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Escudeiros de Tite, Mano e Muricy falam de desemprego, propostas e desejo de saírem em carreira solo

Geraldo Delamore e Cleber Xavier: o primeiro tenta carreira no Juventude, enquanto o segundo segue como auxiliar do treinador
Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians
Geraldo Delamore e Cleber Xavier: o primeiro tenta carreira no Juventude, enquanto o segundo segue como auxiliar do treinador

Eles geralmente são rostos desconhecidos dos torcedores, mas acabam sendo tão importantes para um time de futebol quanto o treinador (só que sem a pressão de serem xingados quando as coisas não vão bem). Se o técnico ganha, também saem vitoriosos. Se o comandante é demitido, acabam indo junto para o olho da rua.

Parceiros “na boa e na podre”, os fiéis escudeiros dos maiores técnicos do Brasil falaram ao iG Esporte sobre a rotina de um auxiliar, a discussão de propostas, o desejo de um dia saírem em carreira solo e como lidam com os momentos de desemprego.

Sidnei Lobo trabalha com Mano Menezes há dez anos. Ele já estava no final da carreira como jogador no Iraty quando o treinador chegou ao clube. Convidado pelo técnico para ser seu auxiliar no Caxias, teve que escolher entre a nova carreira e uma proposta de um time da China.

“Segundo ele (Mano), eu tinha um pouquinho de visão e conhecimento de atletas. Eu tinha vontade de exercer a função [de técnico], e nada melhor do que começar como auxiliar. É duro você querer assumir um clube, você não vai ser treinador de um grande de uma hora pra outra, é raro acontecer isso”, afirmou Lobo, que deu o segredo de um bom escudeiro.

“Não basta você só concordar. O treinador precisa de outras opiniões, ou nunca vai evoluir. Se para tudo que ele falar eu disser ‘amém’, não precisa de auxiliar. Claro que um dia penso em treinar, mas adoro o que faço, e as coisas estão funcionando bem. Enquanto o Mano tiver paciência para me aguentar...”, disse o corintiano.

Sidnei Lobo está com Mano Menezes há dez anos e espera hora certa de se lançar como treinador
Gazeta Press
Sidnei Lobo está com Mano Menezes há dez anos e espera hora certa de se lançar como treinador

Lobo ocupa hoje no Parque São Jorge o lugar que foi de Cléber Xavier nos últimos três anos. Homem-forte de Tite, com quem trabalha há 14 anos, o auxiliar revelou que encara as horas de desemprego como férias. E é isso que vem vivenciando desde o fim da temporada passada, quando o técnico ficou sem clube.

“Eu sou casado, tenho um filho de 20 anos e sempre procuro esses momentos em que a gente não está trabalhando para curtir mais a família, porque não tem esse tempo todo. A gente aproveita esse tempo que tem livre pra continuar sempre analisando mercado, lendo, estudando e mais perto da família”, explicou Xavier.

“A gente já teve momento que ficou cinco, seis, até dez meses sem trabalhar. Eu vejo isso como verdadeiras férias, no sentido de poder ficar mais relaxado. Começamos a carreira tirando clubes do rebaixamento e hoje conquistamos títulos importantes. Esses dois trabalhos no futebol são muito difíceis. Sair lá de baixo e ganhar... Não é fácil no futebol brasileiro ter essas conquistas que a gente vem tendo, e isso desgasta muito”, completou o braço direito de Tite.

A confiança dos auxiliares em seus patrões é tamanha que basta uma simples ligação para topem o desafio de ir para um novo clube. Tata está há tanto tempo com Muricy Ramalho que até o jeito de falar dos dois é igual. E a sintonia se mostra nos momentos da análise de propostas.

Tata: sintonia com Muricy Ramalho pode ser percebida até no jeito de falar
Samir Carvalho
Tata: sintonia com Muricy Ramalho pode ser percebida até no jeito de falar

“O Muricy decide e comunica: ‘Ó, estamos indo para tal lugar’. Já conversamos sobre esse assunto: ‘Tem uns caras ligando pra gente aí, o que vamos fazer? Vamos descansar mais um pouco ou trabalhar em seguida?’. A gente é parceiro, na boa e na podre”, disse Tata, que, ao contrário dos demais auxiliares, não tem pretensão de sair em carreira solo.

“Aqui comigo é o contrário. Já fui treinador, trabalhei em vários clubes. Já passei por muitas coisas no futebol e era diretor técnico na época que comecei a trabalhar com o Muricy. Nunca tive essa pretensão de aprender com o treinador. A gente troca ideia, opinião. Para qualquer coisas ele sabe com quem contar. Embora tenha já recebido vários convites, não tenho essa vontade. Montamos uma dupla há muito tempo e deu certo, entendeu? Não tem a vaidade de um querer passar na frente do outro. Ele é o comandante e eu estou sempre do lado pra apoiar”, prosseguiu o são-paulino.

Mas Tata é exceção. Tanto Sidnei Lobo quanto Cléber Xavier estão apenas aguardando o que definiram como o “momento ideal” para iniciarem suas trajetórias como técnicos.

“Sou uma pessoa privilegiada de ter conseguido isso. Graças a Deus conheci o Mano, um cara que me acolheu bem e me colocou no caminho certo. Mas não dá para você precisar se daqui a cinco ou dez anos vou ser treinador. Tem que deixar as coisas seguirem”, afirmou Lobo.

“A questão é o momento certo e as oportunidades aparecerem de forma consistente. Como eu sou auxiliar do treinador, às vezes aquele auxiliar do clube assume o posto quando o treinador sai e já passa a ser técnico, como foi com o Claudinei no Santos. No meu caso, não. Eu sou auxiliar do Tite, e sempre que ele sai eu saio junto. E as propostas que eu recebi não foram propostas que me fariam sair dessa situação que eu tenho para seguir um trabalho. Mas eu sou um cara de 50 anos, então mais tarde, daqui a pouquinho, a gente talvez possa pensar mais incisivamente sobre isso”, concordou Xavier.

Sabe-se, no entanto, que Tite sempre incentivou seus “escudeiros” a seguirem seus próprios passos na profissão. Foi o que fez Geraldo Delamore, que trabalhou com o técnico até junho de 2013 e agora está no comando do Juventude, clube da terceira divisão do Brasileirão.

“Era um objetivo meu. Claro que o Tite na época em que trabalhamos juntos me inspirou, mas antes mesmo de ir pro Corinthians eu já tinha trabalhado como treinador de equipes pequenas. Então, a minha ideia de seguir a carreira de treinador já era antiga, de um bom tempo atrás. O momento pós-Corinthians foi a oportunidade de ter participado de todos os títulos que me colocaram em condição de adquirir muita experiência, conhecimento e projeção. E isso tudo fez com que o momento fosse adequado para sair na carreira”, falou Delamore.