Tamanho do texto

Casos de racismo em estádios das principais divisões caem em 2015, mas o preconceito vive em jogos longe dos holofotes

Aranha foi vítima de racismo na Arena do Grêmio e o clube foi punido com a perda de pontos
Edu Andrade/Fatopress
Aranha foi vítima de racismo na Arena do Grêmio e o clube foi punido com a perda de pontos

No Dia da Consciência Negra, o fã de futebol pode se perguntar: como estão os casos de racismo em jogos de futebol no Brasil? Em 2014, uma sequência de casos chamou a atenção para o crescimento do sentimento racista entre torcedores. Arouca , Márcio Chagas , Tinga  e Aranha , foram vítimas do preconceito. O último, o caso mais emblemático, resultou na inédita perda de pontos para o Grêmio, para quem torcia os racistas que ofenderam o então goleiro do Santos. Era agosto do ano passado.

Pouco mais de um ano depois, o racismo é uma triste realidade na nossa sociedade como era antes do caso Aranha, mas, no futebol da Série A do Brasileiro, os relatos de atos racistas nos estádios diminuíram consideravelmente. O Observatário da Discriminação Racial no Futebol, site que reúne todos os casos de racismo praticados em praças esportivas no Brasil, notou uma queda nos casos em grandes jogos desde então. 

Marcelo Carvalho, administrador de empresas de 42 anos e responsável pelo site, reluta em dizer que a punição ao Grêmio diminuiu os casos de racismo. Ele reúne alguns em 2015 em todo o Brasil e prepara um relatório completo para março do ano que vem. Segundo ele, não é que há menos casos de racismo desde o caso de Aranha. A diferença é a cobertura midiática, bem menor por se tratar de casos em jogos menores. 

"Eu não diria que há menos casos por causa do caso do Aranha. Sim, há menos registros em 2015, especialmente nas grandes partidas, mas o racismo vive em vários jogos menores e aumentou muito na internet". Até novembro, ele reuniu 41 casos de preconceito racial sofridos por atletas brasileiros em 2015. Em 2014 foram 20 . A diferença neste ano é para o aumento dos casos em que as redes sociais foram utilizadas para destilar preconceito. 

Michel Bastos, Gil, Vitinho, Jemerson, Arouca e Aranha, todos de times da Série A, sofreram com o preconceito em mensagens preconceituosas nas redes sociais. Cada jogador tem um tipo de reação, mas punição ao racismo praticado virtualmente ainda é tabu no Brasil. 

Michel Bastos foi vítima de racismo em sua página no Instagram em outubro
Instagram/Reprodução
Michel Bastos foi vítima de racismo em sua página no Instagram em outubro

Para o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), a punição ao Grêmio tem relação direta com a diminuição de incidentes racistas nos estádios.

"Teve até um caso de racismo dentro de campo (Antônio Carlos, do Avaí, chamou Francis, do Boa, de macaco na Série B de 2014), mas aí o punido foi o jogador. No caso do Grêmio, o clube foi responsabilizado pelo comportamento da torcida e a própria diminuição dos casos de racismo já prova que a decisão foi acertada", disse Ronaldo Piacenti, vice-presidente do tribunal. O Grêmio perdeu três pontos pela partida contra o Santos e acabou eliminado da Copa do Brasil.

O STJD, porém, ainda não deu nenhuma punição por um caso na Série B em 2015.

Em setembro, o zagueiro Brinner, do Macaé, acusou torcedores do Bragantino durante visita ao estádio Nabi Abi Chedid, em Bragança Paulista . Segundo o jogador, ele foi ofendido com palavras racistas. Houve registro em súmula, o jogador fez BO, os dois torcedores foram identificados por fotógrafos, mas nenhuma punição foi dada ao clube paulista. 

Para o sociólogo Edilson Nabarro, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e que se dedica ao estudo do racismo, as punições aos clubes contribuem para que haja menos registros de casos de preconceito racial. "Muitas vezes há uma cumplicidade das direções dos clubes com grupos de torcedores que manifestam seu racismo nas praças esportivas. E essas punições servem para que os clubes tentem cada vez mais inibir que essas pessoas estejam nos estádios", comentou. 

Dilma recebeu o árbitro Marcio Chagas e o meia Tinga, vítimas de racismo em 2014
Site oficial da Presidência da República
Dilma recebeu o árbitro Marcio Chagas e o meia Tinga, vítimas de racismo em 2014

Ele cita o caso do Esportivo de Bento Gonçalves, punido com o rebaixamento pelo TJD-RS depois que o árbitro Márcio Chagas encontrou uma banana em seu carro após uma partida do Campeonato Gaúcho. "Essa punição serviu para que dirigentes modificassem sua indiferença para casos que sempre foram comuns no interior gaúcho, especialmente na região de Bento Gonçalves".

Para o professor, o futebol é um dos raros ambientes profissionais em que o negro tem condições de trabalhar e se desenvolver tanto quanto colegas brancos. O talento fala mais alto e todos os grandes clubes têm jogadores negros de destaque nos seus elencos. "O problema é fora do campo. O futebol está inserido numa sociedade racista e por isso há casos como os do Márcio Chagas, do Aranha", completou. 

O episódio em Bento Gonçalves acabou antecipando a decisão de Chagas de se aposentar da arbitragem profissional. Ele já havia sido vítima em Caxias do Sul, em 2005, e em Porto Alegre, no estádio do Cruzeiro. Aos 39 anos ele ainda poderia estar atuando em jogos de elite, mas hoje trabalha como comentarista de arbitragem na RBS, afiliada da Rede Globo em Porto Alegre.

"Eu não recuei das acusações ao Esportivo e isso acabou criando represálias na Federação Gaúcha. Eu senti que passaria a ser colocado de lado, me fariam apitar jogos menores, ir para a geladeira, então preferi antecipar isso", disse.

Para ele, a punição ao Grêmio foi importante e ajudou a diminuir os casos de racismo nos estádios. "Nos jogos profissionais foi possível notar essa diminuição, sim. O sujeito racista não vai deixar de ser racista, mas pelo menos pensa duas vezes antes de xingar alguém no estádio", disse, mas sem se iludir de que o racismo no dia a dia será afetado por punições a clubes de futebol. "Ser negro no Brasil é difícil, ser negro no Rio Grande do Sul é ainda mais", disse Chagas.

Depois dos casos de racismo de 2014, cantos racistas que a torcida do Grêmio usava para provocar os rivais do Internacional foram proibidos de serem cantados pelo Ministério Público gaúcho. O Inter aposentou um de seus mascotes, o "Escurinho", um macaco. "Tudo isso é um avanço, mas há muito a se fazer ainda", diz Carvalho, do Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.

    Notícias Recomendadas