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A história começa há quase 30 anos, com a conquista da Copa de 1986, mas vai muito mais longe e leva ao isolamento em sua própria pátria. Com mais um clássico em disputa, como fazer?

Maradona levanta a taça da Copa do Mundo de 1986
AP
Maradona levanta a taça da Copa do Mundo de 1986


O que deve vir à cabeça de alguém em plena consciência, quando se tem de imaginar uma pessoa nascida no Brasil, absolutamente apaixonada pelo país vizinho – por acaso a Argentina, seu maior rival no futebol. Pior que isso, essa pessoa torce, sem ter a mínima dúvida, para esse inimigo. Quase uma obra de ficção, quase um personagem inventado por escritores notabilizados pelas histórias fantásticas como Júlio Cortázar. Mas, não. Estamos dentro de um conto, e o que se tem aqui é pura realidade.

É uma história que começa há quase 30 anos, na Copa de 1986, no México, e se estende por todo esse tempo. Aquele gol mágico de Diego Maradona, contra a Inglaterra, iria transformar minha vida para o restante das Copas. Não importa se a Argentina não ganhou mais nenhuma desde então. A maneira de jogar e o jeito de lutar dentro do campo já haviam me conquistado. Foi algo que simplesmente me conquistou. Em todo este tempo, a Argentina já teve times inesquecíveis e equipes mais fracas. Mas o que faz com que você vire a casaca? O que tem esse poder?

É uma série de fatores. O time argentino tem alma, sentimento dentro e fora do gramado, e isso para mim é o mais importante.

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Peguem aquela cena famosa de Maradona chorando, depois da derrota para a Alemanha , na Copa de 90, na Itália, com um pênalti que não existiu. Explica bem como um jogador argentino sente uma partida. Esse tom dramático de jogo, essa quase catarse, como num tango, é que tem mantida acesa minha paixão pelo futebol (argentino), longe de uma falsa alegria brasileira.

Mas ter nascido no Brasil e torcer para o maior rival, podem anotar, tem muitos inconvenientes.

Argentina enfrenta  a Alemanha Ocidental na Copa de 1986
Getty Images
Argentina enfrenta a Alemanha Ocidental na Copa de 1986

O jogo se aproxima, e aquela tensão já está no ar, mas de um modo diferente ao qual você, torcedor brasileiro, está acostumado: porque sei que, se a Argentina perde, vou enfrentar um dia difícil com os amigos no trabalho e, claro, nas redes sociais. Sim, sei que todos vão estar ansiosos para me encontrar. Muito ansiosos. Mas você acha que isso é o pior? Não, obviamente que não.

Experimente os 90 minutos. Durante o jogo, é preciso isolamento. Mesmo: i-so-la-men-to. Enquanto todos se reúnem, vejo a partida sempre sozinho. A única vez que, a convite de amigos, topei um bar, foi durante as eliminatórias para a Copa de 2010. Já faz tempo. O Brasil ganhou o jogo, mas, no único gol da Argentina, acabei gritando muito forte, e o bar inteiro começou a me hostilizar. A partir desse dia, tive a certeza que só posso ver esse tipo de jogo em casa, se for para torcer, mesmo.

Mas essa adversidade para mim pouco importa. Sério. O que vale é o que sinto: que é muito melhor torcer para a Argentina. Nesta quinta-feira, não teremos Messi, Aguero e Tevez, desfalques muito importantes. Mas sei que quem jogar vai na "dejarlo todo en la cancha", como se diz em espanhol. Para mim isso já é suficiente para saber que fiz a escolha certa 30 anos atrás.

*Especial para o iG. Nelson de Russi é jornalista do "SBT", nascido em Sertãozinho-SP, mas que vive com a cabeça em Buenos Aires.

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