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Operário de uma fábrica de tecidos, Francisco Carregal foi um dos primeiros afrodescendentes a entrar em campo no Brasil, em jogo contra o Fluminense

Data que relembra a morte de Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência à escravidão, o Dia Nacional da Consciência Negra  é sempre comemorado no dia 20 de novembro. Mas com tantos craques de todas as raças e credos revelados, fica a pergunta: quais são as origens do negro no futebol brasileiro? Iremos relembrar abaixo como o Bangu foi pioneiro lá em 1905.

A história conta que o futebol, esporte mais popular do mundo, foi trazido para o Brasil em 1895 por Charles Miller, após uma viagem de estudos à Inglaterra. No mesmo ano, houve o que é considerado o primeiro jogo no país, entre funcionários da São Paulo Gás Company e da estrada de ferro São Paulo Railway, que venceu o amistoso por 4 a 2. Dez anos depois, com o Bangu , a história seria feita.

Francisco Carregal, com a bola, ao centro, foi o primeiro jogador negro do Brasil
Reprodução
Francisco Carregal, com a bola, ao centro, foi o primeiro jogador negro do Brasil

Ainda em 1895, os clubes começaram a ser fundados, mas a pratica era restrita às pessoas da etnia branca, com descendência europeia, apesar de o país ser predominantemente mulato. Os mais pobres e negros eram impedidos de praticar e podiam apenas assistir às partidas, se estivessem em lugares separados dos brancos. Em 1905, no entanto, no Rio de Janeiro, apareceu estreou pelo Bangu Athletic Club (posteriormente se chamaria Bangu Atlético Clube), um jogador negro: o operário Francisco Carregal .

Em partida contra o Fluminense, time influenciador da cultura aristocrata da época, a equipe alvirrubra escalou o tecelão da fábrica, que não sabia, mas entrava para a história naquele momento. Ao lado de estrangeiros brancos, Carregal utilizava um uniforme impecável para diminuir o preconceito por ser negro em um esporte da elite branca. 

Várias fontes de referência sobre o assunto apontam Carregal como o primeiro jogador negro do futebol brasileiro, mas a Ponte Preta também reivindica este posto, alegando que cinco anos antes, em 1900, escalou Miguel do Carmo. De qualquer forma, ambos são pioneiros em colocar os afrodescendentes em destaque. 

Em 1907, entretanto, a Liga Metropolitana de Football - o equivalente à FERJ - publicou uma nota proibindo “pessoas de cor” de participarem dos campeonatos de futebol, o que fez o time do subúrbio do Rio abandonar a Liga e não disputar o Campeonato Carioca daquele ano.

Francisco foi o primeiro de muitos atletas negros no Bangu. Meses depois o time já contava com operários e afrodescendentes juntamente com os ingleses. Manuel Maia, goleiro, era um deles. Foi desta forma que o time foi campeão carioca da segunda divisão em 1911 com quatro negros e seis operários no elenco.

Outra conquista do time da Zona Oeste da capital do Rio de Janeiro foi a quebra do preconceito entre os torcedores, já que na maioria dos campos os pobres assistiam às partidas em locais separados, o que ficaria conhecido como geral, e não nas arquibancadas. O Bangu, por sua vez, permitiu que todos acompanhassem juntos uma partida, sem distinção de classe ou cor de pele.

Os grandes

Enquanto Botafogo, Fluminense e Flamengo não abriram suas portas para jogadores negros tão cedo, o Vasco  foi o primeiro dos quatro grandes do Rio de Janeiro a aceitá-los, por isso é considerado um dos clubes que contribuiu decisivamente para tornar o futebol um esporte realmente de todos os brasileiros.

O cruzmaltino foi o primeiro a conquistar um título com um elenco em sua maioria formado por negros, grande parte deles que vieram justamente do Bangu. O título foi o do Campeonato Carioca de 1923, seu ano de estreia na Primeira Divisão. Com o acontecimento, no ano seguinte, os três rivais e outros times abandonaram a Liga e fundaram a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), sem o Vasco. Para o time da Colina se filiar deveria dispensar seus 12 atletas negros, o que não fez.

O time do Vasco da Gama em 1923, campeão carioca e formado por alguns jogadores negros
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O time do Vasco da Gama em 1923, campeão carioca e formado por alguns jogadores negros

Mais tarde, no Fluminense, a história foi diferente. Antes de ser aceito oficialmente, Carlos Alberto, mulato, jogava com maquiagem de pó-de-arroz no rosto para disfarçar sua cor. Porém, com o suor, o pó ia escorrendo. Daí então surgiu o apelido da torcida do Tricolor das Laranjeiras.

Outra história conhecida é a de Friendenreich, considerado o maior jogador da história do futebol amador e autor do gol do primeiro título do Brasil no Sul-Americano, em 1919, filho de pai alemão e mãe brasileira negra, era mulato e tinha os olhos verdes, porém alisava seus cabelos crespos para ir ao campo.

Por conta do aumento de negros no elenco, o Fluminense começou a receber críticas dos sócios. E isso fez com que o clube brigasse pela profissionalização do futebol no início da década de 1930. Assim, os jogadores, oficialmente empregados, entravam nas Laranjeiras pela porta de funcionários e não mantinham contato com os sócios predominantemente brancos. O profissionalismo fez com que a questão da pele ficasse em segundo plano na hora de contratar jogadores.

São Paulo

Já em São Paulo, foi o Corinthians, fundado em 1910 por trabalhadores do Bom Retiro de diferentes profissões, como pintores e cocheiros, que deu espaço para negros e brancos em campo. A partir daí, então, ficou conhecido como o “time do povo”. O Santos, outro alvinegro do estado, em 1913, um ano após a fundação, já mostrava ser um clube democrático e contava com Esmeraldo e Milton, dois atletas negros, em seu elenco. Além disso, foi da Vila Belmiro que saiu o maior de todos os tempos, Pelé.

O Juventus da Mooca, fundado por trabalhadores da fábrica de tecidos da família Crespi em 1924, também foi um influenciador na inserção de negros dentro dos campos de futebol no estado mais populoso do Brasil.

Rio Grande do Sul

A história conta que os negros não eram segregados apenas no estado fluminense. No Rio Grande do Sul acontecia o mesmo. Por esse motivo, foi criada, no fim dos anos de 1910, a Liga Nacional de Football Porto Alegrense ou Liga da Canela Preta, formada por jogadores afrodescendentes, que queriam jogar futebol profissionalmente, mas não eram aceitos pela elite econômica do estado.

Foi o Internacional, com um time misto, o primeiro a dar chance aos negros. No rival Grêmio, o preconceito racial só terminou em março de 1952, com a contratação de Osmar Fortes, o Tesourinha. Ele já havia passado pelo rival colorado e pelo Vasco e era considerado um dos melhores jogadores do futebol brasileiro à época.

Leônidas e outros jogadores negros que integravam a seleção brasileira
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Leônidas e outros jogadores negros que integravam a seleção brasileira

Ao longo do século, negros foram marcantes e importantes para as conquistas do futebol nacional: Leônidas da Silva, o Diamante Negro, Domingos da Guia, Barbosa, Nilton Santos, Garrincha, Didi, Zizinho, Jairzinho, Carlos Alberto Torres, Romário, Coutinho e Pelé, o maior de todos os tempos e o atleta do século 20. Todos eles, com certeza, ajudaram no reconhecimento brasileiro no futebol mundial.

Ainda em atividade, podemos listar outros jogadores como Douglas Costa, Marcelo, Willian, Gabriel Jesus e o mais importante da atualidade, camisa 10 da seleção brasileira, Neymar. Esses ainda escrevem seus nomes e mostram que a cor da pele não é nada mais do que simplesmente a cor da pele.

Relembre personagens negros do esporte mudial:


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