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Título da Copa do Brasil reaviva discussão sobre decisão da CBF, de 2010, que equiparou os títulos da Taça Brasil e os do Roberto Gomes Pedrosa aos do Campeonato Brasileiro

Em 1960, o Palmeiras fez 8 a 2 no Fortaleza e levou o título da Taça Brasil
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Em 1960, o Palmeiras fez 8 a 2 no Fortaleza e levou o título da Taça Brasil

Com mais uma taça na abarrotada sala de troféus, o Palmeiras faz suas contas e se proclama dono do maior número de títulos nacionais, com 11, isolando-se ainda mais em relação a Santos e Corinthians, que somam nove cada um. O Alviverde contabiliza quatro títulos do Campeonato Brasileiro: 1972, 73, 93, 94; três da Copa do Brasil: 98, 2012 e 2015; dois da Taça Brasil: 60 e 67, e dois do Roberto Gomes Pedrosa: 67 e 69.

O site do Palmeiras faz distinção apenas entre Campeonato Brasileiro, criado em 1971, e Copa do Brasil. Desde dezembro de 2010, a CBF reconhece como campeões brasileiros os clubes que conquistaram a Taça Brasil e o Roberto Gomes Pedrosa.

Com base nessa mesma chancela, o Santos se proclama octocampeão brasileiro, por possuir os títulos da Taça Brasil de 1961 a 65 e do Robertão de 68, além das taças do Campeonato Brasileiro de 2002 e 2004.

Odir Cunha elaborou o dossiê que resultou no reconhecimento da CBF
Blog do Odir
Odir Cunha elaborou o dossiê que resultou no reconhecimento da CBF

A CBF reconheceu os títulos após receber e analisar um documento chamado "Dossiê pela Unificação dos Títulos Brasileiros a Partir de 1959", assinado por José Carlos Peres, fundador da ONG Santos Vivo, e pelo jornalista Odir Cunha.

Para revestir a decisão com um ar de seriedade, Ricardo Teixeira afirmou, na época, que a análise foi referendada por "três departamentos" da CBF: histórico, técnico e jurídico. A canetada da CBF, no entanto, nunca foi reconhecida unanimente por outros jornalistas que bem conhecem a história do futebol brasileiro. "Quando houve a proposta de se acoplar os títulos da Taça Brasil aos do Campeonato Brasileiro, eu me pus contra. Se você for buscar a origem do Brasileiro na linha de sucessão, desde o Rio-São Paulo, você vai encontrar o Robertão, o Nacional e o Brasileiro. Não se coloca a Taça Brasil, que corresponde à Copa do Brasil, reunindo campeões estaduais, em sistema eliminatório (mata-mata). São duas vertentes de disputa. Ao equiparar o título da Taça Brasil ao do Campeonato Brasileiro, a CBF criou essa coisa híbrida, esquisita", disse Alberto Helena Júnior, jornalista com mais de meio século de experiência.

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A Taça Brasil foi criada por João Havelange, então presidente da CBD (Confederação Brasileira de Desportos) com a finalidade de apontar o representante brasileiro para a Copa Libertadores da América. A competição sul-americana de clubes, que veio ao mundo em março de 1959, no 30º Congresso Ordinário da Conmebol, em seu primeiro formato, admitia apenas a participação do campeão de cada país sul-americano.

Alberto Helena Jr.:
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Alberto Helena Jr.: "CBF criou essa coisa híbrida, esquisita"

O Palmeiras foi campeão da Taça Brasil, em 1960, disputando apenas quatro partidas. Da Taça Brasil participavam apenas os campeões estaduais, e o Palmeiras assegurou esse direito ao conquistar o título do Paulista de 1959. O Alviverde entrou na disputa da Taça Brasil a partir das semifinais graças a um critério esdrúxulo. Os representantes dos estados finalistas do Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais de 59, São Paulo e Pernambuco, ganharam esse privilégio. Assim, o Santa Cruz, campeão pernambucano, disputou apenas duas partidas: empatou em Recife com o Fortaleza em por 2 a 2 e foi derrotado na capital cearense por 2 a 1, sendo eliminado.

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Na opinião de Cunha, o número de jogos não deve ser levado em consideração para se reduzir o prestígio de um título. "Por algum tempo, o campeão mundial interclubes era apontado por um único jogo. Deve-se desmerecer esse título por causa disso?".

Mengálvio: sem paciência para o assunto
Samir Carvalho
Mengálvio: sem paciência para o assunto

Numa coluna publicada em março de 2009 no diário Lance!, o jornalista Mauro Betting apresenta argumentos semelhantes aos empregados por Helena. "Taça Brasil (1959-1968) é a mãe da Copa do Brasil – um torneio eliminatório, com representantes de quase todo o país; o Robertão (1967-70) é o pai do Brasileirão – um campeonato de fato, quase sempre com regulamentos discutíveis, clubes igualmente convidados, mas, de um modo geral, com os melhores do país, na época de ouro do futebol brasileiro. Por mim, o campeão do Robertão é tão campeão brasileiro quanto qualquer outro a partir de 1971. O campeão da Taça Brasil é tão campeão como qualquer campeão da Copa do Brasil a partir de 1989. Mas embora entendendo que não houvesse outro torneio de caráter nacional até 1967; embora a Taça Brasil concedesse vaga para a Libertadores (disputada a partir de 1960), ainda não considero Taça Brasil e Robertão o mesmo tipo de torneio. O que não desmerece todos os campeões a partir de 1959. Nem tira o significado histórico e esportivo de cada conquista".

No livro "Dossiê - Unificação dos Títulos Brasileiros a partir de 1959", Cunha defende que essa comparação entre Taça Brasil e Copa do Brasil é que não faz sentido. Um dos motivos é que a Copa do Brasil se tornou claramente um torneio de segunda linha de 2001 a 2012, período em que não era permitida a participação de clubes brasileiros classificados para a Libertadores. Outra razão é que, de 1959 a 1969, nenhum time brasileiro participou da Libertadores sem ter sido campeão ou vice da Taça Brasil. Já a Copa do Brasil hoje é responsável apenas por apontar 20% das cinco vagas brasileiras à maior competição sul-americana interclubes.

"João Havelange criou a competição com aquele formato eliminatório porque não havia estrutura ou verba para se criar um campeonato com turno e returno por pontos corridos. Devemos lembrar, por exemplo, que a ponte aérea foi inaugurada em 59. Como disse o Belluzzo (Luiz Gonzaga Belluzzo, presidente do Palmeiras na época da confeccção do dossiê), não se deve cometer o erro do anacronismo - olhar o passado com os olhos do presente", cita Cunha.

E os campeões, responsáveis pelas velhas taças, hoje exibidas em memoriais ou museus? Qual seria a opinião deles a respeito desse assunto controverso?

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Zito, José Ely de Miranda, capitão santista que levantou as taças de 61, 62, 63 e 64, falecido em junho deste ano, deu uma dimensão do valor que atribuía às conquistas, em entrevista a Cunha, na época da elaboração do dossiê. "Quando nós disputávamos esses títulos, eram títulos brasileiros. E não era nada fácil conquistá-los. Para ganhar, tinha que levar muito a sério a competição".

Ademir da Guia e Dudu recebem homenagem em festa dos 100 anos do Palmeiras,
André Lucas Almeida/Futura Press
Ademir da Guia e Dudu recebem homenagem em festa dos 100 anos do Palmeiras,

Ademir da Guia, imortal camisa 10 da Academia palmeirense, vai na mesma linha. "Nós comemoramos os títulos da Taça Brasil e do Roberto Gomes Pedrosa como verdadeiros títulos nacionais. Eram os campeonatos brasileiros da época. Não tem como dizer que não teve validade".

Ouvido pelo iG , Mengálvio, integrante do chamado "melhor ataque da história", o famoso Dorval-Mengálvio-Coutinho-Pelé e Pepe, não tem muita paciência para essa discussão. "Rapaz, esse tipo de pergunta para mim é tão inútil como aquela outra: quem foi melhor, Pelé ou Maradona? Neymar ou Messi? Sei que nós fomos lá e ganhamos o que tinha para ganhar. Se os outros vão considerar válido ou não, eu não esquento com isso".