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A rivalidade entre os dois países é grande nos gramados, mas nem sempre seus territórios se mostram tão hostis. O iG lista brasileiros que se deram bem em times argentinos, e vice-versa

Seja por questões culturais ou, principalmente, econômicas, hoje é muito mais fácil encontrar um argentino jogando no futebol brasileiro do que o contrário. Na verdade, ao conferir o elenco dos 30 clubes da primeira divisão de nossos vizinhos, você não vai achar um jogador sequer destas bandas por lá. Ao passo que, pelo Brasileirão 2015, 17 jogadores nascidos na Argentina já foram a campo.

Esse desequilíbrio, porém, não é uma coisa nova.  Pelo contrário. É algo que se manifesta historicamente na hora de se levantar nomes de atletas de um país que tenham feito história e virado ídolos no outro país, superando a desconfiança inerente quem a rivalidade sul-americana proporciona.

Ainda assim, às vésperas de mais um Brasil x Argentina – você sabe: eles se enfrentam nesta quinta-feira, pelas eliminatórias para Copa do Mundo de 2018 –, o iG viaja no tempo e relembra alguns casos célebres de brasileiros que tenham brilhado entre os “hermanos”, e vice-versa:

BRASILEIROS NA ARGENTINA

Domingos da Guia (Boca Juniors, 1935-36)

Domingos da Guia com a camisa do Boca Juniors
Divulgação
Domingos da Guia com a camisa do Boca Juniors

Nada como iniciar uma lista com um dos melhores zagueiros da história, não? Depois de ser aclamado em sua passagem pelo Nacional de Montevidéu, o pai de Ademir da Guia deu sequência ao seu giro por terras platinas ao formar com Víctor Valussi uma das duplas de zaga mais famosas da história do clube xeneize. Foi campeão argentino logo que chegou, aos 23 anos, comandando a defesa menos vazada da competição, tendo tomado 31 gols em 34 jogos, um feito e tanto para aquela época.

Fazer falta era uma raridade para Domingos, o Divino Mestre. Tinha um semblante sereno que casava com seu estilo de jogo elegante e hábil, de quem sabia exatamente o que estava fazendo em campo, fosse para desarmar ou atacar. Sim, pois ele também conduzia a bola e partia para o drible, até mesmo dentro de sua área, no tipo de lance que, nos gramados, viria a ser conhecido como "domingada". Ele se aposentaria em 1950, de volta ao seu Bangu.

Paulo Valentim (Boca Juniors, 1960-65)
Não é coincidência que o atacante tenha brilhado também pelo Boca. Domingos da Guia abriu as portas do clube para uma série de compatriotas que seriam importados durante a era dourada do futebol brasileiro, na sequência do bicampeonato mundial. Para se ter uma ideia, no início dos anos 60, Valentim teve a companhia de Orlando Peçanha, presente nas Copas de 1958 e 62, Dino Sani (idem), Maurinho, ex-ponta do São Paulo e do Fluminense, e Edson dos Santos, zagueiro ex-Palmeiras e Botafogo.

Mas foi o centroavante aquele que teve a passagem mais duradoura e bem-sucedida, fazendo barulho tanto nas noitadas portenhas, acompanhado da musa Hilda Maia Valentim, ex-garota de programa que inspiraria a personagem Hilda Furacão, de Roberto Drummond, como nos gramados de La Bombonera.

Diferenciou-se, dessa forma, de Heleno de Freitas e Almir Pernambuquinho, dois craques que também não tinham das vidas mais regradas, mas não corresponderam em campo pelo Boca. Valentim é até hoje o maior artilheiro da história da equipe nos Superclássicos contra o River Plate, com dez gols anotados em quatro anos, além de três em amistosos.

O atacante ex-Atlético-MG e Botafogo, porém, viu seu rendimento cair pouco a pouco até ser repassado ao São Paulo, enquanto Hilda ficava em Buenos Aires acompanhando o filho argentino, Ulisses. A família ainda se mudou para o México em 1966, com uma proposta do Atlante, mas o futebol de Valentim já não chamava mais a atenção, de modo que os mimos e luxo dos quais desfrutavam nos tempos áureos de Boca já não eram mais possíveis. Em 1984, ele morreu aos 51 anos, na capital argentina.

Silas (San Lorenzo, 1995-97)
O menudo são-paulino já era trintão quando vestiu a camisa do San Lorenzo, depois de uma passagem pelo futebol europeu (Sporting, Cesena e Sampdoria), pelo Japão (Kashiwa Reysol) e de ter também defendido Inter e Vasco no Brasil.

Inicialmente ressabiado com uma transferência para a Argentina, Silas teve no técnico Héctor Veira um grande incentivador – quando jogador, havia sido um meia-atacante que defendeu o Corinthians entre 1976 e 77. Logo em sua estreia, com a camisa 10, marcou o gol da vitória contra o Boca Juniors.

Era o prenúncio de uma temporada histórica na qual conduziria o clube de Almagro ao título do Clausura, interrompendo um jejum de mais de 20 anos sem conquistas. 

O cartaz do meio-campista era tão grande que ele ganhou seu próprio programa de televisão na TV argentina, com “La Gran Jugada”, com entrevistas e quadros bem-humorados, aproveitando-se do trânsito fácil que tinha entre personalidades do futebol argentino e sul-americano em geral.

Iarley (Boca Juniors, 2003-04)
A carreira de Pedro Iarley Lima Dantas talvez estivesse fadada ao esquecimento não fosse aquele jogo histórico do Paysandu pela Copa Libertadores. São poucos os times brasileiros que conseguem ir a La Bombonera e triunfar. Que o Papão tenha feito isso logo em sua primeira participação em uma Copa Libertadores, em 2003, foi uma tremenda façanha. Na linha de frente, o futebol deste já veterano atacante, que tinha até mesmo defendido o Real Madrid na década de 90, chamou a atenção de um certo Carlos Bianchi. Foi contratado logo depois.

Se as lesões impediram que ele tivesse uma sequência duradoura pelo Boca, seu talento e predisposição para brilhar em jogos grandes lhe valeram um espaço no coração dos torcedores xeneizes. Principalmente depois de ele ter feito um golaço logo em seu primeiro Superclássico para dar a vitória sobre o arquirrival River Plate:

Iarley foi campeão deste Apertura e ainda ganharia a Copa Intercontinental de 2003, ajudando o Boca a derrotar o favorito Milan, de Kaká, Dida e Cafu, no Japão. Seu sucesso talvez tenha motivado o clube portenho a investir novamente em brasileiros, mas não dá para dizer que Jorginho Paulista, Baiano e Luiz Alberto tenham deixado saudades.            

ARGENTINOS NO BRASIL

José Poy (São Paulo, 1948-62)
Muito antes de Rogério Ceni, o São Paulo já teve um goleiro que virou uma verdadeira instituição no clube. O detalhe é que ele veio de Rosário, aos 22 anos de idade. Jamais poderia imaginar que ficaria 14 temporadas na capital paulista, sendo escalado para 522 partidas, um recorde entre tantos estrangeiros que já passaram pela equipe.

Poy se firmou como titular tricolor em 1950, e suas defesas ganharam admiradores entre torcidas rivais e também da imprensa da época, que chegou a encampar um movimento para colocá-lo na seleção brasileira da Copa de 1954 – certamente levada ainda pelo ranço contra o finado Barbosa, eleito vilão do Maracanazo.

José Poy durante a passagem pelo São Paulo
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José Poy durante a passagem pelo São Paulo


Depois de se aposentado, o argentino, tetracampeão paulista, seguiu intimamente ligado ao clube, assumindo o time em diversas ocasiões em sua carreira de treinador, antes de trabalhar também pela Portuguesa e pelo XV de Jaú. Muitos outros goleiros de seu país viriam ao Brasil nos anos posteriores, seguindo seus passos. Entre eles, destaque para Edgardo Andrada, o vascaíno que levou o milésimo gol de Pelé,  Agustín Cejas, que jogou ao lado do Rei pelo Santos e também defendeu o Grêmio nos anos 70, e Ubaldo Martino Fillol, que substituiu Raul no Flamengo dos anos 80.

Roberto Perfumo (Cruzeiro, 1971-74)

O zagueiro que marcou época pelo Racing chegou ao clube mineiro aos 29 anos e rapidamente causou impacto em um esquadrão que contava Tostão, Dirceu Lopes, Raul, Zé Carlos, entre outros ídolos cruzeirenses. Não era conhecido como El Mariscal (O Marechal) à toa, combinando um espírito guerreiro e de liderança com talento para desarmes e saída de bola.

Foi tricampeão mineiro entre 1972 e 74 e, com isso, se tornou o primeiro jogador argentino a participar de uma Copa do Mundo quando defendia um clube do exterior. Em 1975, retornou ao seu país para defender o River Plate e, ironicamente, enfrentaria seus ex-companheiros na decisão da Copa Libertadores do ano seguinte, tendo de se contentar com o vice-campeonato.

Homenagem feita a Sorin e Perfumo por Cruzeiro e River Plate em Buenos Aires
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Homenagem feita a Sorin e Perfumo por Cruzeiro e River Plate em Buenos Aires


Juan Pablo Sorín (Cruzeiro, 2000-02, 2004 e 2008-09)
Na galeria de ídolos da Raposa, porém, entre argentinos, Perfumo não conseguirá nada mais que a segunda colocação, tamanha a adoração que Sorín cultivou entre torcedores cruzeirenses. O lateral esquerdo também cativava o público por sua combinação única de técnica e raça.

O segundo aspecto ficou evidente em sua cabeça na final da Copa Sul-Minas de 2002, na qual levou uma cabeçada do zagueiro Gustavo, do Atlético-PR que lhe abriu um grande corte acima do olho esquerdo. Levou pontos imediatamente e voltou a campo com uma proteção gigante no supercílio. Ele sabia que era a sua despedida do clube e teve uma grande atuação para assegurar o título antes de se transferir para a Lazio.

Entre altos e baixos na Europa, teve mais uma breve passagem pelo Cruzeiro, até retornar ao time em definitivo em 2008, aos 32 anos. Em vez de Argentinos Juniors ou River Plate, escolheu o clube mineiro para ser o último de sua carreira.

Carlos Tevez (Corinthians, 2005-06)
Entre tantos argentinos nos quais o Corinthians apostou nos últimos anos, não há dúvida sobre quem realmente entrou para a história do clube. “Carlitos” é um nome que você ainda vai ouvir facilmente entre conversas de arquibancada e de bar entre corintianos, que sonham perenemente pelo seu retorno – algo que, temos de admitir, a mídia paulistana incentiva bastante, de tantas especulações levantadas.

Essa conexão tem um motivo, afinal: em 2005, o atacante fez uma dupla infernal com Nilmar em um grande Campeonato Brasileiro e marcou 20 gols para liderar o time na conquista de seu quarto título nacional. O estilo explosivo do argentino, física e emocionalmente, casou perfeitamente com o que em geral a Fiel espera de seus atletas. O ex-presidente Lula que o diga:

Tevez e Lula exibem a camisa do Corinthians
Divulgação
Tevez e Lula exibem a camisa do Corinthians


Mal Tevez ganhou os corintianos, porém, ele já deixou o clube, e pela porta dos fundos, enquanto a parceria com o fundo de investimentos MSI ruía. Assim que voltou da Copa de 2006, bateu de frente com Emerson Leão, mandou até mesmo a torcida se calar em uma comemoração de gol e se mandou para o West Ham.

No mesmo avião partiu o volante Javier Mascherano, outra contratação de peso da MSI, mas que não se deu tão bem pelos gramados brasileiros. Além de uma grave lesão, talvez seja mais lembrado pelas ‘canetas’ que levou do capetinha Edilson, então no São Caetano, em 2005:

Multidão de ídolos
Depois da passagem meteórica de Tevez pelo Corinthians, ao mesmo tempo em que a economia argentina seguia em deterioração, com uma desvalorização significativa de seu peso para o real brasileiro, a busca por reforços entre fronteiras argentinas se intensificou nos clubes nacionais. E aí fica difícil selecionar um só nome como referência destes tempos.

O torcedor do Internacional certamente vai falar de Andrés D’Alessandro , que já leva incríveis sete temporadas seguidas com a camisa colorada, algo raríssimo de se ver. No currículo, uma Copa Libertadores, uma Copa Sul-Americana, uma Recopa, cinco Campeonatos Gaúchos, muitos lances de efeito e golaços com a camisa 10. Entre tantas conquistas, um personagem a ser destacado também foi o volante Pablo Guiñazu , hoje no Vasco.

Já o torcedor do Fluminense pode citar Darío Conca , campeão brasileiro em 2010. O Cruzeiro voltou a comemorar os feitos de um argentino quando Walter Montillo foi contratado, enquanto os atleticanos celebram neste ano a grande temporada de Jesus Dátolo , ao lado de Lucas Pratto .

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