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Renúncia de Sandro Rosell escancara crise no clube catalão e rompe com seu histórico vanguardista

A obscura transferência de Neymar para o Barcelona em junho do ano passado que culminou no pedido de renúncia do presidente Sandro Rosell na quinta-feira, arranha a imagem de clube modelo que a agremiação centenária exibia para o mundo.

Os quase 40 milhões de euros supostamente não declarados pelo clube na transferência, que são alvo da Justiça espanhola a partir de uma denúncia do jornal "El Mundo", de Madri, colocam em xeque a frase auto-proclamada pelo Barcelona que se intitulava "Mais que um clube".

"A imagem do Barcelona está arranhada. Houve sim um constrangimento para a marca de um clube que construiu uma história fora de série nos últimos anos, que realizava trabalhos de responsabilidade social, que se intitula 'mais que um clube' e que é marcado por um futebol arte", avalia Amir Somoggi, consultor em marketing esportivo.

Leia mais: Valores "escondidos" fariam de Neymar o mais caro da história

Rosell deixou o Barcelona insistindo que Neymar custou € 57,1 milhões. A Justiça da Espanha investiga que o negócio tenha saído, entre comissões e valor pago ao Santos, por € 95 milhões. Neymar dos Santos, pai do atacante, teria embolsado € 21,1 milhões não declarados. 

"Ou o Santos foi lesado ou o Santos foi conivente", avalia Somoggi. O Santos pediu explicações e divulgou nota em que diz que vai aguardar a conclusão das investigações na Espanha para anunciar as medidas que tomará. Neymar também declarou que a transferência não teve nenhuma irregularidade .

Qatar Foundation: 1º patrocinador do Barça em 111 anos. Acordo supera os R$ 340 milhões
Getty Images
Qatar Foundation: 1º patrocinador do Barça em 111 anos. Acordo supera os R$ 340 milhões

Rosell e a ruptura com as' tradições do Barcelona
Sandro Rosell assumiu a presidência do Barcelona em julho de 2010. Foi eleito com 61% dos votos dos sócios, a maior porcentagem da história. O período teve títulos, entre eles a Liga dos Campeões e o Mundial de Clubes em 2011, mas significou a ruptura com tradições centenárias do clube. 

A principal delas foi o acordo com a Qatar Foundation, grupo árabe que passou a estampar a marca na camisa do clube, que se orgulhava de nunca ter precisado "sujar" a tradição com um patrocinador. O Barcelona de Rosell estaria apenas aceitando que os tempos são outros e que precisaria deixar a tradição de lado. Porém, o acordo específico com um grupo que pertence ao governo de um país com regime autoritário e uma monarquia anticonstitucional iria contra todos os princípios históricos do Barça, que se assume "mais que um clube".

"Quando o Barcelona aceitou usar patrocínio na camisa, fez um caminho até natural. Empresas do mundo todo estariam dispostas a acertar e pagar muito bem para se associar ao Barcelona. Mas aí o Rosell escolheu um parceiro ligado a um governo ditatorial. O Barcelona, que lutou contra a ditadura desde a guerra civil espanhola, que foi sinônimo da luta contra o franquismo, manchou sua história nesse acordo, também", avaliou Somoggi. 

O alto valor pago pelo Barcelona por Neymar também vai contra a política do clube na última década, quando privilegiou jogadores formados em "La Masia", a escola de base do clube, com raras contratações, principalmente as que envolveriam valores astronômicos.

Rosell já havia se envolvido em outro escândalo financeiro antes do "caso Neymar". Ex-executivo da Nike e com amplo relacionamento com o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira, Rosell é acusado de fraude pela Polícia Federal brasileira que o investiga por desvio da renda de amistoso entre Brasil e Portugal em 2008 .

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