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Rogério Ceni sofreu com as lesões durante todo o ano e não conseguiu se despedir do São Paulo em jogo oficial. Na NBA, Kobe Bryant faz uma turnê de aposentadoria, depois de relutar

Ceni se despede do futebol em grande festa no Morumbi
Marcos Bezerra/Futura Press
Ceni se despede do futebol em grande festa no Morumbi


Uma das frases mais célebres do futebol, mas que pode se estender a outras modalidades, tem autoria brasileira. Foi quando Paulo Roberto Falcão disse que o jogador tinha duas mortes. A primeira, quando pendurava as chuteiras.

Talvez não seja por acaso, então, que, em seu discurso de saudação e despedida à torcida são-paulina, na sexta-feira passada, Rogério Ceni tenha dito, em suas últimas palavras, que gostaria que, quando morresse de fato, suas filhas espalhassem suas cinzas pelo Morumbi.

Foi aplaudido. Houve quem achasse um exagero. Mas a fala emotiva do goleiro dá a medida do quão sofrida pode ser a hora do adeus aos gramados, às quadras, ou qualquer que seja a superfície.

Uma semana antes, Ceni deu entrevista coletiva e abordou com franqueza a dificuldade que passava nos últimos dias, ou meses. Com dores que aprendeu a enfrentar, até jogava. Mas a lesão que sofreu no ligamento tíbio-fibular foi a derradeira e o impossibilitou de se despedir em jogos oficiais ao seu modo. Viajou para Goiânia, mas só como capitão motivador.

"Já chorei bastante, passando esses últimos dias sozinho no CT. Tendo que começar a arrumar as coisas no meu quarto. Moro há 22 anos lá dentro... Moro não, mas concentro há 22 anos no mesmo quarto. É parte da vida. Tudo tem um começo, meio e fim", afirmou. "Como atleta, esse fim chega amanhã, mas tenho, mais do que tudo, agradecer. Não é todo atleta que consegue chegar a quase 43 anos jogando num clube como é o São Paulo. A gente fica triste por parar, mas fica olhando para trás e fica muito feliz pela vida ter me propiciado tudo isso."

Sem saber, não defenderia mais o São Paulo desde a semifinal da Copa do Brasil contra o Santos, uma derrota fora de casa. Em seu último ano, enfrentou uma lesão atrás da outra. "Foi um ano com mais lesões do que o normal, relativamente compreensível pela idade. Sofri muito para estar em campo, como naquele 3 a 0 no Ceará. Tomei as mesmas injeções, todo o tratamento que precisei fazer, dois períodos todos os dias. Entro às 8h30 no CT e saio às 16h30, 17h. Mas fico 30 dias sem treinar, para alguém de 42 anos... O problema é que para o lado direito eu não consigo, não tem a força do tornozelo."

Turnê de despedida

Kobe é aplaudido até em San Antonio, cidade que sofreu muito contra o craque
Getty Images
Kobe é aplaudido até em San Antonio, cidade que sofreu muito contra o craque


Há alguns paralelos que podem ser traçados entre Rogério Ceni e Kobe Bryant, o astro do Los Angeles Lakers. Os dois são peças raras no mundo esportivo de hoje, tendo defendido, por duas décadas, a mesma equipe. Os dois já passaram do auge, mas ainda conseguem ser influentes em 2015. Ah, claro: também usam a mão em suas profissões. 

Ao contrário de Ceni, Bryant não havia planejado parar nesta temporada. Mas viu que seu basquete não voltava. Além disso, já sabia que os Lakers, apenas com um mês de temporada da NBA disputada, não iriam a lugar nenhum.

Então, durante um jogo contra os Blazers, em Portland, no dia 28 de novembro, se aproximou do técnico Byron Scott e soltou a bomba. Para o treinador, no caso. Não foi no aquecimento, não foi por telefone, nem por WhatsApp. "Fiquei chocado.  Até falei para ele: 'O quê? Acho que não te ouvi corretamente'. Nem sabia o que dizer", relembra Scott..

No dia seguinte, um domingo, antes de ir ao Staples Center para enfrentar o Indiana Pacers, o jogador usou o site "Player's Tribune" para divulgar uma carta, em forma de poema, enderçado ao "jogo de basquete" -- mas também toda a comunidade ao seu redor. O mesmo texto foi distribuído no ginásio mais tarde.

Em sua última temporada, o terceiro maior cestinha da liga resolveu abraçar uma solução que antes considerava indigna: fazer dessa última temporada uma grande turnê de despedida. Vem sendo ovacionado por todas as cidades que os Lakers visitam. Mais aplaudido até que os ídolos da casa.

Ao mesmo tempo, aceitou que Scott reduzisse seus minutos e que os jovens da equipe virassem prioridade. Diminuindo sua carga de responsabilidade, fez suas melhores partidas pelo campeonato. No geral, porém, ainda faz a pior temporada de sua carreira, com um dos piores aproveitamentos de arremessos da liga. Tem médias de 16,2 pontos por jogo, 4,2 rebotes e 3,3 assistências. Mas acerta apenas 32,4% de seus arremessos e 23,5% na linha de três.

"Quando fiz minha entrevista com Kobe há algumas semanas, ele disse que ia jogar até que suas rodas caíssem. E elas estão caindo agora", afirmou James Worthy, ex-jogador dos Lakers e comentarista das partidas da equipe. 

Nesse caso, faz sentido também uma frase de Sócrates, o mítico meio-campista do Corinthians e da seleção, de novo falando sobre futebol, mas que vale para o esporte em geral. "Ninguém abandona a carreira de jogador de futebol, é o futebol que abandona o jogador", afirmou. 

Quando?
Não é fácil saber a hora de parar. Tanto Ceni como Bryant prolongaram suas carreiras e sofreram com lesões e queda de rendimento. Ainda eram capazes de fazer grandes partidas ocasionalmente, mas se impunham muito mais pelo currículo construído. Não foram os únicos casos no esporte, certamente. Parar no auge, como Pelé fez, seria a exceção.  

"Amigos, mídia, assédio, exposição... É preciso saber que isso não é para sempre. Para evitar o impacto, ele precisa ter convivência com pessoas de fora desse mundo, se preocupar com a postura longe dos gramados, fazer sempre uma autoanálise", diz Falcão, que hoje está de volta ao futebol como treinador. Justamente a profissão cogitada como o futuro de Rogério Ceni, ao passo, que, na NBA, muitos cogitam Bryant como um futuro dirigente. A vida segue, ligada ou não ao esporte.

Ao comentar a situação vivida por Ceni, relembrando aquela mesma frase clássica do "Rei de Roma", Tostão escreveu em sua coluna de 6 de dezembro: "Falcão disse, tempos atrás disse que o atleta morre duas vezes. Não é sempre assim. Lamentei quando tive de parar de jogar, ainda mais com apenas 26 anos, porém renasci na medicina. Durante a vida, morremos e renascemos várias vezes. Rogério Ceni, outra vida te espera."

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