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A família já iniciou as negociações com o clube brasileiro em torno de uma indenização e espera por um novo contato do clube

Sentada ao lado do marido em um banco do Cemitério Parque de las Memórias, Carola Beltrán acompanhou atentamente a entrevista do marido Limbert. De acordo com cada pergunta, em silêncio, ela assentia ou balançava a cabeça negativamente, até pedir a palavra para contar o trauma do filho Jhojan Cristhian, 10 anos. A família já iniciou as negociações com o Corinthians em torno de uma indenização e espera por um novo contato do clube.

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"Um dia, o Jhojan estava fazendo a lição de casa e ouviu fogos de artifício. Ele tapou os ouvidos, começou a chorar e disse: 'não quero escutar, porque sei que foi uma coisa dessas que matou o meu irmão'. O único que pude fazer foi ligar a televisão, aumentar o volume, abraçar o meu filho e chorar junto com ele. O Jhojan é pequeno, mas as pessoas comentam, ele escuta na televisão e sabe que um fogo de artifício tirou a vida do irmão", contou Carola, com a voz trêmula e lágrimas nos olhos.

Com 14 anos, Kevin era o primogênito da família Beltrán e ajudava os pais na criação dos outros três irmãos. Na condição de segundo mais velho, Jhojan convivia intensamente com o garoto que morreu no último dia 20 de fevereiro ao ser atingido por um sinalizador lançado da torcida do Corinthians na partida contra o San José. Mais de um mês depois da tragédia, o menino ainda tem sérias dificuldades para dormir.

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"De alguma forma, meu filho ficou traumatizado, porque não consegue descansar mais tranquilo e pede para dormir sempre com a luz acesa. Talvez não queira demonstrar muito, porque nos vê chorando todos os dias. O Jhojan já me disse: 'mamãe, vocês choram e eu não consigo dormir. Acordo com qualquer barulho e o único que faço é pensar no meu irmão'. O Kevin organizava os menores para brincar e transmitia tudo que aprendia. Ele ensinava inglês, artes marciais e dança. Gostava muito de dançar", lembrou a mãe.

O casal Beltrán Espada, formado por dois professores, se considera de classe média baixa. Há pouco mais de suas semanas, Limbert conversou com um representante do Corinthians por telefone no primeiro contato oficial com o clube, propiciado pelo Consulado brasileiro. A conferência, intermediada por um intérprete, foi confusa e ele recusou a oferta de US$ 200 mil de indenização.

"O inconveniente foi que não encaixamos o mesmo diálogo em função da tradução. Não conseguimos esclarecer certas coisas. Na verdade, eu gostaria de ter um contato pessoal com um representante do Corinthians para conversar de forma clara e ainda estou aberto a um acordo. Eles falaram em um valor e eu disse que não me parecia adequado, mas não recusei o diálogo com o clube. Suponho que farão um novo contato conosco em breve", explicou o pai de Kevin.

Limbert garante que a prioridade da família é encontrar o culpado pela morte do filho e fazer com que o caso sirva para impedir que a tragédia se repita. Ainda assim, confirma o desejo de ser indenizado pelo Corinthians. Pelo porte do clube brasileiro, atual campeão do mundo e com faturamento crescendo significativamente a cada temporada, a oferta de US$ de 200 mil ficou abaixo do esperado pela família de Kevin, mas o pai não descarta aceitar a proposta se tiver uma nova chance.

"Não podemos obrigar que a solidariedade seja maior. Afinal, são eles os que estão sendo solidários, e não eu. Nosso objetivo sempre foi encontrar o responsável e conseguir uma punição para o mesmo. Além disso, esperamos que o que aconteceu abra um precedente para evitar novos casos. Obviamente, acredito que uma compensação econômica será feita posteriormente, de acordo com o progresso da questão legal", disse Limbert.

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