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Há quase um ano limpa, ex-jogadora fala ao iG Esporte o drama que viveu após ser presa e passar apenas um mês na clínica de habilitação. Escolinha de futebol foi "combustível"

Bebel posa para a reportagem do iG ao lado de casa, fala das drogas e e ainda quer lançar um livro
Aretha Martins/iG
Bebel posa para a reportagem do iG ao lado de casa, fala das drogas e e ainda quer lançar um livro

Quase dois anos depois de ser presa por tentativa de furto e posse de drogas, Stephane Gomes, conhecida como Bebel, ex-jogadora de futebol do Santos e da seleção brasileira, tenta reconstruir a vida devastada pelo crack. Após diversas recaídas e o abandono dos gramados, ela encara cada dia como uma batalha para manter-se "limpa" e realizar o sonho de ter uma escolinha de futebol.

Bebel alega que Santos sabia que ela usava drogas: 'Eles foram negligentes'

Longe das drogas há quase um ano, Bebel não esquece os cinco dias intermináveis que passou na Penitenciária Feminina de Tremembé, em fevereiro de 2012. No entanto, eles não foram suficientes para mantê-la longe do vício. A compulsividade fez a ex-atleta sucumbir e voltar ao mundo obscuro do crack. Foram duas recaídas, várias noites vagando pelas ruas com bandidos e traficantes e o risco diário de ser detida pela polícia novamente.

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Bebel faz parte de uma estatística alarmante no País. De acordo com uma pesquisa recente, encomendada pela Senad (Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas) e realizada pela Fundação Oswaldo Cruz, o crack é usado por 35% dos consumidores de drogas ilícitas nas capitais brasileiras. Na região Sudeste, por exemplo, há 113 mil usuários de drogas.

A ex-Sereia da Vila responde até hoje pelo flagrante do ano passado, mas sequer pensava nisso quando o desejo de "dar um trago" era maior. No inconsciente, ela sabia do perigo que estava correndo, porém, a vontade de usar o crack a tornava irracional. Os pais chegaram a colocar a casa à venda para afastá-la do ambiente ruim. Não precisou. Ela reencontrou sua fortaleza justamente onde tudo começou: no futebol.

Bebel abriu as portas de sua casa, na Penha, na zona leste de São Paulo, e recebeu o iG Esporte para um bate-papo. Com o semblante rejuvenescido, ela exibe pequenos cortes nas mãos, que diferentemente de dois anos atrás, são consequências de um “bico” que faz em uma padaria, onde tem a incumbência de cortar frios todas as manhãs. É o que a ajuda a se manter longe da dependência.

A internação no interior de São Paulo

Bebel foi presa no dia 7 de fevereiro de 2012, depois de uma tentativa de furto. Na ocasião, ela confessou ser usuária de drogas e, um mês depois, recebeu ajuda para iniciar o tratamento de desintoxicação no Centro de Tratamento Araçoiaba, em Araçoiaba da Serra, a 120 quilômetros da capital paulista. Apesar de ter até mais privilégios que os outros pacientes, permaneceu lá por apenas um mês e não conseguiu ter o tratamento adequado por ser tratada como “uma garota propaganda” da casa, segundo ela.

“Eles me ajudaram a ficar limpa um mês. Mas eu não tive o tratamento correto porque não tinha tempo. Eram muitos compromissos, eu tinha de tirar foto, ir ao cabeleireiro, tinha de vir para São Paulo para inaugurar um parque aquático...”, afirmou.

A primeira recaída, ida para Salto (SP) e segunda recaída

A primeira recaída de Bebel aconteceu logo depois de ela deixar o CT Araçoiaba, em abril de 2012. “Depois que saí da clínica, tive uma recaída. Eu acho que fiquei umas duas semanas na recaída. Foi um momento difícil, que ali eu me perguntei: ‘Putz, será que eu vou conseguir?’. Foi um momento crucial na minha vida”.

Após 21 dias na rua, em maio, a ex-atleta resolveu se isolar em Salto, uma cidade no interior de São Paulo, a 104 quilômetros da capital, e morar com uma amiga. Foram sete meses na cidade e cinco longe das drogas. Em novembro, veio a segunda recaída.

As noites usando drogas

Bebel teve recaídas do crack e agora tenta se manter limpa
Aretha Martins/iG
Bebel teve recaídas do crack e agora tenta se manter limpa

Ela passava dias longe de casa. “Como aqui foi o lugar onde eu usei muito, quando eu botei o pé aqui o que era normal para mim era ir para a favela e usar droga. A minha droga de preferência era o crack. Passava muita fome, muito frio, eu convivia com pessoas de alta periculosidade. Assassinos, estupradores, assaltantes, matador de polícia. Eu usava o crack e sabia que poderia levar uma facada. Eu falava assim: ‘Agora eu vou embora’, aí eu chegava na esquina de casa e sempre tinha um cara para falar ‘Bebel, vamos dar um trago’, aí eu não voltava mais para casa. Aí eu passava mais dois ou três dias fora da minha casa, sem comer, sem tomar banho, sem tomar água, só usando o crack. Quando eu voltava para a minha casa, eu tinha vergonha. No estado que eu estava, eu não tinha coragem de olhar para a minha mãe. Eu entrava, subia, tomava banho e ficava no meu quarto dois dias diretos. Eu só levantava para comer e voltava”, relatou.

As consequências da droga

Bebel sempre se recusou a tomar remédios para se livrar da droga. Alegava que não queria ser dependente do medicamento como era do crack. Quando tentava se manter longe da droga ou usava em excesso, tinha alucinações e pensava em tirar a própria vida.

“Eu passei três meses dentro de casa, eu sentia dores no corpo, vomitava, sangrava e desencadeei a síndrome do pânico. Foi uma loucura Eu chorei muito, fiquei muito depressiva, pensei em me matar várias vezes. Eu não tinha certeza que ia conseguir sair”, disse.

Escolinha de Futebol

Depois de passar as festas ao lado da família, em janeiro deste ano, Bebel aceitou o convite para treinar a criançada – cerca de 60 –  do bairro e montar uma espécie de escolinha no campo perto de casa. O projeto foi um sucesso até que a Vara de Infância e Juventude proibiu que as atividades continuassem.

“Eu sempre pensei em jogar futebol, mas nunca pensei em passar o que aprendi para as outras pessoas. Quando comecei a escolinha, era época de férias (escolares), e eu dava treino todos os dias, de domingo a domingo. Isso me ajudou muito. Eu não saia da minha casa para nada. Quando eu chegava no campo e dava aquela vontade, eles (alunos) me ajudavam muito. Eles foram importantes em minha recuperação e sinto falta deles”, declarou.

“No começo, eu me questionava: por que estava fazendo tudo certo e não ia para a frente? Eu acho que Deus tem um propósito muito maior na minha vida. Se não é para dar certo agora, mais para frente isso pode tomar uma proporção maior. Eu não tenho mais pressa para que as coisas aconteçam. As coisas não são no meu tempo, é no tempo de Deus, no tempo da vida. Não adianta atropelar as coisas, porque elas acabam não dando certo”, completou.

Projetos para o futuro

Depois que deixou a clínica, Bebel tentou voltar ao futebol. Passou pelo Juventus, pela Portuguesa, jogou futsal no Palmeiras e na Sabesp, que tinha uma parceira com o São Bernardo. Porém, uma lesão no dedinho do pé a forçou a parar. “Tentaram me tirar o futebol e ele é a minha vida. Eu respiro futebol, eu durmo futebol, eu acordo futebol. Tudo é futebol. Mesmo eu não estando jogando, as pessoas me reconhecem como a Bebel jogadora. Eu não vou tirar isso das pessoas, porque eu conquistei. Hoje eu até penso em voltar a jogar, mas eu tenho um projeto maior na minha vida que é eu ter a minha própria escolinha”, disse ela, que também pretende escrever um livro para contar tudo o que tem vivido.

Assista à entrevista exclusiva com ex-jogadora Bebel:

* vídeo: imagens de Aretha Martins e Gabriela Chabatura e edição de Aretha Martins

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