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Hoje as mulheres da imprensa marcam presença no gramado, nas redações e nos debates esportivos da TV. Há 30 ou 40 anos, porém, isso causava estranheza no público e até nos colegas jornalistas

Era década 1970, e algo que hoje é comum provocava reações diversas: uma voz feminina falando sobre futebol no rádio. Mais tarde, nos anos 1980, as primeiras mulheres repórteres chegavam também às emissoras de televisão e ainda causavam estranheza. “O que você está fazendo aí no campo? Só foi paquerar?”, gritava a torcida para as jornalistas. Hoje, 40 anos depois, o cenário é outro, e as mulheres estão nas redações, com o microfone na mão nos campos de futebol e até no comando de programas esportivos. Mas, para demarcar o território, as pioneiras tiveram que superar preconceito, cantada de jogador e até boicote de colegas.

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Regiani Ritter, dona de uma voz famosa no rádio na década de 1970, teve que enfrentar o superintendente da Gazeta para assegurar sua estreia. Ela lembra que já trabalhava com futebol – sempre cobriu a modalidade – e acompanhava treinos quando finalmente foi escalada para um jogo. Porém, seu nome foi riscado da escala no dia seguinte. A justificativa do chefe? “A informação esportiva perderia credibilidade na voz de uma mulher no rádio”, conta Regiani. “Fui até ele e respondi: ‘A Lilian Witte Fibe pode falar de economia e eu não posso falar de bolinha rolando?”. Mais tarde, ao cobrir férias de um colega, a repórter fez a sua primeira matéria nos gramados.

Kitty Balieiro ao lado de Bellini na década de 80
Arquivo pessoal
Kitty Balieiro ao lado de Bellini na década de 80

Conquistado o espaço inicial, o preconceito não desapareceu. “Sentia um pouco de preconceito na rua, no técnico, nos jogadores e até nos colegas. Parecia que estava sendo testada o tempo todo”, afirma Lia Benthien, pioneira da TV Cultura . Já Isabela Scalabrini, primeira mulher na Globo do Rio de Janeiro e hoje apresentadora na filial da emissora em Minas Gerais, sofria mais com a torcida. “Quando entrava em campo, ouvia assobios e muitas bobagens, como que estava ali para paquerar. Mas isso nunca de um jogador”, conta.

Kitty Balieiro, a estreante no esporte da Globo em São Paulo, também diz não ter tido problemas com jogadores e técnicos e lembra que até recebeu ajuda de alguns deles. Afinal, era habitual os repórteres entrarem nos vestiários após os jogos, muitas vezes cruzando com atletas sem roupa. Kitty ficava do lado de fora para evitar situações embaraçosas. “O Cilinho era técnico do São Paulo (na década de 1980) e foi o primeiro a falar para deixar a porta aberta do vestiário para os jogadores saírem e falarem comigo porque eu estava trabalhando”, conta. “O Telê Santana também sempre reforçou que a presença da mulher deveria ser respeitada”, continua.

Bati na porta e o Maradona saiu para falar comigo. A gente começou a conversar e ele me deu uma entrevista exclusiva (Isabela Scalabrini)

Ser mulher pode até ter facilitado uma das entrevistas mais marcantes de Isabela Scalabrini. Ela participou da cobertura da Copa do Mundo de 1986, no México, e era responsável por acompanhar a seleção da Argentina. Por lá também não era nada comum uma mulher cobrir futebol, mas ela superou qualquer desconfiança e deixou os homems para trás.

“Todo mundo ficou surpreso com uma mulher na concentração da Argentina. Perguntei para os repórteres onde estava o Maradona, se ele tinha ido treinar naquele dia. Deram umas risadinhas e disseram algo do tipo: ‘Sim, bate lá na porta que ele está de esperando, mocinha’. Eu fui e bati na porta e o Maradona saiu para falar comigo. Comentei que era do Brasil, que conhecia o Zico. A gente começou a conversar e ele me deu uma entrevista exclusiva, antes do treino. De repente, veio todo mundo atrás”, detalha Isabela.

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Entretanto, teve jogador que passou dos limites ao ver uma mulher como repórter de futebol. Regiani Ritter foi setorista do São Paulo e criou a rotina de entrevistar jogadores dentro do vestiário , sem problema com os peladões. Em um jogo contra o Grêmio , ela também teve que cobrir os visitantes e foi surpreendida no vestiário da equipe gaúcha.

“Entrei e encontrei o capitão do time. Ele estava pelado, me olhou e saiu. Voltou enrolado na toalha. Fiz as perguntas e agradeci. Quando estava saindo, ele perguntou meu nome. Eu me apresentei. Ele queria saber se continuaria trabalhando e disse que o time ficaria em São Paulo. Falei: ‘Ótimo, vou colocar na matéria’. O jogador perguntou se eu sabia algum lugar bom para jantar e ainda me convidou para sair”, lembra Regiani. “Respondi: ‘É claro que não. Já faço São Paulo há quase dois anos e nunca jantei com nenhum jogador. Jogador só me interessa profissionalmente’. Depois, virei as costas e foi embora”.

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A postura tinha que ser séria. As jornalistas defendem que precisavam ser até mais sérias do que os homens para conseguir o respeito “Tinha que manter a postura, não olhar como fã e mostrar que era até mais bem informada que os homens”, diz Kitty Balieiro. “Mas você pensa que não tive as minhas paixonites?”, brinca Regiani.

Olhares tortos e boicote no trabalho

Lia Benthien e o filho. Kauan era levado pela mãe aos estádios quando era criança e ela tinha que trabalhar
Arquivo pessoal
Lia Benthien e o filho. Kauan era levado pela mãe aos estádios quando era criança e ela tinha que trabalhar

Regiani Ritter fala que ainda teve que sobreviver a um boicote no trabalho. Ela também foi a primeira mulher repórter da seleção brasileira em uma Copa do Mundo, nos Estados Unidos, em 1994. Entretanto, relata que um colega de equipe passou os mais de 50 dias de cobertura tentando atrapalhá-la. “Nos treinos da seleção, por exemplo, ele me via indo na direção de um jogador e voava no atleta, pegava pelo braço, puxava a camisa pelas costas”, conta. “Ele só fazia isso porque era uma mulher. Ele não se conformou em perder o posto de repórter número um para uma mulher”, avalia.

Alguns colegas implicavam com a jornada dupla das mulheres. “Meu filho cansou de ir comigo para estádio. Com três ou quatro anos, ele sabia o hino de todos os times e todas as palavras de ordem da torcida”, fala Lia Benthien. “Na redação era como um tapa na cara. Você não via homem pedindo uma folga no final de semana. Eu era mãe e queria um final de semana com minha família. Eu pedia e escutava: ‘Ah, mulher é assim mesmo’”.

Ainda assim, Regiani, Lia, Isabela, Kitty e companhia não se intimidaram e construíram a carreira no esporte, sobretudo no futebol. “Eu abri as portas do que era o Clube do Bolinha. Mulher não entrava, não falava de futebol. Ou, se tentasse, saía rapidinho. Acho que abri as portas e as deixei abertas”, afirma Regiani Ritter, que tem um troféu batizado com seu nome na Aceesp (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo).