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Atletas contestam penas brandas, como multas e estádios fechados, e cobram mais rigor das autoridades do futebol

Paulão, zagueiro do Bétis
Divulgação
Paulão, zagueiro do Bétis

O dia 24 de novembro de 2013 está marcado na memória de Paulão, zagueiro brasileiro que defende o Bétis. Não pelo fato de ele ter sido expulso e deixado sua equipe com um a menos na goleada sofrida diante do Sevilla por 4 a 0, em duelo pelo Campeonato Espanhol. Mas pela manifestação racista que ouviu de alguns torcedores de seu próprio time quando deixava o campo após o cartão.

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"No momento, não percebi que os insultos eram para mim", disse ao iG o zagueiro de 31 anos, referindo-se aos xingamentos e imitações de macacos que ouviu. "Eu estava chateado por deixar meu time com um homem a menos em campo. Só depois que fui ver aquela cena lamentável que aconteceu. Aí a ficha caiu", completou.

Paulão conta que jamais tinha passado por algo parecido antes e entende que foi a manifestação de uma minoria. "Para 95% da torcida do Bétis, sou bastante querido. Me apoiam bastante aqui", afirmou.

Mas ele está longe de ser o único alvo de racismo no futebol mundial. No último final de semana, por exemplo, Roma e Inter de Milão foram multadas em aproximadamente R$ 160 mil e terão parte de suas arquibancadas fechadas nas duas próximas vezes que atuarem como mandante. Punição semelhante receberam o grego Olympiacos e o russo Zenit por causa do comportamento dos seus torcedores em jogo pela Liga dos Campeões.

Os casos se repetem, e a pergunta também: esse tipo de punição é suficiente para combater o racismo no futebol? Para o presidente da Fifa, Joseph Blatter, não é. Após o episódio envolvendo Paulão, Blatter se manifestou através do Twitter . Disse ter se sentido enojado pelo que aconteceu e fez uma promessa: “Os membros da Fifa aprovaram uma resolução no congresso em maio para combate a discriminação. É hora de sanções mais duras. E vou repetir: é sem sentido multar para lutar contra o racismo. Isso deve ser combatido por todos os organizadores de competições”.

Bandeira da Uefa antes de jogo pela Liga dos Campeões pede fim do racismo
Getty Images
Bandeira da Uefa antes de jogo pela Liga dos Campeões pede fim do racismo

A opinião é a mesma de Carlão, zagueiro revelado pelo Corinthians que hoje atua no futebol francês pelo Sochaux. "Acho que as punições são muito leves", opinou o defensor de 27 anos, que diz nunca ter sofrido com o racismo, embora reconheça o tamanho do problema. "Para parar, seria preciso punir de maneira mais severa. Não sei exatamente como, mas pagar 20 ou 30 mil euros não é nada para os clubes".

Quem passou por isso também acha que multar clubes de nada adianta e que as sanções devem ser aplicadas diretamente ao agressor. "O clube não tem nada a ver com o torcedor que vai ao estádio fazer esse tipo de coisa", disse Paulão. "Se fosse, assim, deveriam vender ingressos perguntando aos compradores se eles gostam ou não de negros. As pessoas é que devem ser punidas. Hoje as câmeras conseguem identificar quem se comporta de maneira racista nos estádios", completou.

Entre as ações propostas pela Fifa no congresso citado por Blatter estão penas mais leves, como multas, advertências e jogos em estádios sem torcida, e sanções mais duras, para reincidentes, como a perda de pontos e até expulsão do campeonato. Se os protagonistas do ato racista forem jogadores ou árbitros, a proposta é a suspensão por até cinco partidas.

Boicote à Copa de 2018

Enquanto são discutidas penas eficazes contra o racismo, um jogador tratou recentemente de pressionar ainda mais as entidades que organizam competições ao redor do mundo. Yaya Touré, volante marfinense que atua no Manchester City, foi alvo de manifestações preconceituosas na Rússia, aonde foi com seu time para enfrentar o CSKA Moscou, em compromisso pela Liga dos Campeões. 

Yaya Toure em ação pelo Manchester City. Marfinense foi alvo de racismo em jogo na Rússia
JOSE JORDAN - AFP
Yaya Toure em ação pelo Manchester City. Marfinense foi alvo de racismo em jogo na Rússia

A punição da Uefa ao time russo foi a imposição de um jogo com estádio "parcialmente fechado" pela competição. Touré não acha que foi o bastante e fez uma ameaça: se providências não forem tomadas para acabar com os cantos racistas dos torcedores na Rússia, a consequência pode ser um boicote dos jogadores negros à Copa do Mundo de 2018, que terá aquele país como sede.

"É uma ideia interessante", comentou Fernandinho, volante brasileiro que atua ao lado de Yaya Touré no Manchester City e viu de perto o episódio na Rússia. "Se a Fifa não tomar providência, acho que seria legal (fazer o boicote) para acabar de vez com o racismo. Sem dúvida eu apoiaria essa atitude", completou o atleta de 28 anos, que se destacou no Brasil pelo Atlético-PR.

Paulão também aprova a ideia. "Se ele (Yaya Touré) falou isso é porque passou por uma situação muito triste. Ele sentiu na pele, então tem razão ao tentar fazer as pessoas botarem a mão na consciência. Apoiaria esse boicote, sem dúvida", comentou o zagueiro do Bétis.

A Copa do Mundo é organizada pela Fifa, mas Touré quer um maior rigor também da Uefa com relação ao racismo. Após o episódio na Rússia, o volante marfinense foi questionado sobre qual seria a medida ideal a ser adotada nestes casos. "Talvez banir o estádio por dois meses ou por dois anos, não sei", respondeu. "É preciso ser o mais forte possível, ou então coisas assim continuarão acontecendo. Precisamos parar com isso agora."

A pena ideal para se acabar de vez com o racismo no futebol ainda causa discussão entre os jogadores. Eles têm visões diferentes sobre qual seria a punição que causaria efeito, mas pressionam as entidades responsáveis para que uma solução seja alcançada o mais rápido possível. Tudo porque têm algo muito bem definido em suas visões: o que existe hoje não está dando certo. 

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