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Reportagem do iG acompanha trabalho de policiais antes, durante e depois do empate por 1 a 1 entre Palmeiras e Corinthians, no Pacaembu

PM faz escolta dos torcedores do Corinthians para clássico contra o Palmeiras, no Pacaembu
Oslaim Brito/Futura Press
PM faz escolta dos torcedores do Corinthians para clássico contra o Palmeiras, no Pacaembu

Corinthians e Palmeiras protagonizaram no último domingo o que foi chamado de “clássico da paz”. Os frequentes casos de violência entre torcedores e, sobretudo, a recente invasão do CT corintiano levaram os clubes a realizar um trabalho conjunto para amenizar a rivalidade e evitar novos problemas. Mas, para que a situação não fugisse do controle, um verdadeiro esquema de guerra foi armado pela Polícia Militar paulista, com centenas de homens armados, a habitual escolta das organizadas e até o reforço de um helicóptero.

O iG Esporte acompanhou o outro lado do jogo, aquele que ninguém vê. Com exclusividade, a reportagem seguiu a rotina da Tropa de Choque da PM, liderada pelo capitão Marçal Ricardo Razuk. E conta agora como foi o procedimento desde a saída do quartel, passando pela entrada das torcidas com segurança no estádio do Pacaembu e a volta para suas sedes, em uma operação cuja definição dada pela PM é "prevenção". E não apenas do choque entre corintianos e palmeiras, mas até entre as organizadas do próprio time alvinegro.

Leia: Com gols de carrascos, Corinthians e Palmeiras ficam no empate no Pacaembu

Com o início do clássico marcado para 16h, a apresentação no 2º Batalhão de Choque, na Luz, aconteceu às 11h. Neste momento foi realizada o que os policiais chamam de revista, uma preleção em que são mostrados vídeos de partidas anteriores e orientações sobre forma de atuar.

Comandante Marçal Ricardo Razuk, do 2º Batalhão de Choque da Polícia Militar
Pedro Taveira/iG São Paulo
Comandante Marçal Ricardo Razuk, do 2º Batalhão de Choque da Polícia Militar

Ali ficou definido quais equipes se responsabilizariam por escoltar as delegações de Corinthians e Palmeiras, bem como suas principais torcidas organizadas (Gaviões da Fiel, Pavilhão 9 e Camisa 12, pelo lado corintiano, e as palmeirenses Mancha Alviverde e Tup). Por causa da localização do Pacaembu, as escoltas dos torcedores seriam feitas principalmente a pé.

“Hoje a partida é de alto risco. A gente sabe que as condições não são as melhores, mas todos sabem o que fazer. Vamos atuar na prevenção, evitar problemas e deixar que a imagem ruim fique para o lado deles (organizados)”, disse um oficial na palestra.

Conversa terminada, pouco antes do meio-dia a Tropa de Choque saiu rumo ao estádio para “prepará-lo”, nas palavras de Razuk. Ainda no Batalhão, agentes da Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas) definiam suas táticas. Um de seus grupos foi encarregado de levar a Mancha Alviverde de sua sede na rua Turiassu até o Pacaembu. Como o mando de jogo era do Corinthians, essa foi definida como a missão mais arriscada e a que foi seguida pela reportagem.

Antes da saída, uma preocupação era clara. Apesar do clássico ser entre Corinthians e Palmeiras, duas organizadas do São Paulo, Independente e Dragões da Real, foram alvo de atenção porque fariam ensaios para o carnaval no Sambódromo do Anhembi às 18h30. Um cruzamento com torcidas corintianas, que têm suas sedes no Bom Retiro, próximo à Marginal Tietê, poderia complicar a situação.

“A Independente é mais ‘folgada’, a que mais procura confusão”, falou um policial que pediu para não ser identificado.

Às 13h saiu uma viatura do Batalhão de Choque ao ponto de encontro com a Mancha. Lá, dois líderes da torcida já conversavam com o tenente Guilherme, da Rocam, para definir o trajeto. Na rua, palmeirenses cantavam ao som da bateria e se preparavam para a caminhada bebendo cerveja.

A saída ocorreu às 14h, e o “cortejo” seguiu durante 50 minutos pelas avenidas Sumaré e Paulo VI. Uma viatura e quatro policiais fortemente armados conduziam o comboio. Mais à frente, duas motos verificavam se não havia emboscadas de rivais e controlavam o trânsito. Atrás, um mar de dois mil torcedores vestidos de verde e branco. O detalhe é que havia muitas pedras, pedaços de madeira e barras de ferro no canteiro central das avenidas, e a coisa ficaria feia em caso de confusão.

Às 14h40, quando o grupo já subia a rua Olavo Freire, começou a garoar. Ainda tímidos, alguns torcedores voltaram a cantar. Os gritos ecoaram mesmo dez minutos mais tarde, momento em que a chuva apertou e a escolta estava entre as ruas Itatinga e Angatuba, muito próximas ao estádio.

“A maior preocupação hoje não é nem com os palmeirenses, mas sim que as organizadas do Corinthians briguem entre elas”, afirmou um policial durante a escolta. “A gente está sempre acompanhando a situação dos times e sabe que já deu confusão entre a Camisa 12 e a Gaviões”, completou.

Policiais Militares controlam acesso de torcedores do Palmeiras ao estádio do Pacaembu
Pedro Taveira/iG São Paulo
Policiais Militares controlam acesso de torcedores do Palmeiras ao estádio do Pacaembu

Às 15h, o comboio estava concluído. Era possível ouvir e ver um helicóptero fazendo monitoramento. Sob forte chuva, o último obstáculo antes do Pacaembu era uma barreira de policiais que só deixava descer a rua Itacaranha, que dá acesso ao estádio, aqueles que estivessem com ingressos em mãos. Do outro lado, na praça Charles Miller, corintianos chegavam também sem maiores problemas.

Faltavam poucos minutos para as 16h e o início do clássico quando a reportagem conversou com o comandante Razuk, há 20 anos trabalhando com eventos esportivos. Neste período, diz ter ido a cerca de 1500 partidas. Perguntado se considera o trabalho da PM efetivo, ele foi afirmativo.

“O Estado de São Paulo é polo difusor nas técnicas e estratégias de policiamento. Comandantes de outros Estados que receberão a Copa do Mundo vêm até aqui para pegar nossa experiência e forma de trabalho”, explicou Razuk.

“São Paulo está anos-luz à frente dos outros Estados”, contou um outro policial, sem se identificar.

Terminado o trabalho de acesso dos torcedores, o comandante entrou no estádio às 16h06, já com a bola rolando dentro de campo. Razuk explicou que 200 policiais espalhados pelo local faziam a segurança. Trinta e um deles, a reportagem contou, apenas destinados ao setor palmeirense.

Corinthians e Palmeiras empataram por 1 a 1 no clássico do último domingo
Fernando Dantas/Gazeta Press
Corinthians e Palmeiras empataram por 1 a 1 no clássico do último domingo

Ao chegar à sala da PM no Pacaembu, sob o tobogã, foi questão de poucos minutos para que a primeira – e única – ocorrência do clássico fosse registrada. Um torcedor corintiano foi preso por desacato à autoridade. Ele ficou o jogo inteiro sob custódia e, depois de encaminhado ao Jecrim (Juizado Especial Criminal), foi liberado cerca de uma hora após o término do duelo.

Enquanto isso, Corinthians e Palmeiras faziam uma boa partida, com chances de gols para os dois lados. Romarinho abriu o placar para os alvinegros e Alan Kardec deixou tudo igual, ambos já no segundo tempo. Das arquibancadas, provocações e xingamentos entre as torcidas, mas nada além das ameaças e que exigisse ação dos policiais.

Finalizado o clássico, empate de 1 a 1 e sob forte chuva na capital paulista, foi a hora de repetir a escolta palmeirense. Aproximadamente 30 minutos após o jogo, os torcedores foram retirados para mais 50 minutos de caminhada rumo à rua Turiassu. E, ao menos desta vez, o “clássico da paz” justificou o nome.

*edição de vídeo por Aretha Martins

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