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Regiani Ritter foi a primeira a trabalhar no vestiário dos clubes e entrevistava jogadores até tomando banho

O futebol nem sempre foi organizado com coletiva de técnicos e jogadores após treinos e partidas. Até o final dos anos 90, por exemplo, era comum repórteres, câmeras e auxiliares entrarem nos vestiário e entrevistar os atletas até no chuveiro. E algumas das mulheres pioneiras no jornalismo esportivo também estavam ali para fazer o seu trabalho, mesmo que o jogador estive completamente nu a sua frente. “Na primeira vez, todo mundo correu. Só o Casagrande ficou. Ele me deu a entrevista peladinho”, diz Regiani Ritter.

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A radialista fala que pode não ter sido a primeira mulher em campo, mas acha que foi a primeira a entrar no vestiário. E sua “estreia” foi em uma tentativa de escapar da ira da torcida. O jogo era São Paulo x Coritiba e torcedores começaram a atirar objetos no gramado. Regiani entrevistava o técnico Cilinho e foi arrastada por ele para o vestiário, para que eles se protegessem.

“Não tinha um que não estivesse pelado. Quando me viraram, colocaram a mão na frente. Quando decidiram que não poderiam ficar a tarde inteira ali me olhando, viraram para sair correndo e demoravam uns dois segundos para lembrar de tampar a parte de trás”, diverte-se Regiani. E naquele dia, Casagrande não fugiu como os outros. “Ele ficou e acho que foi até para mostrar que aquilo era natural, mesmo não sendo”, comentou.

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Colocava meu cinegrafista na frente e me escondia atrás dele. Se todos estivessem vestidos, eu falava com eles (Lia Benthien)

Regiani está na ala daquelas que defendem que era preciso estar nos vestiários para conseguir as melhores matérias. “Eu ia para debaixo do chuveiro porque estava ao vivo na rádio e não dava para esperar. Quando esperava eles se arrumarem, as estralas já tinham ido embora”, explica. “Se não entrasse, perdia o melhor da festa”, concorda Lia Benthien, que foi repórter de esportes da TV Cultura.

Mas existia todo um método para invadir o ambiente masculino. “Colocava meu cinegrafista na frente e me escondia atrás dele. Se todos estivessem vestidos, eu saia e falava com eles. Se não, esperava na porta e pedia para o cinegrafista ou alguém chamar”, conta. “Eu olhava só para cima ou para o teto. Graças a Deus eu sou baixinha e o Casagrande era bem alto. Não corria o risco de olhar para baixo”, brinca Regiani.

“Expulsa” por conselheiro e resgatada pelo presidente

No começo, a situação era estranha para todos. Com o tempo, jornalistas e jogadores se acostumaram a dividir aquele espaço. Regiani Ritter trabalhou como setorista do São Paulo e era figura já esperada nos vestiários. Entretanto, um conselheiro que não a conhecia a expulsou do local após um jogo. Ela lembra que saiu e encontrou com Carlos Caboclo, que era diretor do time, e ele estranhou ela estar ali, do lado de fora. Caboclo chamou o presidente são-paulino, Carlos Miguel Aidar, para entender a situação.

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“O presidente veio falar comigo e queria que eu voltasse e eu disse não, mas mostrei quem era o cara. O Aidar foi atrás dele e brigou de colocar o dedo no rosto. Depois, o tal conselheiro veio me pedir perdão quase chorando e me ofereceu uma garrafa de vinho. Respondi: ‘Esse é o preço das mulheres da sua família? Porque as da minha não tem preço’”, relata Regiani.

Depois da confusão, a jornalista deixou de cobrir São Paulo e foi para outros clubes da capital. Alguns dias depois, ela foi ao antigo time apenas para conversar com jogadores e ouviu que eles queriam sua volta. “Tinha um movimento liderado pelo Careca porque queriam que eu voltasse para não ficar a impressão de que eram os jogadores que não me queriam mais ali. Depois, o Nelsinho [antigo lateral-esquerdo dos anos 80] ligou na redação perguntando quando eu ia voltar. Eu aceitei fazer São Paulo de novo e o conselheiro nunca mais apareceu”, explica.

Entretanto, esse assunto gerou polêmica e nem todas as pioneiras defendiam a necessidade de falar com os jogadores debaixo do chuveiro, por exemplo. “Eu nunca entrei no vestiário e nunca levei furo ou deixei de cobrir alguma coisa por isso. Os jogadores vinham falar conosco na porta ou em uma antessala”, afirma Isabela Scalabrini, da Globo .

“Eu não entrava e acho que aos poucos a gente até colaborou. Eles sabiam que tinha mulher e ficavam mais comedidos, não era toda aquela confusão”, completa Kitty Balieiro, também da Globo

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