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Técnico envia cartas e marca conversas com federações para lançar chapa na Fifa, mas lamenta falta de ajuda maior da CBF

Zico se encontrou com o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, no final de julho
Rafael Ribeiro/CBF
Zico se encontrou com o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, no final de julho


No dia 30 de julho, a CBF recebeu Zico  em sua sede na Barra da Tijuca para anunciar apoio prévio à sua candidatura à presidência da Fifa, em 26 de fevereiro de 2016. Porém, ao contrário do que esperava , ouviu de Marco Polo Del Nero, homem-forte da entidade, que o apoio total estará garantido apenas se o ex-jogador conseguir convencer outras quatro federações a bancar seu nome.

"Ela não garantiu o voto. Ela mesma poderia buscar esses outros quatro apoios. Ela tem cacife para isso", disse Zico ao iG na quinta-feira, após um encontro com a equipe que o assessora nesse sonho de presidir a entidade atolada em escândalos de corrupção.

Vendendo-se como a verdadeira novidade diante de nomes como Michel Platini e o príncipe Ali da Jordânia, Zico se apoia no seu nome e na boa impressão deixada em passagens por clubes e seleções da Europa e da Ásia para conseguir o apoio necessário. Ele tem até 26 de outubro para conseguir o apoio necessário. 

Leia a entrevista de Zico ao iG:

iG: Você já tem apoio de alguma federação além da CBF?
Zico: A gente já enviou cartas para outras federações e até sexta-feira queremos ter mandado para todas as federações. Com algumas estamos tentando contato pessoal para falar direto, com outras já temos reuniões marcadas. Esse mês de agosto vai servir para fazer todos esses contatos. Em setembro, vou para a Índia e temos até 26 de outubro pra conseguir esses apoios.

Você trabalhou em países como Japão, Índia, Uzbequistão, Grécia, Rússia, Iraque,Turquia... Acha que algum pode apoiá-lo? Deram algum retorno?
Essas são as primeiras que eu estou procurando, lógico. A gente teve um bom relacionamento com essa turma. Fiz bons trabalhos. É menos difícil chegar, sei quem procurar. Mas também tenho amigos com conhecimento em outras áreas para poder realmente avaliar aquilo que estamos buscando.

Algum país já manifestou apoio?
Começamos isso na última segunda-feira. Então ainda está muito cedo. Ainda tem tempo para essas pessoas avaliarem, estudarem, tirarem dúvidas do que a gente propõe, e para verem até que ponto estão comprometidas, já que não sou só eu e eles podem estar olhando outras coisas. Isso não é de uma hora para outra.

Mas o prazo para registrar a candidatura é em outubro e não se tem muito tempo para perder.
Lógico. Acho que em dez dias a gente vai começar a receber as primeiras respostas. Se não obtiver, é porque não tem quem queira nos apoiar e não teria o que fazer. Tem de haver comprometimento.

A CBF vive momento conturbado. Faz bem pra você ter o apoio da CBF?
Nada a ver isso.

Mas você acha que a CBF está usando você para ter alguma simpatia do grande público e por isso o apoiou?
Se estivesse apoiando mesmo já teria garantido o voto e não esperaria outras quatro se pronunciarem. Ela não garantiu o voto. Poderia fazer mais, ela mesma buscar esses outros quatro apoios. Ela tem cacife para isso. Ela não vai conseguir mudar o que as pessoas pensam dela usando um ou outro jogador. Vai mudar em cima dos atos. O que ela fez foi reconhecer que eu tenho meus serviços prestados ao futebol brasileiro. É isso o que penso.

Mas então você ficou decepcionado pela CBF não ter garantido o apoio, mesmo sem as outras quatro federações?
Não, não é isso. Pelo menos o quinto apoio ela me garantiu. Eu mandei uma carta, como as que mandei para as outras federações, mostrando que eu ia ser candidato e queria saber se eles podiam ouvir o que proponho e ter um apoio. A iniciativa foi minha. Por ser brasileiro, meu dever era de ir primeiro na entidade do meu País, independentemente de quem esteja lá. Não estamos fulanizando. Estou na entidade, a entidade é a CBF e os problemas que ela possa ter com essa ou aquela pessoa, é a entidade que interessa.

Mas a dúvida é se ter um apoio da CBF pelo momento que ela vive é bom ou ruim para quem tem esse apoio.
Então o jogador de futebol que é convocado, por causa dos problemas da CBF, não deve aceitar a convocação, deve recusar a seleção?

Talvez jogadores pudessem se posicionar com mais veemência diante disso tudo. Às vezes a impressão é que eles vivem em outro mundo.
Deveriam ter feito com os presidentes de antes (Ricardo Teixeira e José Maria Marin) . Um está indiciado, outro está preso. Não esse (Marco Polo Del Nero). Esse agora só está aí exercendo a função.

Pelo menos esse ainda não foi preso, né?
Mas isso aí não é um problema meu (risos). É problema e dever dos outros investigar. Nem eu, nem você podemos acusar ninguém dessa forma. O que tenho é respeito pela entidade. Tem muita gente aí com problemas também exercendo vários cargos, em diversas áreas e que não falam nada. Estão soltos.

Mas como você a atuação de outros ex-jogadores com os assuntos do futebol fora do campo? Romário na CPI do Futebol, Ronaldo, que sempre esteve próximo da CBF...
Eu não tenho de analisar ninguém. Cada um tem seus direitos e motivos para agir como lhe convém, e cada um responde por si só. Eu respondo por mim. Não vou julgar a atitude dos outros. Minha situação é essa. Entendo que para ser candidato, eu precisava ouvir da entidade do meu País que havia possibilidade de apoio. Não foi o que queria, mas disseram que se eu levasse as quatro outras, a quinta estava aí. Foi isso. Fechou, um abraço, até a próxima e esse foi o compromisso. Mais nada. Criaram alguma coisa em cima de possível efusivo abraço que em nenhum momento houve. Houve um cumprimento de respeito. Só isso.

Zico conversa com Materazzi na Índia, sua casa entre setembro e dezembro de 2015
Divulgação/ISL
Zico conversa com Materazzi na Índia, sua casa entre setembro e dezembro de 2015

Antes mesmo de dizer que queria presidir a Fifa, você questionou esse mecanismo da entidade para apontar os candidatos, e criticou essa politicagem dos apoios das federações. Por que ainda quer ser candidato?
Continuo achando isso. Mas fui convencido de tentar de novo da forma como é a eleição hoje em dia, que acabou sendo menos difícil por causa de tudo que acontece na Fifa. Mas quem tem toda a infraestrutura, que faz parte do comitê da Fifa, quem tem todo esse aparato, é lógico que sai na frente. Mas por causa de tudo isso que está acontecendo eu não sei qual será o comprometimento das pessoas que votam. Como elas vão se sentir publicamente se repetirem as mesma coisas que aconteceram nos últimos anos.

O cenário ainda é de ter confederações inteiras apoiando um determinado candidato, votando em bloco por trocas de favores.
A Conmebol é assim. Todas as federações votam em bloco junto em candidato só. Eu não sei se vai se repetir por tudo isso que aconteceu. É uma situação nova, apesar de ser uma eleição com sistema velho. Mas nunca tinha acontecido o que aconteceu agora.

Nesse ponto, Michel Platini por ter toda a Uefa como suporte, ou até o príncipe Ali da Jordânia, que teve votação relevante na última eleição, estão à sua frente?
O próprio coreano (Chung Mong-joon, 63 anos, magnata do Grupo Hyundai e ex-vice-presidente da Fifa que também vai concorrer) também está na frente. Mas todos eles estão com o pensamento do que acontecia antes. Como disse, agora vamos ver como as pessoas que votam veem tudo isso com tudo que aconteceu.

Então seu mote é se apresentar como a real novidade. É assim que você se vende.
Não me vendo. Eu me coloco como a novidade.

Mas qual é a sua preparação para uma eventual campanha. Como estar perto de quem vota?
Minha campanha vai ser feita com a tecnologia, com a comunicação. Não tenho jatinho para sair rodando por tudo que é lugar.

Você está estudando? Fazendo curso de gestão ou algo nesse sentido?
Tem quatro pessoas que estão me ajudando, mas que não vou dar nomes. Nós estamos nos reunindo, toda segunda e quinta, para ver quais os próximos passos. Conheço essas pessoas há muito tempo, mas que por pedido delas, elas não querem dizer quem são. E eu respeito isso.

Um dos motivos que levaram a Fifa a enfrentar essa crise hoje foi a escolha das sedes das Copas de 2018 e 2022. Qual a sua opinião sobre a Copa no Catar?
Não é sozinho que se decide essas coisas são situações.

Claro, mas como você vê toda a denúncia de compra de votos?
Fui contra a escolha do Catar desde o começo por causa do clima. Junho e julho lá são impraticáveis. Já fui contra e aí mudaram a data. Acho que é pouca gente decidindo uma situação dessas. Essa é uma das coisas que precisam ser mudadas. Como um colegiado de 20 e poucas pessoas decide onde vai ser uma Copa do Mundo? Isso é errado. É preciso democratizar e dar mais transparência. Abrir a votação para pessoas do futebol. Então a minha plataforma é essa. Democratização e transparência é o que eu quero. O futebol é muito grande para cinco, dez pessoas decidirem. Tanto que dessas 20 que decidiram sete estão presas . (O Catar foi eleito com 14 votos contra oito dos Estados Unidos no último round da votação em 2010) . O grande problema é esse. Não é ser contra ou favor de Copa do Mundo em determinados lugares, é em relação a como isso é votado.

Você vai para Goa em setembro e fica lá até dezembro. Isso pode atrapalhar a candidatura?
Não, em nada. Como disse, hoje se faz conferência de onde estiver no mundo. A tecnologia ajuda, coloca você em contato cara a cara com quem quiser, onde quer que esteja. É só se adaptar ao fuso horário. 

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