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Al Bangura hoje trabalha com ONGs para combater tráfico de meninos da África para a Europa; sonhando com carreira no esporte, milhares são iludidos e forçados a se prostituir

Al Bangura em jogo do Watford contra o Sheffield United em 2006
Mark Thompson/Getty Images
Al Bangura em jogo do Watford contra o Sheffield United em 2006

Um ex-jogador de futebol que foi levado para o Reino Unido quando criança e forçado a se prostituir agora está trabalhando em conjunto com os organizadores do campeonato inglês para conscientizar as pessoas sobre o crescente número de atletas adolescentes que, ao tentar trocar a África pela Europa, acabam vítimas do tráfico de pessoas.

Al Bangura, de 27 anos, que jogou pelo Watford de 2005 a 2009, tinha apenas 14 anos quando soube que deveria se tornar o líder de uma sociedade secreta antes comandada por seu pai em Serra Leoa. Ele se recusou. "Disse que isso não era algo com que queria me envolver. Queria jogar futebol, e disse que tinha que ir à escola", conta.

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O garoto viajou, então, para o país vizinho, Guiné, onde conheceu um francês que fingiu ser seu amigo e prometeu ajudá-lo a atingir seu objetivo. "Não sabia que ele tinha outras intenções – me fazer entrar no mercado do sexo."

Os dois foram primeiro para a França e, depois, para o Reino Unido. Uma vez lá, o homem o deixou sozinho em um edifício.

"De repente, dois ou três homens me cercaram, tentaram me estuprar e me forçar a fazer coisas", diz.

"Era muito jovem e pequeno, e simplesmente comecei a chorar e gritar. Eles provavelmente pensavam que eu sabia por que estava ali – e eu pensava que era para jogar futebol."

'Pensei que ia morrer'
"Tentei fugir – estava com frio, tremendo e muito confuso. Consegui ir para a rua, mas não sabia o que fazer. Pensei que ia morrer."

Bangura pediu ajuda a um nigeriano, que disse a ele que fosse ao Home Office (ministério responsável pela imigração) para pedir asilo. Como tinha 16 anos a essa altura, recebeu permissão para ficar no Reino Unido por dois anos.

"Depois de alguns meses, eu já tinha esquecido o que tinha passado. Foi triste, mas acabou levando a uma coisa boa", relembra ele.

"Comecei a conhecer pessoas, a jogar futebol e consegui uma oportunidade de entrar para o time de Watford. As coisas começaram a melhorar para mim."

Estima-se que cerca de 15 mil jogadores adolescentes são enganados por agentes inescrupulosos e levados de dez países do oeste da África todos os anos – muitos são menores de idade.

Os dados são da organização não governamental Foot Solidair, que ajuda a mandar estes meninos de volta para casa.

A Agência Nacional de Crime diz que os números mais recentes, de 2014, mostram que um total de 2.340 vítimas em potencial de tráfico chegaram de 96 países – 29% eram menores.

No entanto, Kevin Hylan, comissário de antiescravidão do governo, acredita que mais crianças foram traficadas para o Reino Unido do que apontam as informações oficiais.

O jornalista Ed Hawkins, especializado em esporte, passou dois anos investigando o mercado de futebol para o livro Lost Boys ("Meninos Perdidos", em inglês), diz que é difícil precisar o número de vítimas.

"Mas provavelmente são milhares por ano. As pessoas não estão cientes dos golpes, de como a cultura da ganância permeia o futebol e incentiva um comércio de escravos", diz.

'Para inglês ver'
O artigo 19 do regulamento da Fifa para transferência de jogadores diz que clubes não podem contratar menores de 18 anos, mas a regra tem lacunas.

"Não vale nada na prática. É só para inglês ver. Há cláusulas que deixam os clubes fazerem o que quiserem", afirma Hawkins.

"Contratar menores deveria ser banido. A Uefa defende que isso deve ser cumprido à risca, sem direito a lacunas na regra. Isso ajudaria a reduzir estes números."

Bangura, que também atua junto a organizações de caridade para conscientizar sobre o assunto, alerta: "Há um monte de crianças vulneráveis na África que querem o mesmo que consegui em minha vida".

"É importante falar, já que passei por isso e sobrevivi. Mas e estas crianças que estão sendo trazidas? Elas sobreviverão? Conseguirão lidar com esta situação? Por isso, precisamos encontrar uma forma de acabar com isso."

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