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18/12 - 08:40

Luís Álvaro e Marcelo Teixeira temem "falta de poder" do presidente no novo estatuto
iG entrevistou o antigo e o atual presidente do Santos, que emitiram suas opiniões sobre a reforma estatutária do clube, que será votada no próximo mês

Samir Carvalho, iG São Paulo

O novo estatuto do Santos deverá ser votado na primeira semana de janeiro. O tema mais polêmico da reforma estatutária é a criação de um Conselho Administrativo que acaba com o regime presidencialista do clube e deixa as decisões a cargo de um colegiado. O grupo será formado por nove pessoas (sete membros do conselho, o presidente e o vice). O iG entrevistou o atual presidente do Santos, Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro, e o ex-presidente Marcelo Teixeira, que opinaram sobre a reforma estatutária do clube.

Apesar de divergirem em vários artigos do estatuto, Luís Álvaro e Teixeira demonstraram preocupação quando foram questionados sobre a descentralização do poder com a reforma estatutária. Embora se considere um parlamentarista, o atual presidente santista acredita que o clube corre o risco de tomar todas as decisões em plebiscitos.

“Eu acho que é (muita gente para tomar decisões). Temos que ser objetivos e modernos. Quando você coloca muita gente para discutir qualquer assunto, você tem o risco de um fenômeno sociológico chamado assembleísmo. Tudo vira assembléia. Você não pode governar o país em torno de plebiscitos, quer dizer se o governo deve aumentar o IOF ou não você faz um plebiscito e consulta a nação, isso não é saudável, você não administra o país assim. Eu acho que um número exagerado complica a alteração e eficácia. O Santos deve perseguir a eficiência não só dentro dos 90 minutos no campo para ser modelo administrativo. Acho que um número exagerado não convém”, afirmou Luís Álvaro.

O ex-presidente Marcelo Teixeira também demonstrou preocupação, e acredita que o Conselho Administrativo poderia apenas assessorar Luís Álvaro, como já vem acontecendo com o Grupo Guia (Gestão Unificada de Inteligência e Apoio ao Santos), que podem compor os possíveis “nove presidentes” do Santos, caso a proposta de alteração do estatuto do clube seja aprovada.

“Esse Conselho de Administração poderia até aconselhar o presidente e o vice, mas nunca decidir. A decisão tem que ser sempre daquele que responde pelos atos do clube. No modelo proposto não se reconhece a presidência ou diretoria executiva. A administração e gestão executiva, na nova proposta, são de responsabilidade do Conselho de Administração que é composto por nove membros sendo um Presidente, um vice-presidente e sete conselheiros sem designação, todos eleitos em Assembléia Geral”, disse Teixeira, que teme que o presidente fique sem poder no clube.

“Como expus, a proposta de estatuto encerra a diretoria e cria esse intitulado Conselho de Administração. Esse Conselho decidiria todas as principais questões do clube. Porém, a responsabilidade civil e legal é do Presidente deste conselho. Porém, seu voto é o mesmo de um dos outros oito membros do Conselho, que decidem sem qualquer responsabilidade. Ou seja, um presidente sem poder de decisão”, completou.

Embora concordem em alguns pontos sobre o novo estatuto, Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro e Marcelo Teixeira divergem bastante sobre a reforma estatutária. Confira a entrevista com os dois presidentes, que foram questionados sobre os mesmos assuntos que envolvem o novo estatuto.

Conselho Administrativo veta a partcipação dos antigos presidentes com contas reprovadas
Luís Álvaro: Me sinto comprometido de dizer sim ou não, pois sou presidente do clube e não sei o que deve acontecer com as minhas contas no futuro. Qualquer que fosse a minha decisão eu estaria legislando em causa própria, eu faço a questão de me manter isento nisso.

Marcelo Teixeira: Não acredito (estratégia para vetar seu retorno), até porque a decisão de rejeitar as contas de 2009 de minha administração ainda é passível de aprovação, o que acreditamos que acontecerá em breve.

Criação das embaixadas de associados em diversos lugares do país
Luís Álvaro: O modelo apresentado tem que ser aperfeiçoado. Temos muitas sugestões a esse tema. Eu acho que sub-sede, embaixada, como tem o Inter-RS fez, é uma ideia saudável, você abriga sócios em todo território, mas não sei na forma como foi apresentada.

Marcelo Teixeira: As embaixadas, pela proposta, têm que ser auto-sustentáveis, mediante parte ou totalidade da receita que gerar. O Santos FC não irá responder pelo passivo ou obrigação contraída por essas embaixadas perante terceiros, e terá um canal de comunicação para angariar receitas, vender produtos licenciados, realizar promoções e o processo eleitoral localmente. Acho no mínimo essas embaixadas inseguras.

Preocupação sobre fraudes na eleição com urnas instaladas nas sub-sedes
Luís Álvaro: O clube continua estabelecendo todas as regras, não sei se faz sentido ter uma urna em cada sub-sede, a fiscalização seria inviável, por outro lado o mundo caminha para modernidade. O inter tem 100 mil sócios no país e faz uma eleição pela internet. O Barcelona também pode fazer isso. A declaração do imposto de renda faz pela internet hoje.

Marcelo Teixeira: A questão das embaixadas serem locais de votação. Como será feita a fiscalização destas urnas? A proposta do estatuto não diz nada sobre isso. Pior, diz que o resultado da urna de uma embaixada por ser passado para a mesa receptora na Vila por telefone, o que não garante em nada a veracidade da informação.

Fim do sistema presidencialista
Luís Álvaro: Eu tenho um comitê de gestão a quem eu ouço toda semana, mas a decisão é minha, sou o presidente do clube. Eu ouço que as coisas que decidirmos seja mais consensual do que pessoal. Eu sou a favor da descentralização de poder. A concentração do poder a uma pessoa, é sujeita a falhas, acho que você dilui a possibilidade de erros quando você distribui em um fórum mais amplo. 

Marcelo Teixeira: O modelo de administração a qual presidi nunca foi centralizador e autoritário. Sempre tive ao meu lado grandes santistas, com larga história dentro do clube. Em todas as decisões ouvia estes grandes santistas e optava por aquele que era, no meu entendimento, o melhor caminho. Escutava, me aconselhava, mas a responsabilidade final sempre foi minha, como presidente do clube, e nunca fugi dela. O presidente é o responsável até legalmente falando. Portanto, é mais uma falácia que inventam sobre minha administração.

Fim dos empréstimos pessoais ao clube, como fez Marcelo Teixeira em sua gestão
Luís Álvaro: Essa medida não tem nome próprio, é criada para evitar a promiscuidade do dinheiro público e privado. Essa mistura não é saudável. Já pensou se o presidente da republica colocasse dinheiro dele para pagar a divida externa. O Santos é grande para andar com as próprias pernas, sem precisar de recurso de ninguém.

Marcelo Teixeira: Qualquer empréstimo ou aval que eu, minha família e outros credores fizeram ao Santos está documentado na contabilidade do clube e contou com a participação e ciência da diretoria, da mesa do Conselho, da Comissão Fiscal, dos conselheiros, dentre eles muitos que são efetivos e faziam parte da oposição na época. Todos os recursos emprestados foram necessários para a manutenção dos grandes jogadores, que fazem sucesso neste ano, como Neymar e Paulo Henrique, entre outros.

Extinção do departamento feminino e a criação do departamento de esportes olímpicos
Luís Álvaro: Não faz sentido colocar no estatuto a qualidade do gramado. O clube é uma instituição tem que produzir resultados. Esse orçamento deve ser equilibrado, não pode criar despesas sem ter fonte de receita, se não o clube se endivida. Quando você cria modalidades obrigatórias você engessa o clube. O futebol feminino, como o de salão, interessa ao Santos, mas não podemos ter no estatuto uma obrigatoriedade de mantermos qualquer atividade esportiva a não ser o futebol profissional.

Marcelo Teixeira: É um retrocesso. Nós separamos o Futebol Feminino do Departamento de Esportes para profissionalizarmos a modalidade e darmos alcance de marketing e de resultados, o que se provou ser um grande sucesso. Retornar o Futebol Feminino ao Departamento de Esportes será um retrocesso na modalidade, que pode voltar a não ter atenção do clube. Em nome do Futebol Feminino e de nossas atletas, vou lutar no Conselho junto aos meus pares para que isso não ocorra e que o Futebol Feminino continue a ser um departamento independente no clube, com orçamento próprio.
 
Nomeação de um superintendente. Mais uma pessoa para mandar?
Luís Álvaro: O presidente representa o clube, perante a justiça, dá a última palavra. É preciso que exista alguém que esteja vinculado com o processo administrativo, que é absolutamente absorvente. Se eu ficar por conta de resolver todos os problemas administrativos que aparecem no clube, eu não faria outra coisa e não teria tempo para dar uma entrevista ao iG.

Marcelo Teixeira: Não creio que seja isso (Mais uma pessoa para mandar). O Santos terá um superintendente geral remunerado, indicado pelo presidente e nomeado pelo Conselho de Administração. A ele caberia executar a administração profissional do clube, sendo que as gerencias executivas do clube se reportariam a ele. É um profissional que faria a máquina andar. Recentemente, mesmo em minha gestão, chegamos a funcionar desta maneira e deu resultados interessantes. O problema disso é saber escolher as pessoas para ocupar os cargos. Não podem ser apadrinhados ou amigos do presidente ou deste Conselho de Administração, mas sim profissionais com experiência de mercado.

Mudança do primeiro uniforme do Santos da camisa listrada para a camisa branca
Luís Álvaro: Eu acho que a camisa branca é linda. A listrada serve para atender emergências. Eu acho que o estatuto está nada mais fazendo o que está no imaginário do santista.

Marcelo Teixeira: Está se ferindo uma tradição, nunca foi um pedido meu a alteração dos uniformes. Tradicionalmente e pela vontade de nossos fundadores temos, estatutariamente, as definições dos uniformes. Não mudaria o que consta desde a nossa Fundação.


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