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Aos 93 anos, ex-goleiro Oberdan Cattani conta ao iG causos de um dos mais importantes momentos da história alviverde. Ídolo também pede luta para evitar rebaixamento à Série B

Palmeiras entra em campo com a bandeira do Brasil, na imagem imortalizada da
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Palmeiras entra em campo com a bandeira do Brasil, na imagem imortalizada da "Arrancada Heroica"

Há exatamente 70 anos, no dia 20 de setembro de 1942, o Palestra Itália (então Palestra de São Paulo) entrava pela última vez em campo. No gramado do Pacaembu, nascia em uma "Arrancada Heroica" a Sociedade Esportiva Palmeiras . A equipe foi obrigada a trocar de nome devido à 2ª Guerra Mundial, já que o Brasil era inimigo do Eixo, grupo formado por Itália, Alemanha, Japão, Bulgária, Hungria e Romênia. Naquele dia, o Palmeiras entrou em campo com uma bandeira do Brasil, debaixo de muitas vaias da torcida do São Paulo . Depois, venceu o rival por 3 a 1 e sagrou-se campeão paulista de 1942, conquistando pela 9ª vez o Estadual.

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Oberdan em ação pelo Palmeiras nos anos 40
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Oberdan em ação pelo Palmeiras nos anos 40

Da equipe palestrina que entrou em campo naquele dia, apenas um jogador está vivo: o lendário goleiro Oberdan Cattani, jogador que atuou 14 anos pelo Palmeiras e é considerado um dos maiores ídolos da história do time. Aos 93 anos, ele lembra cada detalhe da partida que aconteceu há 70 anos e marcou sua vida para sempre. "Todo mundo chorou de alegria quando acabou aquele jogo. Morreu o Palestra Itália, mas nasceu o Palmeiras campeão", disse ao iG o ex-atleta, que contou outros causos sobre o duelo no Pacaembu (veja abaixo).

Natural de Sorocaba, Oberdan mora em São Paulo e continua torcendo pelo Palmeiras. Com dificuldades para caminhar, diz que raramente vai ao estádio acompanhar as partidas da equipe. Também não tem visto os jogos pela televisão ultimamente, já que a campanha ruim e a vice-lanterna do Campeonato Brasileiro deixam o ídolo "aborrecido". Para ajudar a equipe alviverde escapar do rebaixamento, o lendário goleiro dá a dica: incorporar o mesmo espírito que os jogadores do Palmeiras tiveram em 20 de setembro de 1942.

"Acho que não vai ser rebaixado, mas estou aborrecido, desanimado. Os jogadores têm que lutar até o fim. Tem que lutar até sair sangue, igual nós fizemos naquele dia. Eles têm que incorporar o espírito da Arrancada Heroica. Antes do jogo, a gente se reuniu e gritou: 'Não podemos perder esse jogo de jeito nenhum'. Lutamos muito por essa camisa", emociona-se Oberdan Cattani, dono de nove títulos e 351 jogos por Palestra Itália, Palestra de São Paulo e Palmeiras.

Os causos da "Arrancada Heroica"
Oberdan não gosta de lembrar o dia em que soube que o Palestra mudaria de nome. Descendente de italianos, o ex-goleiro diz que carregava com orgulho o nome da Itália em sua equipe. Pior do que isso foram as vaias da torcida do São Paulo quando os jogadores entraram em campo no Pacaembu. Uma "humilhação", segundo Oberdan, considerado um "inimigo do Brasil" por jogar na equipe que levava o nome da nação inimiga na 2ª Guerra Mundial.

"Estávamos concentrados numa chácara em Poá (grande São Paulo) quando chegou a notícia que o Palmeiras ia mudar de nome. Fiquei revoltado, pois sou descendete de italianos, e a maioria dos jogadores era! Mesmo quem não era, como o Junqueira (zagueiro), ficou abalado. A gente dizia: 'A guerra é na Europa, não no Brasil! Por que fazem isso com a gente?'. Quando entramos no Pacembu, no dia da Arrancada, mesmo estando com a bandeira do Brasil nas mãos, toda a torcida do São Paulo vaiou. Ficamos revoltados! Dissemos: 'Não vamos perder o jogo de jeito nenhum. E deu tudo certo! Ganhamos por 3 a 1 e todo mundo chorou de alegria quando acabou o jogo. Assim, morreu o Palestra Itália e nasceu o Palmeiras campeão", recorda Oberdan.

Time campeão paulista de 1942 posa com as faixas
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Time campeão paulista de 1942 posa com as faixas

A vitória contra o São Paulo, inclusive, teve lances bastante peculiares, que o ex-goleiro recorda aos risos: "Entramos com uma garra danada naquele dia, principalmente por causa das vaias. Fomos para o intervalo vencendo por 2 a 1 e fizemos o 3 a 1 no começo do 2º tempo. Depois, ainda tivemos um pênalti e o jogo podia virar goleada, mas o Luisinho (jogador do São Paulo) pegou a bola na mão e não nos deixou bater!", ri Oberdan, que ainda refuta as reclamações de que o árbitro Jaime Janeiro Rodrigues seria torcedor palestrino.

"Eles (atletas do São Paulo) falavam que o árbitro era palmeirense, mas ele era são-paulino! O Virgílio (jogador do São Paulo) fez o pênalti no Og Moreira, sim, e o juiz apitou certo, mas o Lusinho não deixou a gente bater de jeito nenhum", conta o ídolo palestrino. O São Paulo acabou abandonando o jogo aos 19min do 2º tempo, com o Palmeiras se consagrando campeão do Paulistão 1942.

"Até sair sangue pela boca"
Oberdan Cattani considera o dia da "Arrancada Heroica" como o mais marcante de sua vida. A festa que a torcida alviverde fez no dia do título do Paulistão 1942 está até hoje gravada em sua cabeça. Segundo o lendário goleiro, a taça foi conquistada sobre o rival São Paulo graças aos jogadores que lutaram "até sair sangue pela boca".

"Ter o privilégio de ter vivido aquele dia é algo que me enche de alegria até hoje. Nós passamos uma humilhação gigante, com jornal falando que o São Paulo seria campeão, com gente falando que o Palestra Itália era inimigo da nação. Na concentração, lá em Poá, a gente se revoltava, pedíamos uns aos outros para lutar até sair sangue pela boca. No fim, deu tudo certo para nós", diz o ex-arqueiro.

Súmula do 1º jogo do Palmeiras com novo nome
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Súmula do 1º jogo do Palmeiras com novo nome

Segundo Oberdan, poucas vezes a torcida do Palmeiras festejou tanto um título e uma vitória sobre o rival do Morumbi. "Na festa que a torcida fez depois do jogo nem se fala. Ameaçaram até invadir (o campo) para comemorar com a gente, mas tinha muito policial no dia. Sofremos muito, fomos humilhados, mas demos a volta por cima e ganhamos o campeonato em grande estilo. Valeu demais!", recorda, para em seguida lembrar a provocação que a torcida palmeirense fez por anos aos são-paulinos: "Depois desse dia, os torcedores gritavam sempre ‘Fujão! Fujão!", diz  o ídolo, em referência ao abandono de campo do São Paulo no 2º tempo do jogo.

Críticas ao futebol moderno
Palestrino e palmeirense até o último fio do famoso bigode, Oberdan Cattani está "aborrecido" com seu time do coração. O título da Copa do Brasil até deu certo ânimo, mas a péssima campanha no Campeonato Brasileiro entristecem aquele que é um dos maiores ídolos da história alviverde. O que o ex-goleiro queria mesmo era que os velhos tempos, os seus tempos, voltassem.

"Não tenho ido mais ao estádio ver os jogos, não me dá mais vontade... Na TV de vez em quando eu até vejo, mas quem vê o Palmeiras hoje fica aborrecido. Até acho que não vai ser rebaixado, mas estou bem desanimado. Tem que lutar muito! No passado, o time era formado por sete, oito pratas da casa e uns três ou quatro de fora. Tinha identificação, amor à camisa, um sentimento diferente. Agora, só tem o goleiro de prata-da-casa. Eu mesmo não conheço nenhum jogador do Palmeiras! Eles vêm e vão embora toda hora. O único que eu conhecia era o Marcos. Esse foi o último a representar bem nossa camisa", lamenta. Veja fotos da crise vivida pelo Palmeiras :

De acordo com Oberdan, só uma nova "Arrancada Heroica" vai salvar o Palmeiras de seu segundo rebaixamento na história do Brasileirão. O ex-goleiro pede que os jogadores lutem e incorporem o mesmo espírito dos atletas palestrinos em 20 de setembro de 1942. Mas ele reconhece: é difícil que os jogadores dos "tempos modernos" tenham o mesmo sentimento que ele pela camisa do Palmeiras. A questão chave, simplifica Oberdan, é o dinheiro.

"Não pode perder mais nenhum jogo até o final! Eles (jogadores) têm que lutar até sair sangue, igual nós fizemos. Eles têm que incorporar o espírito que tivemos naquele dia. Antes do jogo, a gente se reuniu e gritou: 'Não podemos perder esse jogo de jeito nenhum'. Lutamos muito por essa camisa. Naquela época, nem se falava em dinheiro... Já hoje, qualquer jogador pede uma 'fábula' para jogar, aí acaba o contrato e vai embora ser dar satistação nenhuma", reclama Oberdan, encerrando em clima de melancolia e saudosimo: "Eu não ganhei nada jogando futebol, mas vesti a camisa do Palestra Itália e do Palmeiras com orgulho. Dei tudo de mim por esse time".

FICHA TÉCNICA - Palmeiras 3 x 1 São Paulo
Campeonato Paulista de 1942 - 2º turno
Data : 20 de setembro de 1942, domingo
Local : estádio do Pacaembu, em São Paulo-SP
Árbitro : Jaime Janeiro Rodrigues
Publico : não disponível
Renda : 231 contos e 239 mil réis

GOLS
PALMEIRAS: Cláudio, aos 20, e Del Nero, aos 43 minutos do 1º tempo; Echevarrieta, aos 15 minutos do 2º tempo
SÃO PAULO: Waldemar de Brito, aos 23 minutos do 2º tempo

PALMEIRAS : Oberdan; Junqueira e Begliomini; Og Moreira, Zezé Procópio e Del Nero; Cláudio, Waldemar Fiúme, Echevarrieta, Villadoniga e Lima Técnico : Armando Del Debbio

SÃO PAULO : Doutor; Piolim e Virgílio; Silva, Lola e Noronha; Luizinho Mesquita, Waldemar de Brito, Leônidas, Remo e Pardal Técnico : Conrado Ross

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