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Em entrevista exclusiva, Tite dá de ombros a quem atribui sucesso do Corinthians a erros de árbitros, também fala da relação com o filho e de como a seleção da França o inspirou

Tite comemora a vitória por 6 a 1 sobre o São Paulo. Sua equipe pode bater recordes em 2015
Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians
Tite comemora a vitória por 6 a 1 sobre o São Paulo. Sua equipe pode bater recordes em 2015


Tite tem suas manias e precauções. Uma delas entra em cena sempre que a equipe em que está trabalhando está na reta final de um campeonato importante. Ele pede para que seus assessores de imprensa vetem qualquer pedido de entrevista exclusiva. Argumenta que não quer não tirar o foco do trabalho. E assim, uma semana depois de o Corinthians garantir o título brasileiro, o técnico se preparou para uma maratona de entrevistas com diversos veículos na manhã da quinta-feira no CT do clube no Parque Ecológico. 

O iG esteve por 30 minutos com o técnico duas vezes campeão brasileiro com o Corinthians. Na conversa, o técnico falou de momentos importantes da campanha, dos estudos que o ajudaram a criar novos conceitos de jogo, da influência da seleção da França na formação do "novo Tite" e de como a presença do filho Matheus, de 26 anos, o ajudou na reta final do Brasileiro.

Veja a primeira parte da entrevista

iG: Na virada do primeiro para o segundo turno, quando o Corinthians assumiu a liderança, o tema arbitragem tomou conta. E teve o episódio em que o Levir Culpi disse que o campeonato estava manchado. De que forma você usou isso aqui para motivar mais os jogadores?

Tite: Eu não usei. Está aí o detalhe. Eu não usei. Vou dizer por que. Se a gente começar a procurar motivações para executar alguma coisa em função do que o outro disse, do que o outro pensa, é muito pobre. Nosso grupo ia ser muito pobre se se apegasse a isso. O que ele tem de ser? O nosso mote era retomar o padrão do início da temporada. Trazer qualidade e beleza. Teve etapas nesse ano em que a gente jogava, ganhava e encantava. Vamos buscar isso para a nossa equipe. Não vamos ficar respondendo o que o cara falou, deixou de falar. Esse não é o combustível principal. O combustível principal é como disse o Renato (Augusto) é jogar, vencer e jogar bonito. Isso é que nos traz felicidade. Isso é legal.

Corinthians fez 3 a 0 sobre o Atlético-MG em BH e confirmou que foi o melhor time do Brasileirão
Getty Images
Corinthians fez 3 a 0 sobre o Atlético-MG em BH e confirmou que foi o melhor time do Brasileirão

Mas de alguma forma, como alguém que vive no futebol há anos, ouvir isso não machuca?
Eu até compreendo. Em determinado momento aconteceram erros de arbitragem. Mas não só a favor do Corinthians. O Santos teve um pênalti contra o Internacional em cima do Lucas Lima que não foi nada. Tropeçou. E teve outro contra o Avaí. Aí eu brinco. “Imagina se é conosco um lance desse, o que os caras iriam falar”. Nas últimas 17 rodadas, ficaram tão policiados os árbitros, que não teve mais nenhum erro a favor do Corinthians. Errava contra, mas não a favor. Então a coisa foi se diluindo. Quem fala isso hoje é digno de chacota. Quem fala de arbitragem nesse momento... vão tirar sarro dele.

Você deixou o Corinthians em 2013 depois de um semestre muito ruim. Daí passou um ano viajando, estudando. Quais conceitos você mudou nesse período?
Primeiro tenho de dizer. Se você tem sete semestres numa equipe e pega só um ruim para avaliar não é justo. Se for assim, por uma série de circunstâncias, vou mudar o conceito da minha carreira toda. É injusto pegar 2013 e avaliar só o segundo semestre. A análise tem que ser conjuntural. O Paulinho saiu, o Guerrero fez só 17 jogos do Brasileirão, tive uma série de problemas.

Time da última partida do Brasileirão de 2013, derrota por 1 a 0 para o Náutico. Uma triste despedida para Tite depois de três anos de glórias
Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians
Time da última partida do Brasileirão de 2013, derrota por 1 a 0 para o Náutico. Uma triste despedida para Tite depois de três anos de glórias


Sim, mas falo disso porque talvez se o semestre não tivesse sido tão ruim (a equipe marcou só 27 gols em 38 rodadas do Brasileirão) você teria ficado.
Certo. Entendi. O que houve foi a busca por reciclagem. O Tite não tem nenhuma fórmula mágica. Eu não sou modelo pra nada. Que as pessoas não me peguem como modelo. O modelo é o que cada um acredita. É a capacidade que a gente tem de se reinventar. E a coragem que se tem de saber que somos humanos e que temos imperfeições. Li um livro do Tostão em que ele diz que a perfeição não existe. Não vejo problema nenhum em se reciclar. Eu precisava ficar fora do furacão e ouvir todas avaliações que vocês fazem. Acompanhei uma Copa do Mundo. Falei até disso com o Galvão (Bueno) . Ele me perguntou se eu tinha guardado todos os jogos da Copa de 2014. Não tenho só de 2014. Tenho todos de 2010 e 2006. Análise de todos os jogos. Esquema, estratégia, escalações e comentários. É a busca desse aperfeiçoamento profissional que veio com a reciclagem. Melhorar o aspecto ofensivo e criativo? Também busquei. Fui atrás de uma série de aspectos importantes.

Em 2013, até antes, você adotou o 4-2-3-1. Voltou com o 4-1-4-1. Foi nesse período que você viu isso? Que times te inspiraram a repetir esse esquema? As peças que encontrou aqui te ajudaram?
A França. Eu vi um jogo da repescagem para a Copa do Mundo que ela fez contra a Ucrânia. Ela tinha perdido o jogo de ida por 2 a 0 lá na Ucrânia e eu disse, quero ver agora. Então eu assisti o 3 a 0 que ela fez na França e foi impressionante. Um 4-1-4-1 agressivo, Pogba jogando muito, Matuidi, Cabaye, cara, que coisa... Griezmann de um lado, Valbuena flutuando, Benzema na frente. Cara, que que é isso? Ataca espaço, passa, infiltra do lado, linha de quatro montada, subida do Sagna. E aí fui ver como era a engrenagem. Fiz todo um estudo. Quem me ajudou foi o Maurício (Dulac), analista de desempenho do Internacional que hoje está na seleção brasileira. Estudamos os movimentos e funções de cada atleta além da Alemanha, que também jogou num 4-1-4-1. Nesse esquema o time fica mais comprido. No 4-4-2 fica mais compactado. Com a linha de quatro lá na frente fica difícil de saírem jogando, infiltrar. Então procurei estudar essa forma e adaptar. Quando vim para o Corinthians eu não tinha essa certeza. Achei melhor deixar como vinha atuando. Mas aí vi as características do Renato, do Jadson, do Lodeiro, vi que dava para adaptar. O embrião foi contra o Bayer Leverkusen, na pré-temporada nos Estados Unidos (vitória por 2 a 1). Quem olha aquele jogo reconhece hoje a equipe que bateu campeão.

Seleção francesa que encantou Tite. Ribery, Pogba, Cabaye e Valbuena formavam a linha de quatro atrás de Benzema. Matuidi é o volante. Com Debuchy, Varane, Sakho e Evra na linha de zaga
Harry Engels/Getty Images
Seleção francesa que encantou Tite. Ribery, Pogba, Cabaye e Valbuena formavam a linha de quatro atrás de Benzema. Matuidi é o volante. Com Debuchy, Varane, Sakho e Evra na linha de zaga


Vocês valorizam muito o estudo dos jogos aqui com o Cifut (Centro de Inteligência do Futebol). O Edu Gaspar quer que o clube invista mais nele. Você também faz coro para melhorar esse departamento do clube?
Essa busca de evolução o Corinthians tem dentro da sua rede de profissionais. E isso é salutar. Essa reinvenção. Ninguém faz mágica, mas é importante crescer. Ele (Edu) esteve no Arsenal, eu também fui lá no departamento de informática deles e vi como é importante ter cada vez mais informações para dar um up na nossa equipe. Mas, mais importante do que ter o aparato tecnológico, é ter o material humano. E isso nós temos. Se não tivesse essas pessoas, todo investimento em tecnologia não valeria de nada. Muitas vezes peguei o que eles separam nos vídeos para mostrar na palestra aos atletas. Mostrar que um posicionamento errado compromete toda a engrenagem. A filmagem dos treinamentos nos proporciona isso. O Marciel, um dia, não suportou a dor num treinamento depois de uma pancada. Falei "para com esse negócio de dodói". Ele estava num treinamento, tomou uma pancada, eu disse “levanta”, mas ele ficou. O treino continuou e no que ele levantou, e não recompôs o lado, o outro time infiltrou no local que ele não estava. Eu peguei aquele vídeo e mostrei. Se não suportar dor, o adversário vai criar a chance dele ali. Sustenta a dor, Marciel. Está vendo como acontece? Toda essa estrutura te dá condições de mostrar qual é o padrão de comportamento que deve ser seguido.

E seleção brasileira? Esse é um tema que você já comentou, já disse que é hora de dar sossego para o Dunga, mas o Andrés Sanchez, depois do título contra o Vasco, disse em entrevista à ESPN Brasil que você teria dito a ele que, com a CBF como está, não tem nenhuma motivação para assumir a seleção agora. É verdade?
Estou muito feliz no Corinthians. Estou num momento extraordinário da minha carreira e estou torcedor da seleção brasileira. Só.

Nada mais?
Qualquer comentário que eu fizer não será benéfico. Pode soar oportunista, dar margem de interpretação. O que era pra eu falar, já falei. É um momento profissional extraordinário, volto a dizer. Vou pegar o que disse o Fábio Mahseredjian (preparador físico do Corinthians e da seleção brasileira) no momento da oração no último jogo. Registra e tira uma foto com os olhos de vocês desse momento. Esse grupo é muito bonito e é isso que deve ser valorizado.

O Fábio está na seleção, o Bruno Mazziotti (também fisioterapeuta e especialista em biomecânica) também está na CBF com a seleção olímpica e sub-20, o Fernando Lázaro, analista de desempenho também está lá.
Tem tempo para que as coisas aconteçam. Tem tempo para todo mundo.

Mas o que falta na sua carreira?
(Três segundos de silêncio) Não falta nada. Não falta nenhum título. Mas eu continuo com o combustível da inquietude, do saber, do evoluir. Eu tenho a satisfação de ver dois garotos titulares na reta final, o Arana e o Malcom, que já vinha do ano passado, se afirmarem com 18 anos. Ver um jogador já rodado como o Jadson sendo valorizado, o Renato que estava com problema de sequência por causa de lesão também. Felipe e Gil se afirmando, Cássio retomando. Edilson, que há um atrás saiu do Botafogo e quando fomos campeões com ele jogando ele me disse ”hoje é o dia mais feliz da minha vida”. Essa gratidão é valiosa.

Você já disse que trabalhar em um clube do Rio era um objetivo seu. Em 2014, quando estava sem clube, você teve essa oportunidade e deixou passar?
Tive essa oportunidade. Mas eu precisava estudar, reciclar, dar esse tempo pra mim e buscar crescimento, estar com a família, fortalecer espiritualmente para que pudesse voltar bem. Mas continua sendo um objetivo meu trabalhar no Rio de Janeiro.

Que clube te procurou?
Não vou dizer (risos) (O Flamengo procurou seu agente, Gilmar Veloz, em 2014).

Tite e o filho em treino do Corinthians. Matheus trabalha no clube desde setembro
Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians
Tite e o filho em treino do Corinthians. Matheus trabalha no clube desde setembro


Você sempre falou da importância da sua família para seu trabalho. Como foi ter seu filho aqui nesses últimos meses? Qual a importância dele no seu trabalho?
Mais do que importância no trabalho, é a realização pessoal que é muito grande. Agora posso falar.  Quando acertamos o retorno para o Corinthians, o Matheus já estava inserido na comissão técnica. Ele já estava formado, viajou comigo no ano passado, esteve no Arsenal comigo, assistiu jogos do Bayern comigo e porque eu sempre disse “te prepara até o momento que eu sentir que você está preparado para seguir, teu pai não vai te dar nada”. Então ele se formou em Ciências do Exercício após quatro anos nos Estados Unidos, teve experiências como atleta, em nível baixo, mas teve. Sentiu o cheiro do vestiário, as adversidades, jogou na segunda divisão do Rio Grande do Sul, onde por vezes o salário não te permitia nem uma alimentação com melhor qualidade.

Onde ele jogou?
Jogou (como zagueiro) em Três Passos e no Cruzeirinho de Porto Alegre. Depois jogou na Universidade (de Cumberland, em Williamsburg, no Kentucky) com bolsa e que pagava a faculdade nos Estados Unidos. Foi à luta de buscar essas experiências e ele poderia vir para cá. Porém surgiu algumas oportunidades antes. Primeiro de ir com o Sylvinho para a Inter de Milão fazer um estágio. Depois com o Ricardo Rosa e o pai do Neymar, que ajudou a interceder, para acompanhar o Barcelona. Depois com o (Mircea) Lucescu, através do Gilmar Veloz e do Antônio Carlos (Zago) no Shakhtar. Também teve com o Caxias, onde fez estágio sem ser remunerado, onde esteve com o Washington e o Paulo Turra como auxiliar técnico. Teve também com o Vanderlei Luxemburgo no Flamengo onde ficou 10 dias. Então disse a ele que todas essas situações são oportunidades que não poderia deixar passar. Disse “vai, e quando terminar tudo, vem pra cá”. Te confesso. Quando ele chegou nós estávamos voando. Só faltava ele chegar e a gente não ganhar. A gente ia estar ferrado. Quis a vida que na primeira oportunidade de trabalhar junto, a gente conquistasse esse título.

Você sempre disse em respeitar a competição, mesmo já não tendo o título garantido. O Corinthians enfrenta Sport e Avaí, clubes que têm suas metas ainda. Esse foi um dos motivos para não antecipar as férias dos jogadores?
Conversamos com a direção e nenhum atleta quer férias. Poderia aventar essa possibilidade, mas ninguém quer. Vamos juntos até o final. É próprio dessa relação de grupo, do comprometimento que temos entre nós todos. Jogar ou não jogar depende dos eventuais desgastes físicos, o que é normal. Já coloquei atletas que estavam com dor, mas que eram importantes e precisavam tomar remédio para entrar. Podemos preservar, mas ninguém vai sair de férias. Estamos mobilizados para os dois jogos importantes porque há a possibilidade de conquistarmos desafios que a gente se coloca.

Os recordes dos pontos corridos...
Exato. Mas antes disso está a nossa dignidade como equipe e como grupo e o respeito aos outros profissionais e às outras equipes. Eles precisam de resultados paralelos, então vamos fazer agora o que nós gostaríamos que fizessem com a gente. É isso que vamos fazer.

Tite é alçado pelos jogadores do Corinthians depois do título conquistado
EFE/Antonio Lacerda
Tite é alçado pelos jogadores do Corinthians depois do título conquistado

A Copa do Brasil está aí na final e o Corinthians caiu cedo para o Santos. Desde 2003 com o Cruzeiro, quando a Copa do Brasil ainda terminava no meio do ano, nenhum time conseguiu ser campeão tanto do Brasileirão como da Copa do Brasil. Por que é tão difícil conciliar as duas competições ainda que se tenha elenco para os dois?
Você deu a resposta na pergunta. A Copa do Brasil se funde com momentos importantes e decisivos do Brasileirão. Num campeonato tão equilibrado como o Brasileiro, como a Copa do Brasil, com 10, 12 equipes niveladas, pequenas diferenças fazem a diferença. Não consegue se envolver, técnica, física e emocionalmente nas duas. Não dá.

E nos campeonatos mata-mata que foram problema neste ano? Como o Corinthians pode ser diferente em 2016?
Existe o processo natural de crescimento e maturidade de uma equipe. Ela teve em pontos corridos, mas também em jogos decisivos. O jogo com o Atlético Mineiro foi decisivo. Foi emblemático. Se perdêssemos lá ficaríamos com cinco pontos de diferença e a pressão para o nosso lado. O jogo em casa contra o Atlético Mineiro (na 14ª rodada, quando o Corinthians estava três pontos atrás) também foi emblemático. Se não vencêssemos, não nos aproximávamos. Não era mata-mata, mas se você perde, você morre. É uma maturidade que a equipe vai adquirindo.

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