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Empresários ofereceram até R$ 180 mil para jogar torneio no lugar do clube, oriundo de projeto social em Palmas

Jogador do Vitória ajuda atleta do Imagine que se machucou durante a partida válida pela Copa SP de Juniores
Rodrigo Gazzanel/Futura Press
Jogador do Vitória ajuda atleta do Imagine que se machucou durante a partida válida pela Copa SP de Juniores

Entre os 104 inscritos na 45ª edição da Copa São Paulo de Juniores, um participante tem nome atípico para um clube de futebol. Nada de América, Atlético ou qualquer referência à cidade natal. O representante do Tocantins no torneio sub 20 se chama Imagine. O curioso que recorre à internet em busca de mais informações acha poucas referências. Por isso, não imagina quantas histórias de superação podem estar nascendo graças à agremiação.

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Criado em 2008, o clube é parte de um projeto em Palmas chamado Sementes do Esporte, que tenta afastar adolescentes das drogas e do ócio por meio do futebol. No ano seguinte, com 200 garotos querendo algo além dos treinos com bola, Paulo Cezar Kraemer, idealizador do programa, resolveu criar um clube-empresa: o Imagine Futebol Clube Ltda., para disputar torneios nas categorias de base. Vice estadual sub 19 em 2012, ganhou convite para jogar a Copinha, já que o Ricanato, campeão tocantinense, abriu mão da vaga.

Disputar o principal torneio de base do país pela primeira vez, na visão de Kraemer, era o incentivo necessário para fortalecer o projeto e não perder mais garotos no braço de ferro com os traficantes. Mas houve quem quisesse corromper esse objetivo. Segundo o presidente do Imagine, empresários do Rio de Janeiro e de São Paulo o procuraram para comprar a vaga do clube na Copinha. Com isso, eles poderiam montar um time com seus agenciados e usar a competição como vitrine para futuros negócios. A maior oferta que recebeu foi de R$ 180 mil. "É mais do que o meu orçamento anual", revelou ao iG Esporte .

Vitória massacra Imagine-TO e aplica goleada histórica de 12 a 0 na Copinha

A tentação foi grande, mas Kraemer recusou. "Se eu aceitasse, todo meu discurso montado nos últimos quatro anos iria por água abaixo. Embora me falte dinheiro para tocar o projeto, não vendi a vaga nem coloquei jogador de empresário. Todos do time saíram do nosso projeto. Precisava correr esse risco, um risco calculado, para ter visibilidade na Copa São Paulo", explicou.

Kraemer diz gastar cerca de R$ 150 mil por ano com o Imagine. A fonte de renda é a clínica de radiologia odontológica (também chamada Imagine) que mantém em Palmas. Não há patrocínio ou parceria. Para a Copinha, a Fundação Municipal de Esportes e Lazer custeou o uniforme. O local de treino é cedido pela prefeitura, o Complexo Esportivo da Área 51, um espaço público, mas com manutenção bancada pelo clube.

Lance do jogo entre Vitória e Imagine-TO pela Copa SP: 12 a 0 para os baianos, maior goleada do torneio até a segunda rodada
Rodrigo Gazzanel/Futura Press
Lance do jogo entre Vitória e Imagine-TO pela Copa SP: 12 a 0 para os baianos, maior goleada do torneio até a segunda rodada

"É obrigação do estado investir na área social. Eu faço o que o estado deveria estar fazendo de forma mais efetiva. Muitos não acreditam na força que o esporte tem na socialização. Não vou me referir a atletas, mas a pessoas. Perdemos muita gente para as drogas, o crack é uma epidemia que está matando uma geração em todo o país, mas também salvamos muita gente. Seria ótimo se os governos fossem tão eficientes quanto os traficantes no nível de convencimento de pessoas", disse o presidente do clube, que preferiu não expor a trajetória de alguns de seus jogadores que estão no torneio.

A pergunta óbvia: por que o clube se chama Imagine? "Sempre me perguntam se John Lennon inspirou o nome, por causa de 'Imagine'. A música fala sobre sonhos também, mas nossa intenção é mostrar o que nos move. Imaginar. Sonhar. Tudo o que você quer na vida é fruto de um sonho. A gente quer servir de exemplo", filosofa Kraemer, que também atua como massagista e, quando necessário, cozinheiro do time.

Se fora de campo o projeto é inspirador, com bola rolando o Imagine ainda tem muito o que sonhar. O time sofreu as duas maiores goleadas da Copinha até a segunda rodada: 9 a 0 para o Flamengo-SP e 12 a 0 diante do Vitória. Sem chances de classificação, encerra a participação no torneio neste sábado, às 14h (de Brasília), contra o Juventus, em Guarulhos. "Fez a diferença o extracampo, o físico, o tamanho. Perto dos meus, os outros parecem jogadores de basquete", justifica Kraemer. Uma curiosidade: o técnico, John Hebert, tem 20 anos, a mesma idade que alguns de seus comandados - ele era jogador profissional até o ano passado, quando recebeu proposta para coordenar as categorias de base do clube.

As derrotas acachapantes não têm sido um problema para o Imagine, se levar em conta que muitos garotos viram no futebol uma chance de recuperar a autoestima. "Quanto ao fator psicológico temos um bom contato com eles, conseguimos fazer com que fiquem de cabeça erguida após os jogos. Três deles já receberam contatos de outros clubes por causa da Copa São Paulo. As pessoas se atêm muito aos números, infelizmente. Mas vamos superar essas dificuldades (de inferioridade em campo) um dia", acredita Kraemer.

O próximo sonho do presidente do Imagine é ter uma estrutura própria para almejar saltos maiores, como figurar na elite do Campeonato Tocantinense, projeto para depois de 2016. "Seguiremos em busca de parceiros para investir na formação de atletas. Preciso fazer do futebol uma ferramenta financeira também, já que o clube é uma empresa. Precisamos ter uma sede própria. Sem isso seria suicídio (jogar a Primeira Divisão)."

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