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Em entrevista exclusiva, agora ex-treinador do Corinthians mostrou raiva com Carlos Amarilla na saída da Libertadores e falou que foi procurado por país sul-americano nas Eliminatórias

Tite, agora ex-técnico do Corinthians
Djalma Vassão/Gazeta Press
Tite, agora ex-técnico do Corinthians

Os olhos demonstravam cansaço. A boca, no entanto, dificilmente não sorria. Esses foram os últimos dias de Tite como técnico do Corinthians : de bem com a vida e com o trabalho cumprido. Sem rabo preso com ninguém, o treinador fez um balanço de sua última temporada no clube do Parque São Jorge. E mostrou que ainda não engoliu, e dificilmente irá, a eliminação da Copa Libertadores para o Boca Juniors em pleno Pacaembu.

Acha que Tite deveria ter uma chance na seleção brasileira após a Copa? Comente

“De arbitragem, foi a maior sacanagem que eu... Prefiro encontrar adjetivo para aquele jogo e falar que foi sujo, no escuro, é o mínimo que a gente pode falar”, disse o treinador sobre a queda diante do Boca. Na ocasião, três erros da arbitragem do colombiano Carlos Amarilla determinaram o empate por 1 a 1 no Pacaembu, placar que tirou os corintianos do torneio continental.

Fora do Corinthians oficialmente desde o último sábado, quando o time perdeu para o Náutico pela última rodada do Brasileirão, Tite recebeu a reportagem do iG Esporte para uma entrevista exclusiva no CT Joaquim Grava na quinta-feira passada. Além de relembrar os feitos de Amarilla, o agora ex-técnico falou que se recusou a trocar a equipe paulista por uma seleção sul-americana que virá ao Brasil disputar a Copa do Mundo de 2014.

Disse ainda ser impossível um treinador superar quatro anos à frente de um mesmo time no País e que precisará de bastante tempo para se desvincular do Corinthians e poder assumir algum rival.

Confira abaixo os principais pontos da conversa entre Tite e o iG Esporte:

iG Esporte: Você deixa o Corinthians muito mais por desgaste do que por resultados ruins neste ano. O mesmo aconteceu com o Muricy Ramalho no São Paulo em 2009. Por que no Brasil o prazo de validade dos técnicos é de três ou quatro anos? Por que não temos aqui um Alex Ferguson?
Tite: A gente tem que respeitar as características de cada país e dos clubes. Ninguém vai dar, e pra mim não deve dar, a um técnico no Brasil poderes de manager e um orçamento de xis milhões e com isso tu vai olhar atletas e trazer ao teu juízo. Não funciona assim no Brasil, só para te dar um exemplo. Funciona no Brasil é tu ter um dirigente comandante que é das origens do clube, porque isso é a paixão do torcedor, e depois traz um profissional, um gerente de futebol que faça esse link com a comissão técnica.

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Então, não dá pra ter. São situações, posições diferentes. O técnico, o Ferguson, ele dá ao auxiliar técnico a semana toda de trabalho. Ele só vai lá, dá a palestra e interage em algum trabalho pontual. Isso não é da nossa cultura. E por que eu falo isso? Porque isso diminui os desgastes. Aqui o técnico é exposto demais nesse aspecto. Mídia às vezes demais. Uma vez por semana lá e tu não vê mais o pessoal. Aqui é terça, sexta. Mais o jogo, quarta e domingo. A figura do técnico fica bastante exposta.

iG Esporte: Você considera o episódio do Tolima decisivo para mudar a direção de sua carreira?
Tite: A gente aprende em todas as situações, ganhando ou perdendo. Da mesma forma que foi um grande baque, um grande trauma, foi uma grande oportunidade também. Para o Corinthians demonstrar que tem um bom profissional dentro do clube. Tu preservou esse profissional, deu tranquilidade e confiança a ele e ele contribuiu para todos os títulos de Libertadores e Mundial que nunca tinha tido. Mostra a ele, enquanto técnico, que a perseverança em momentos difíceis é fundamental para que tu possa crescer profissionalmente. E para a classe isso é legal. O Corinthians deu mostras e o Tite deu mostras.

iG Esporte: Você disse, quando retornou ao Corinthians em 2010, que estava retomando um trabalho interrompido em 2005. Tem algum outro clube que você tenha saído com esse sentimento?
Tite: (pensando)

iG Esporte: Palmeiras, por exemplo...
Tite: Eu gostaria muito de ter terminado meu trabalho no Palmeiras. Eu gostaria muito de ter terminado meu trabalho no Internacional. Eu gostaria muito de ter terminado meu trabalho no São Caetano. São situações, mas que acabam acontecendo. O Atlético-MG eu gostaria muito de ter pego a equipe treinando desde o Campeonato Mineiro, porque aí conseguiria formar a equipe para o Brasileiro. Mas ao mesmo tempo são todos aprendizados que tu acaba carregando e daqui a pouco só foi ser esse profissional porque passou por essas experiências. E eu também amadureci para chegar bem no Corinthians e ter conquistado esses títulos. Então, é da vida.

iG Esporte: Você voltaria para qualquer um destes clubes?
Tite: Com o devido tempo para me desvoncular profissionalmente daqui voltaria, sim.

iG Esporte: E qual seria o tempo necessário para poder voltar a treinar um clube de São Paulo, um grande rival do Corinthians?
Tite: É difícil falar isso. É muito difícil falar isso. Eu não tenho a dimensão. A gente não te, resposta para tudo, cara, e eu não tenho essa resposta. Palavra de honra. A gente não precisa ter opinião sempre e resposta para tudo. Eu só posso dizer que é muito difícil por tudo que foi trabalhado e da forma com que foi... Não sei te responder.

iG Esporte: E seleção brasileira?
Tite: Passa a ser uma realidade na medida em que todos os trabalhos me credenciaram e trouxeram para o patamar de ser um dos cinco ou seis técnicos que, quando chegar na metade do ano e se o Felipe não continuar... O Tite vai estar naquele bolo de técnicos que pode ser.

iG Esporte: E até lá o Tite vai estar ainda descansando?
Tite: (risos) Não, eu acho que não. Eu estou negociando com a minha esposa e estou aproveitando cada entrevista para dar um ‘piu’ para ela. Mais do que um ‘piu’, uma mensagem: “Não espera muito tempo que tu vai ter um cara em casa e vai ser difícil tu aguentar” (risos). Mas eu estou articulando. Tem algumas coisas que eu tenho que fazer, ser o lado do pai, visitar os dois filhos e ter o lado de filho e visitar minha mãe.

Tite foi homenageado em sua última partida no comando do Corinthians no Pacaembu
Gazeta Press
Tite foi homenageado em sua última partida no comando do Corinthians no Pacaembu

iG Esporte: Mas você pensa em voltar a trabalhar já no começo do ano que vem?
Tite: Ela fala em três meses no mínimo, senão eu vou arrumar um divórcio (risos).

iG Esporte: Tem Copa do Mundo aí e sempre tem um treinador brasileiro dirigindo alguma seleção menor. Isso passa pela sua cabeça? Você aceitaria uma eventual proposta desse tipo?
Tite: Agora, acredito que é muito difícil. Teve uma possibilidade durante as Eliminatórias aqui e foram conversar com o Gilmar e ver se tinha a possibilidade de saída do Corinthians. Uma estava disputando a eliminatória sul-americana e não estava muito bem, mas não quero falar o nome.

iG Esporte: Mas vai vir para a Copa?
Tite: (pensando) Agora fiquei em dúvida. Quais que classificaram?

iG Esporte: Uruguai, Colômbia, Equador, Chile e Argentina.
Tite: Sim. Era uma dessas cinco aí (risos). E não era a Argentina.

iG Esporte: Mas você pensaria em assumir uma seleção menor apenas para participar do Mundial?
Tite: É uma coisa que eu não tinha pensado. Seria uma coisa inédita.

iG Esporte: Há quatro anos o Parreira era técnico da África do Sul, por exemplo.
Tite: País-sede...

iG Esporte: Mas com pouquíssimas chances de ganhar.
Tite: Mas o ganhar para a África do Sul seria passar de fase. Seria um título. Eu tava à mercê do Mundial de Clube com o Al-Wahda e sabia que nós passássemos da primeira partida contra um time da Oceania o sheik já ia dar cambalhotas (risos). Às vezes o ganhar um título pode ser uma simples passagem de fase com a dimensão de cada país.

Meus olhos, eles sabem quando tem má fé, quando tem sacanagem, quando é de escuro, quando é do lado negro da coisa

iG Esporte: E algum clube grande da Europa, já passou pela sua cabeça?
Tite: Tem que ter o domínio da língua. É um pré-requisito básico. Não adianta eu querer me iludir. Inglês não vai, eu não vou treinar. Espanhol pode ser. Italiano pode ser. Porque eu compreendo. Italiano eu tenho origem e a fluência pode vir com um curso, já que eu tenho certo dominio, mais do que o próprio espanhol. Mas, de resto...

iG Esporte: Você tem algum arrependimento nessa sua passagem pelo Corinthians?
Tite: (pensando) As pessoas tem me perguntado e eu tenho até cavocado pra ver se eu me arrependo de alguma coisa, cara (pensando). Eu disse que a única coisa que eu queria modificar era poder ter ajudado mais o Adriano, fazer com que ele aceitasse ajuda especializada, e não ter participado do jogo em Oruro. Eu queria que não houvesse o jogo, que uma borrachinha apagasse. Arrepender é algo que tu fez e queria fazer de forma diferente. Alguma coisa que eu fiz... (pensando) Coisa pequena eu tenho. Às vezes reclamei de árbitro sem ter razão... Em compensação aguentei e não reclamei uma porrada de outros que erraram e mereciam (risos). Cara, eu não me lembro de arrependimento. Se alguma coisa eu fiz de errado, e é claro que fiz, não foi com intenção.

iG Esporte: Você falou sobre árbitros. Aquele jogo do Boca é a maior frutração que você teve neste ano?
Tite: Em termos de arbitragem, sim. Eu até ia falar, mas deixa quieto... (pensando) De arbitragem, foi a maior sacanagem que eu... Prefiro encontrar adjetivo para aquele jogo e falar que foi sujo, no escuro, é o mínimo que a gente pode falar.

iG Esporte: Você acredita em má fé?
Tite: (pensando) Eu não posso provar e seu eu te falar eu posso tomar um processo. Eu só quero dizer o seguinte: que os meus olhos, eles sabem quando tem má fé, quando tem sacanagem, quando é de escuro, quando é do lado negro da coisa. Os meus olhos sabem. E eu tenho um conceito muito claro daquele jogo. Meu, particular, eu tenho.