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Futebol

25/10 - 20:09

Mudança de cidade cria "guerra" entre jogadores e torcedores no Guaratinguetá

iG acompanhou no interior uma partida da equipe que mudará para Americana em 2011. Entre provocações e vaias, a história de amor de uma cidade por seu clube que vai embora

Marcel Rizzo, enviado iG em Guaratinguetá

O estádio vazio fez o eco dos gritos no vestiário do time mandante ser ouvido por todos na arquibancada. “Ai, ai, ai, ta chegando a hora, o dia já vem, raiando meu bem, e eu tenho que ir embora”, cantaram os jogadores do Guaratinguetá Futebol Ltda. Trinta segundos depois eles entraram em campo para enfrentar o São Caetano, pela Série B do Brasileiro, vaiados pelos pouco mais de 300 torcedores que se aventuraram, numa sexta-feira à noite, a ver o jogo do clube que passaram a odiar.

O canto dos atletas antes de subir ao gramado foi um desabafo porque sabiam que nos 90 minutos seguintes seriam xingados pela própria torcida. A “guerra” começou pelo anúncio, no início de outubro, da mudança de cidade do clube empresa. Oficialmente em busca de melhor infraestrutura e dinheiro para manter o time, a empresa Sony Sports, dona do clube, decidiu deixar a sede atual, na cidade de 113 mil habitantes e a 180 km de São Paulo, e migrar para Americana, distante 230 km de Guaratinguetá. A decisão revoltou a população de Guará.

Marcel Rizzo
Torcedores e as boas vindas ao visitante São Caetano em partida válida pela Série B. População está revoltada com mudança de sede

“Eu acompanho o Guará desde o primeiro jogo aqui, em 2000. Você aprende a gostar de um time e, de repente, acaba tudo. Eles vão embora e deixam todo mundo na mão”, disse Felipe Augusto Rossafa, um dos 326 que torceram pelo São Caetano no empate por 0 a 0 acompanhado pelo iG no estádio Dario Rodrigues Leite.

Relação de amor
O Guaratinguetá Esporte Clube foi fundado em 1998, para suprir a ausência da Esportiva, time tradicional da cidade que acabara no mesmo ano. Em 2000 participou da primeira competição profissional, o Paulista da Série B-2, equivalente à Quinta Divisão. Em 2004, já na A-3 (Terceira Divisão), passou a ser administrado pela Sony Sports, de propriedade do empresário Sony Douer. O clube se transformou em empresa, mudou o nome (de Esporte Clube para Futebol Ltda) e chegou à primeira divisão em 2007.

“Ninguém esperava nada do time, mas chegamos à semifinal, perdendo da Ponte Preta. Foi mais ou menos nessa época que fui demitido por causa do Guará”, contou Luiz Carlos Gonçalves, 54 anos, porteiro do estádio. Foi o ápice do Guará, que em 2008 conquistaria o título de campeão do interior, mas em 2009 seria rebaixado para a A-2 - ficando entre os quatro em 2010, jogará a Primeira Divisão estadual em 2011 novamente, mas por Americana.

Funcionário de uma empresa de informática, Gonçalves deixava de trabalhar para ir aos jogos do Guará. “Um dia me chamaram e me demitiram. Ainda brincaram dizendo que a partir dali poderia ir a todos os jogos do Guará”. Desempregado, Gonçalves procurou o clube e conseguiu a vaga de porteiro no estádio, que pertence à prefeitura, mas passou a ser administrado pelo Guará, que pagava R$ 8 mil por mês para usar as instalações. “E olha que irônico: como porteiro não vejo os jogos. Não posso sair daqui”.

Gonçalves, que recebe R$ 540 por mês, estará desempregado novamente depois de 15 de dezembro, data que oficialmente o Guaratinguetá passará a ser Americana Futebol Ltda. Segundo ele, nem Sony Douer, nem o presidente do clube, José Eduardo Ferreira, comunicaram oficialmente que ele e os demais funcionários serão demitidos.

Marcel Rizzo
Silmar de Souza e sua tatuagem em homenagem ao clube. Ao fundo, o escudo que pintou de graça debaixo de sol

“Não tem como levarmos porteiro, lavadeira. Essas funções serão desempenhadas por pessoas de Americana. Iremos com os jogadores que têm contrato, claro, e alguns outros diretores”, disse Ferreira ao iG.

Segundo ele, a saída de Guaratinguetá aconteceu porque a cidade não acompanhou o desenvolvimento do clube, que chegou à Primeira Divisão do futebol paulista e à Segunda do Brasileiro. “Teremos capacidade de atrair mais investidores em Americana. A região de Campinas tem muitas empresas e a prefeitura de lá vai auxiliar nessa procura”, disse Ferreira.

O iG apurou que Americana deve ajudar com R$ 600 mil por mês para manutenção do clube. A prefeitura de Guaratinguetá não auxiliava. Desde quinta-feira a reportagem tenta contato com o prefeito de Guará, Antonio Gilberto Filippo Junior, mas não houve retorno. “A prefeitura realmente não ajudou, mas é sacanagem deixar uma cidade que apoiou tanto o clube”, reclamou Gledson Guedes, conhecido como Carneiro, presidente da Fúria Tricolor, uma das seis torcidas organizadas do Guará.

As uniformizadas foram até São Paulo, na sede da Federação Paulista de Futebol, tentar convencer o presidente Marco Polo Del Nero a interceder. “Mas ele não tem o que fazer, já que o clube é empresa e pela Lei Pelé pode mudar de sede”, disse Carneiro. Para ir a Americana, a Sony Sports teve que desembolsar R$ 800 mil, como consta no regulamento geral da FPF. Del Nero estuda aumentar esse valor.

Cerveja, palavrões e desculpas
Uma hora antes de a partida contra o São Caetano começar, a rua que dá acesso ao estádio Dario Rodrigues Leite estava vazia. “Até agora foram vendidos 12 ingressos”, contou moça que trabalha na bilheteria e que preferiu não dizer o nome.

“A maioria do pessoal que vem mesmo são os sócios torcedores, que pagam R$ 35 por mês e têm acesso liberado ao estádio, Mas estamos aqui para torcer contra. Tomara que caia para a Série C”, disse Rossafa. Na partida anterior, contra o Icasa, a diretoria aumentou os ingressos para R$ 50 arquibancada e R$ 100 cadeiras, para evitar protestos. Voltou atrás contra o São Caetano por um pedido da Federação Paulista de Futebol, depois que a entidade foi acionada por um torcedor.

Rossafa contou que outros sócios torcedores estudam entrar na Justiça alegando que compraram um pacote que os enganou, já que previa continuidade em 2011. “Uma das camisas que ganhamos dizia que o Guará estava de volta à elite do Paulista. Mas quem vai jogar é o Americana”.

Meia hora antes das 21h, uma Kombi aparece no início da rua. O carro dá meia volta e para na esquina. A barraca do Luisão, como o proprietário a chama, chegou em cima da hora para vender cerveja e churrasquinho para os corajosos que se arriscaram gastar a voz para xingar a antiga paixão.

“Eu não estava mais vindo, porque realmente vendo pouco. Mas cidade pequena, o pessoal tem o telefone de casa e fica me ligando. O melhor é vir mesmo”, contou Luisão.

Entre os torcedores que esperavam o jogo usufruindo da Kombi estava Silmar de Souza. Ele vestia uma camisa comemorativa, aquela do sócio torcedor, que escondia a loucura que fez pelo Guará: uma tatuagem no braço esquerdo. Acompanhado de Souza a reportagem entrou no estádio, dez minutos antes do apito inicial.

“Está vendo aquele desenho do escudo do Guará ali atrás de um dos gols? Eu e mais um pintamos, num final de semana debaixo de um p... sol. Pintei por amor ao clube, sem cobrar nada”, contou Silmar.

O jogo foi fraco tecnicamente, mas cada ataque do São Caetano era empurrado com vivas pela torcida. Os do Guará vaiados, sempre. O empate deixou o clube empresa com 40 pontos, na 14ª colocação, sete pontos na frente do Ipatinga, o primeiro na zona do rebaixamento. Faltam sete rodadas para o final da competição.

A partida acabou e o goleiro Jailson, único poupado das vaias, foi até o alambrado. Dezenas de torcedores se aglomeraram para ouvir o que ele tinha a dizer. No meio da galera, o arqueiro viu Silmar e o chamou para perto. Olhando para o torcedor tatuado, Jailson parecia emocionado:

Marcel Rizzo
Goleiro Jaílson vai ao alambrado após a partida para conversar com os torcedores e declarar amor ao Guaratinguetá

“Não temos culpa, os jogadores não sabiam da mudança. Ainda somos Guaratinguetá”, disse. “Essa cidade está no meu coração. É minha segunda pele”. Aplaudido, Jailson desceu para o vestiário. Com contrato longo com a Sony Sports, terá que mudar para Americana. “Esse poderia ficar. Só esse”, lamentou Silmar. O Guará ainda faz mais três jogos como mandante até deixar a cidade de vez. Os últimos de Jailson.


Leia mais sobre: Guaratinguetá Futebol Ltda. Americana Futebol Ltda. Federação Paulista de Futebol

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Marcel Rizzo

Luiz Carlos Gonçalves, porteiro do estádio Dario Rodrigues Leite e que ficará desempregado

Sem clube
Luiz Carlos Gonçalves, porteiro do estádio Dario Rodrigues Leite e que ficará desempregado

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