeira geração sub 20 e para realizar toda a expectativa que foi criada, todo o trabalho feito, eles precisam entrar no mercado, precisam encontrar um caminho de profissionalização, senão se perde. Por isso, resolvemos abrir um centro de formação de base no Brasil, que é o Pérolas Negras do Brasil, é o Haiti aqui. A ideia é que a gente continue formando lá fora garotos do sub 12 ao sub 17 e os melhores a gente traz para continuar no sub 20 aqui”, salientou e disse também onde será esta mastriz em solo brasileiro.

“A sede será em Miguel Pereira, município do Centro-Sul do Rio de Janeiro. A ideia é que assim que terminar a participação na Copinha, eles já vão para esse centro de formação de base. Logo teremos uma mistura de estrangeiros com brasileiros, mas com a marca haitiana", finalizou.

O Pérolas Negras está no Grupo 28 da 47ª edição da Copa São Paulo de Futebol Júnior ao lado de Juventus, América Mineiro e São Caetano. A estreia será contra o tradicional time da Moóca, dia 3 de janeiro, no estádio da Rua Javari, na zona leste.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.