Tamanho do texto

Time carioca voltará à Segunda Divisão em 2015 após ano cheio de brigas internas no clube e forte crise financeira

Assim como em 2002, o Botafogo foi rebaixado à Série B
AGIF / BOTAFOGO/ DIVULGAÇÃO
Assim como em 2002, o Botafogo foi rebaixado à Série B

Se o rebaixamento do Botafogo à Série B foi sacramentado em 30 de novembro, com a derrota para o Santos na Vila Belmiro , a perspectiva de que 2014 seria um ano difícil apareceu bem antes: 14 de janeiro, data em que Seedorf anunciou a aposentadoria como jogador. Na temporada anterior, com o astro holandês em campo, o time carioca honrou sua história gloriosa e garantiu vaga na primeira fase da Copa Libertadores.

Um dia após o rebaixamento, Mancini diz ter acumulado funções no Botafogo

O adeus de Seedorf iniciou uma reação em cadeia. Escancarou a falta de planejamento do clube na montagem do elenco, as apostas frustradas e uma crise financeira que parece sem solução. Abaixo, oito motivos que explicam o rebaixamento do Botafogo à Série B:

1 - Técnico inexperiente para disputar a Libertadores

Com a saída de Oswaldo de Oliveira para o Santos, o Botafogo escolheu Eduardo Hungaro para ser o técnico da equipe em 2014. Com passagens apenas pelas categorias de base do clube e pela Terceira Divisão de Portugal, a falta de experiência de Hungaro impactou no desempenho no primeiro semestre, com eliminação na fase de grupos da Copa Libertadores (lanterna do grupo) e o nono lugar no Estadual do Rio. Com a contratação de Vagner Mancini, em abril, Hungaro foi "rebaixado" a auxiliar técnico.

Com Eduardo Hungaro, Botafogo foi um fracasso no primeiro semestre
Buda Mendes/Getty Images
Com Eduardo Hungaro, Botafogo foi um fracasso no primeiro semestre

2 - Salários atrasados e rendas bloqueadas

Maurício Assumpção, presidente do Botafogo
Fabio Castro/Agif/Gazeta Press
Maurício Assumpção, presidente do Botafogo

A gestão de Maurício Assumpção teve resultados trágicos no lado financeiro. Com o problema na cobertura do Engenhão, que deve ficar pronto em fevereiro de 2015, o clube não conseguiu achar alternativas viáveis para mandar seus jogos e afetar pouco as receitas provenientes de bilheteria - o Maracanã também deixou de ser usado após uma ação movida pelo técnico Joel Santana pedir a penhora da renda de jogos do Botafogo no estádio. Em seguida, o Botafogo deixou de fazer parte do Ato Trabalhista, um acordo com o TRT (Tribunal Regional do Trabalho) para quitar dívidas sem ter rendas penhoradas. O impacto imediato foi o bloqueio de 100% das receitas do clube.

Botafogo se desculpa por rebaixamento e aposta no Engenhão para se reerguer

Sem dinheiro, o atraso em quitar débitos aumentou, assim como o rombo financeiro no clube. Assumpção chegou a cogitar que o Botafogo abandonasse o Campeonato Brasileiro por falta de dinheiro. Atualmente, os jogadores estão com três meses de salários atrasados, além de oito meses sem receber direitos de imagem. De acordo com Carlos Eduardo Pereira, eleito presidente no dia 26 de novembro, a dívida do Botafogo é de cerca de R$ 750 milhões.

3 - Falta de reposição de jogadores

O zagueiro Dória, do Botafogo, reforçou o Olympique de Marselha, da França
Reprodução/Twitter
O zagueiro Dória, do Botafogo, reforçou o Olympique de Marselha, da França

Quando Seedorf anunciou a aposentadoria, o Botafogo não conseguiu achar um nome de impacto para se manter forte em 2014. Alguns destaques da equipe também não foram mantidos durante a temporada. Os atacantes Elias e Rafael Marques trocaram o Rio de Janeiro pela China, o zagueiro Dória, uma das principais revelações do clube recentemente, foi negociado com o Olympique de Marselha, da França. O meia uruguaio Lodeiro acertou com o Corinthians e o meia Jorge Wagner entrou em acordo com o clube, que devia salários, e rescindiu seu contrato em julho.

Sem dinheiro, o Botafogo não conseguiu repor as peças. Na negociação com Lodeiro, o clube conseguiu o empréstimo do atacante Emerson Sheik, que ficou quase seis meses até ser dispensado. Jobson, que estava afastado após uma série de problemas pessoais, foi reintegrado por falta de opções.

4 - Os quatro demitidos

Antes afastado do comando do futebol, Maurício Assumpção teve uma atitude drástica em outubro, anunciando o afastamento de quatro jogadores: o zagueiro Bolívar, os laterais Edilson e Julio César e o atacante Emerson Sheik. Dias depois, o quarteto se uniu em entrevista coletiva para comentar a situação e não poupou críticas ao presidente do clube. 

"Apunhalado é um bom termo. Não pelo Botafogo, e sim por ele", disse Bolívar. "Tem gente no clube que passa fome, que chega no clube de manhã e faz todas as refeições lá porque não tem dinheiro para fazer compras. As pessoas esquecem que estão falando de seres humanos. O cara chega em casa e tem família. Tem gente que tem filho recém-nascido e não tem dinheiro para comprar leite para o moleque", disparou Sheik.

Edilson, Emerson, Bolívar e Júlio César, dispensados pelo Botafogo
Reprodução
Edilson, Emerson, Bolívar e Júlio César, dispensados pelo Botafogo

5 - Brigas internas

O atraso no pagamento dos salários motivou alguns conflitos entre diretoria e jogadores do Botafogo. No clássico contra o Flamengo, em julho, os atletas foram a campo com uma faixa de protesto, sem o consentimento do presidente Maurício Assumpção. "Estamos aqui porque somos profissionais e por vocês, torcedores: 5 meses de imagem, 3 meses de carteira de trabalho, FGTS", dizia o cartaz exibido no Maracanã. No jogo seguinte, contra o Cruzeiro, foi a vez de a torcida protestar: "Estamos aqui por amor ao Botafogo e para apoiar vocês, jogadores. Jamais por essa diretoria amadora. Joguem por nós", solidarizam-se os torcedores por meio de um cartaz.

Jogadores entram em campo com faixa em protesto contra os salários atrasados
Marcello Dias/Futura Press
Jogadores entram em campo com faixa em protesto contra os salários atrasados

Outro embate aconteceu entre Wilson Gottardo e Jefferson. O gerente de futebol disse que o goleiro alegou cansaço e não quis se concentrar com o time para o duelo contra o Santos, pela Copa do Brasil, após defender a seleção brasileira na Ásia. "Não jogar talvez tenha sido um ato de covardia", cutucou Gottardo. Jefferson justificou que não havia recebido ordens para ir à concentração.

No jogo contra o Santos, que carimbou o rebaixamento, um exemplo do descontrole que paira sobre os jogadores: a discussão entre Andreazzi e Dankler, que trocaram empurrões após um ataque do adversário.

6 - Baixas por lesões

Com o elenco já fragilizado por demissões, negociações e contratos rompidos, o técnico Vagner Mancini também perdeu algumas peças importantes por lesões durante a temporada, como os volantes Marcelo Mattos e Rodrigo Souto, os meias Carlos Alberto e Daniel e o atacante Wallyson.

7 - O patrocínio da TelexFree

Em janeiro, o Botafogo anunciou o seu novo patrocinador, a TelexFree, e receberia o equivalente a R$ 4 milhões por ano. Mas a empresa de telecomunicações já era alvo de invetigação, entrou em processo de falência nos Estados Unidos e seus donos tiveram bens bloqueados pela Justiça. Em maio, um dos sócios da TelexFree, James Merrill, foi preso, o que motivou o Botafogo a romper o acordo.

8 - Aproveitamento pífio em 2014

Fora de campo, crises administrativa e financeira. Dentro dele, um aproveitamento horroroso. Dos 64 jogos que disputou nesta temporada, o Botafogo perdeu 35, mais que o dobro de vitórias (17). A defesa alvinegra foi vazada em 78% das partidas disputadas. Penúltimo colocado do Campeonato Brasileiro, com 33 pontos após 37 rodadas, o time carioca realiza sua pior campanha na competição na era dos pontos corridos (desde 2003).

Jogadores do Botafogo lamentam após derrota diante do Figueirense
Getty Images
Jogadores do Botafogo lamentam após derrota diante do Figueirense