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Dario Leopardo, ídolo de Joaquim Barbosa, fazia parte de um ataque cheio de feras do Palmeiras, que tinha também Ademar Pantera. Hoje, luta em ONG na defesa dos direitos dos negros

Palmeiras em 65; Em pé: Djalma Santos, Donah, Carabina, Djalma Dias, Zequinha e Ferrari. Agachados: Dario Leopardo, Ademar Pantera, Servílio, Dudu e Rinaldo
Revista do Futebol
Palmeiras em 65; Em pé: Djalma Santos, Donah, Carabina, Djalma Dias, Zequinha e Ferrari. Agachados: Dario Leopardo, Ademar Pantera, Servílio, Dudu e Rinaldo

"Até mesmo o negro, quando sobe de posição, esquece a origem, esquece que é negro", diz o ex-atacante Dario, conhecido em São Paulo como Dario Leopardo e em Minas Gerais como Dario Alegria. Ele fez parte de um dos maiores esquadrões já montados no país, a primeira versão da Academia, jogou pelo  Palmeiras  ao lado de craques como Djalma Dias, Djalma Santos, Ademir da Guia, Dudu e Ademar Pantera.

Dario, que nunca esqueceu sua origem, hoje dedica grande parte de seu tempo ao Instituto de Defesa da Cultura Negra Afrodescendente Fala Negra, na cidade mineira de Paracatu, onde nasceu. O ex-jogador nasceu numa área de quilombo, o Buriti do Costa, uma dos seis que existem apenas em Paracatu.

O ex-atacante recorda que episódios de racismo em campo sempre existiram. Ele até hoje se incomoda com injúrias raciais que recebeu de um importante árbitro por ter se posicionado no grande círculo para permitir que seus colegas do Palmeiras voltassem a tempo após marcarem um gol no Internacional, no Estádio dos Eucaliptos, em Porto Alegre, atrasando o reinício da partida. Magoado, esperou até a meia-noite, no saguão do hotel onde estava hospedado o juiz, para tirar satisfações com ele. No dia seguinte, conseguiu arrancar ao menos um pedido de desculpas.

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"Acho que quem teve a melhor atitude em episódios desse tipo foi Daniel Alves", recorda Dario, referindo-se ao jogo em que o lateral do Barcelona apanhou uma banana do chão, atirada por torcedores do Villarreal que o ofendiam, e a comeu.

Dario é presidente da ONG Fala Preta
Palmares.gov.br
Dario é presidente da ONG Fala Preta

A ONG comandada por Dario se dedica a oferecer oficinas, como a de confecção de bonecas negras, para que as crianças se reconheçam nos brinquedos, fortalecendo a autoestima. A Fala Negra, entre outras atividades, também capacita alunos a tocar sanfona, uma velha especialidade da família de Dario. Ele é filho de Luiz Gouveia Damasceno, o Luiz Dario, que tocou com Luiz Gongaza, o Rei do Baião.

Foi justamente após a morte do pai que a carreira futebolística de Dario teve seu pontapé inicial. Ele jogava pelo pequeno Santana Esporte Clube, de Paracatu, e teve de procurar um emprego que lhe permitisse ajudar a mãe a criar os oito irmãos. Recrutado para trabalhar como servente de pedreiro na construção de Brasília, jogava no time de futebol de sua construtora, que foi vice-campeão do Troféu Israel Pinheiro, disputado por times de empreiteiras.

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O bom desempenho o alçou à seleção do Distrito Federal, que enfrentou, no primeiro aniversário de Brasília, nada menos do que o Santos de Pelé, no dia 21 de abril de 1961. Nesse jogo, seu futebol chamou a atenção de Augusto da Costa, zagueiro do Brasil na Copa de 1950. Membro da Polícia do Exército, foi designado comandante da Guarda Especial de Brasília. Graças a uma indicação, Dario se apresentou para testes no Vasco, clube pelo qual Augusto foi campeão carioca por cinco vezes.

"Eu disse que precisava ajudar minha família, e não poderia deixar o emprego de pedreiro em Brasília. Ele então se comprometeu a ajudar minha família por três meses. Se não desse certo no Vasco, voltaria para trabalhar. Ele só precisou ajudar minha mãe por um mês. Fui aprovado e entrei para o juvenil do Vasco. Então enviei para ele uma carta, para lhe agradecer e dizer que não precisava mais nos ajudar", recorda Dario.

Com 16 anos, Dario se profissionalizou pelo América-MG, pelo qual jogou ao lado de Tostão. Seu ímpeto ofensivo chamou a atenção do Palmeiras. Na Academia, nunca foi titular absoluto e era confundido com Ademar Pantera, devido à semelhança física. "Os speakers (locutores) pediam para eu colocar um esparadrapo no pulso para poderem nos diferenciar". O inspirado narrador de rádio Fiori Gigliotti também enxergou habilidades felinas no atacante mineiro, e lhe pespegou o apelido de Dario Leopardo, que pegou, assim como Leopardo das Alterosas.

O grande título de Dario pelo Palmeiras foi o do Rio-São Paulo de 1965. Naquele ano, a Academia vestiu o uniforme da seleção brasileira e ganhou o direito de representá-la na inauguração do Mineirão, em amistoso contra o Uruguai. Reserva naquele jogo, Dario substituiu Rinaldo. Foi sua única atuação com a camisa nacional. Naquele ano, outro grande momento de glória foi uma espécie de tira-teima de fim de temporada com o Santos, campeão paulista. No Parque Antártica, o Palmeiras mostrou grande superioridade sobre o time de Pelé, goleado por 5 a 1, com três gols de Dario.

Com a camisa verde, Dario foi também campeão paulista em 1966 e do Troféu Roberto Gomes Pedrosa de 1967 - posteriormente, essa conquista recebeu, da CBF, status de título de Campeonato Brasileiro. Depois de uma passagem de dois anos pelo Monterrey, do México, Dario rodou bastante, tendo sido campeão carioca pelo Fluminense, em 1969, e mineiro pelo América, em 1971. Em Minas, recebeu do radialista Osvaldo Faria, pai de Bob Faria, comentarista do SporTV, um outro famoso apelido: Dario Alegria. "É por causa da minha alegria mesmo, porque toco sanfona, bato pandeiro."

Primo distante de Joaquim Barbosa, o ex-jogador é ídolo de infância do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal. Joaquim fez questão de convidar Dario para sua posse no STF. "Ele gosta mesmo muito de mim. Além de ser um parente, é referência para mim. Fui à posse dele, fui ao aniversário da mãe dele. Sinto-me honrado por isso."

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