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Ex-atacante do São Caetano revela que já sofreu com drogas, por isso hoje trabalha com projeto social. Ele diz que por pouco não jogou no São Paulo: "Estava acertado verbalmente"

Adhemar ainda é o maior artilheiro da história do São Caetano com 68 gols anotados
Divulgação
Adhemar ainda é o maior artilheiro da história do São Caetano com 68 gols anotados

O São Caetano assombrou o futebol brasileiro no começo dos anos 2000 chegando a duas finais de Campeonato Brasileiro e a uma decisão de Libertadores, ficando com o vice-campeonato nas três oportunidades. E um dos nomes que brilharam no surpreendente Azulão daquela época foi o do atacante Adhemar - com 68 gols anotados, o ex-jogador é o maior artilheiro da história do clube.

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Pouca gente sabe, mas Adhemar, aos 40 anos de idade, chegou a tentar voltar ao futebol profissional em 2012 - ele tinha pendurado as chuteiras em 2006 -, firmando contrato com times modestos de Rio de Janeiro e São Paulo, mas não deu certo. O que deu certo mesmo foi sua passagem pela Alemanha , ainda que tenha sido curta. Na Europa, Adhemar ostenta o recorde de ser o primeiro estrangeiro a estrear na Bundesliga com 3 gols marcados.

Em entrevista exclusiva ao iG , o ex-jogador contou que atualmente tem um projeto social e esportivo na cidade de Porto Feliz, no interior paulista. No bate-papo, Adhemar lembrou algumas histórias da sua carreira no futebol e a sua quase ida para NFL , como kicker de futebol americano. "Um empresário veio para o Brasil e queria me ver chutando para ter certeza da potência. De 10 tentantivas, acertei 9. E todas de 50 jardas", contou.

Entre outros assuntos, Adhemar relembrou a polêmica final da Copa João Havelange de 2000, contra o Vasco , assegurou que não se sentre frustrado por não ter vestido a camisa da seleção brasileira, revelou que já teve problemas com drogas no começo da carreira e disse que soube da morte do zagueiro Serginho antes mesmo de ser veiculada na imprensa.

Confira a entrevista com Adhemar na íntegra :

iG: O que anda fazendo atualmente?
Adhemar: Tenho um projeto social há cinco anos que se chama "Bom de bola, bom na escola", aqui em Porto Feliz. Tem que ter média 7 na escola pra jogar aqui. Eu exijo 7 para que eles possam jogar e ganhar uniforme. O foco principal é formar cidadão, mas se for um jogador diferenciado a gente vê o que pode fazer.

iG: E esse projeto já rendeu algum fruto, algum jogador para time profissional?
Adhemar: Sim, nós temos dois jogadores que estão na base do Paulista de Jundiaí e que podem subir a qualquer momento.

iG: Você apareceu de vez no São Caetano com 28 anos de idade. Lamenta ter sido tão tarde?
Adhemar: Se você analisar, é comprovado cientificamente que esse é o auge da carreira do atleta, tanto na parte fisica quanto na psicologica. Eu fui viciado quando era jovem, tive problemas com drogas. Não lamento não. Se eu fosse para Alemanha muito jovem, por exemplo, era capaz de eu ter comprado uma Ferrari e hoje estaria morando embaixo de uma ponte.

iG: Em fevereiro 2012, você chegou a firmar contrato com o Serrano, do Rio de Janeiro, para jogar a 3ª divisão do estadual. Por que não deu certo?
Adhemar: Eu fiz um jogo lá só, uma partida amistosa. O clube não tinha dinheiro para dar de comer para os meninos, coitados. Não tinha nem mistura. E com que cara eu vou lá, os caras me pagam avião, hotel, comida? Então achei melhor abrir mão para eles investirem nos meninos, é melhor.

iG: Depois, em maio, você acertou com o Lemense para disputar a 4ª divisão do Paulista. Não foi para frente também?
Adhemar: Rapaz, em Leme eu nem joguei. Eu estava com uma lesão no joelho, vi no treino que o esquema lá era tudo molecada, eu estava com 40 anos já. Preferi não encarar, deixa quieto.

Adhemar chegou a trabalhar como comentarista na Band. Na foto, com o narrador Silvio Luiz
Arquivo pessoal
Adhemar chegou a trabalhar como comentarista na Band. Na foto, com o narrador Silvio Luiz

iG: É verdade que você não começou como atacante?
Adhemar: É sim, comecei na lateral direita, depois fui para o meio campo e depois para o ataque. Profissionalmente joguei em todas as posições, até como zagueiro.

iG: Como zagueiro? E deu certo?
Adhemar: Deu certo nada, com esta estatura (1,65m)? Foi no começo da carreira, no Estrela de Porto Feliz. O zagueiro foi expulso e eu tive que jogar lá atrás. Complicado.

iG: O que você lembra daquela final da Copa João Havelange, em 2000, Vasco x São Caetano, quando quase aconteceu uma tragédia em São Januário?
Adhemar: No dia que a gente empatou, o sentimento foi de ironia do Vasco de desfilar com o trofeu depois daquela cena triste das arquibancadas. Coisa do seu Eurico Miranda. Mas alguns jogadores não participaram. O Governador (Anthony Garotinho) desceu lá e mandou a gente sair do campo para o vestiário, mas o Eurico mandou dar volta olímpica.

iG: Aconteceu a final no Maracanã. Vocês perderam por que?
Adhemar: Ah, o time todo do São Caetano estava negociado. Eu já tinha ido fazer exames na Alemanha (no Stuttgart), voltei para o jogo em janeiro de 2001 (dia 18), o Japinha tinha sido negociado, o César também. Eu falo por mim. Como eu já estava de saída, não digo que tirei o pé, mas em determinado momento passa na cabeça alguma coisa, vai que eu quebro a perna, estouro o joelho. Não era a mesma pegada. 

Adhemar comemora gol pelo Stuttgart
Getty Images
Adhemar comemora gol pelo Stuttgart

iG: E sua passagem pela Alemanha, como você analisa?
Adhemar: Foi algo tremendo. Saí do Brasil, cheguei lá e o Stuttgart estava para cair. O próprio preparador olhou pra mim quando eu cheguei e perguntou o que eu estava fazendo lá, já que o clube só contratava jogadores mais jovens. Mas foi bom, tenho um recorde na Bundesliga até hoje.

iG: É mesmo? Qual recorde?
Adhemar: Fui o primeiro estrangeiro a fazer três gols no seu jogo de estreia no Campeonato Alemão. E os três de perna esquerda, sendo que sou destro. Em 2008 teve um jogador que igualou essa marca, acho. (O tcheco Martin Fenin, que fez 3 gols na sua estreia pelo Frankfurt)

iG: Nenhum clube brasileiro te procurou com o seu sucesso no São Caetano?
Adhemar: Sim, eu estava acertado verbalmente com o São Paulo. Mas fui para o Stuttgart por uma "questão de matemática". O São Paulo ia me pagar o mesmo valor que o Stuttgart, mas a diferença é que eles (São Paulo) iam me pagar real. O Stuttgart me pagou em dólar.

iG: O zagueiro Serginho foi seu companheiro por bastante tempo no Azulão. Como você recebeu a notícia da morte dele?
Adhemar: Eu jogava no Japão e vim para o Brasil para fazer uma cirurgia no ombro. Foi chocante. Eu estava em casa aqui em Porto Feliz mesmo, no meu quarto, assistindo o próprio jogo São Paulo x São Caetano. Aí ficou naquela situação, ele foi para o hospital. Liguei para o massagista do time e ele me deu a notícia da morte dele antes de veicular na imprensa. Hoje, qualquer desmaio é uma preocupação. Já vi isso em campo.

iG: Já viu? Conte-nos como foi.
Adhemar: Foi lá no começo, no Estrela, eu estava jogando com o zagueiro Paulão. Ele deu uma cabeçada na cabeça do atacante e desmaiou. Depois ele voltou a ficar consciente, mas teve que ser substituído. E olha só como ele estava meio grogue. Nesse jogo eu fui expulso e desci para o vestiário. O Paulão estava tomando banho e me perguntou quem estava jogando lá em cima (rs). Ele foi para o São Paulo em 1999 e desmaiou na apresentação. Na hora eu pensei: "Esse aí não tem jeito".

iG: É uma frustração para você nunca ter jogado na seleção brasileira, sendo que muitos torcedores e gente da crítica esportiva pediram na época?
Adhemar: Agora jogo no master da seleção brasileira com Careca, Zenon, João Paulo. Não me chateia não. Me falaram na Alemanha que, antes da Copa de 2002, o Felipão foi assistir um jogo do Luizão, que estava no Hertha Berlim, mas ele não estava muito bem, estava sem gol na Bundesliga. E eu estava bem no Stuttgart. Parece que o Américo Faria (auxiliar de Felipão) foi para ver um jogo meu no estádio, mas não sei se é verdade. No fim, o nome pesou e o Luizão foi para Copa.

iG: Qual gol você considera o mais importante da sua carreira?
Adhemar: Aquele do Maracanã, em 2000, nas oitavas do Brasileiro contra o Fluminense (de falta, na vitória do São Caetano por 1 a 0). Aquilo ali foi, na realidade, ideia do zagueiro Daniel. Eu já tinha chutado duas faltas na arquibancada, aí peguei a bola, coloquei dentro de um buraquinho no gramado e falei para ele que iria cruzar. Ele me disse para eu chutar direto, porque se fosse na arquibancada de novo, daria tempo para respirar no jogo. Mas ela entrou, ainda bem.

Assista abaixo :

iG: E o gol mais bonito?
Adhemar: Foi contra o Atlético Sorocaba, quando eu jogava no São Bento. Chutei uma falta do lado esquerdo, a bola travou no ângulo. Ninguém corria, nem os jogadores, nem o bandeirinha, ninguém sabia onde estava a bola. Ela ficou parada na junção das duas traves, lá dentro.

iG: E aquela história de você ser jogador de futebol americano? Por que não deu certo?
Adhemar: Um empresário americano veio para o Brasil e queria me ver chutando para ter certeza da potência. De 10 tentantivas, acertei 9. E todas de 50 jardas (metade do campo). Aí esse empresário disse que ia arrumar, mas eu teria que ficar 3 meses em escola de kicker, teria que esperar ser "draftado", no começo eu não podia ir com a familia, tinha que ter visto de trabalho. A proposta ficou meio vaga, preferi não ir.

iG: Lembra de qual time da NFL era o empresário?
Adhemar: Sim, era do Tampa Bay Buccaneers. Mas eu não teria contrato com o time garantido.

iG: Para finalizar, o Palmeiras cai para Série B?
Adhemar: Os únicos que não acreditam que o Palmeiras escape é o matemático Oswald de Souza e aquela pessoa que diz que o Palmeias não cai se Jesus voltar para a Terra. Acredito que caia. Os outros times precisam perder e o Palmeiras ganhar muitas. Bem difícil.

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