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Futebol

24/09 - 07:00

Exclusivo: Único banido na história do futebol brasileiro estuda para ter a profissão de Lula
Rafinha foi eliminado em 2008 por suspeita de fraude na Série C e absolvido cinco meses depois. Ele tentou voltar à carreira, mas desistiu por considerar o futebol "sujo". Hoje trabalha em uma metalúrgica e sonha ser torneiro mecânico

Marcel Rizzo, enviado iG a Mirassol

Único atleta banido do futebol na história do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva), Rafael Rodrigues Fernandes, conhecido como Rafinha, desistiu da carreira aos 22 anos mesmo depois da punição ser revertida. O ex-volante do Toledo-PR jogou pouco mais de um ano após a absolvição, em janeiro de 2009, mas diversos problemas o fizeram pendurar as chuteiras - atualmente trabalha em uma metalúrgica no interior de São Paulo. O  iG relata a história do garoto que foi usado como exemplo para a mudança da legislação desportiva, que hoje não prevê mais banimento direto mesmo nos casos mais graves.

“Não tenho vontade de voltar, só se for uma proposta sensacional, e mesmo assim vou pensar muito. Tem muita sujeira no futebol e não falo só do caso do julgamento. É salário atrasado, pressão para jogar bem. Depois de tudo o que aconteceu fui lá pra baixo, fiquei desanimado. Agora quero estudar”, disse Rafinha na casa de seus pais, na Cohab 3, bairro pobre de Mirassol – cidade a 450 km de São Paulo, onde mora desde que deixou Toledo, em abril de 2010.

Marcel Rizzo
Rafinha posa na frente da casa dos pais, em Mirassol. Vida do garoto mudou drasticamente depois do banimento

Rafinha foi condenado pelo pleno (última instância) do STJD, em agosto de 2008, com base no artigo 275 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (proceder de forma atentatória à dignidade do desporto, com o fim de alterar resultado de competição). Segundo a procuradoria, o jogador confirmou em entrevista que o empate entre Toledo e o Marcílio Dias-SC, pela Série C do Brasileiro daquele ano, foi combinado. 

A própria procuradoria admitiu depois que a punição foi exagerada e aconteceu apenas para que o jogo fosse repetido – por isso houve um terceiro julgamento e a absolvição de Rafinha. O artigo 275 foi extinto um ano depois, e o caso do volante, usado pela comissão que fez alterações no CBJD, em dezembro de 2009, como exemplo para argumentar que banimento é algo extremo. Atualmente, um atleta não pode ser eliminado, termo jurídico usado, na primeira condenação, apenas em caso de reincidência (ouça a polêmica entrevista e veja mais sobre a mudança na legislação).

De Rafinha a Fernandes
A eliminação foi o início do fim da carreira de Rafinha. Mas ajudaram na decisão de parar as duas lesões que sofreu depois da absolvição, uma no púbis e outra no tornozelo (esta operada pelo Sistema Único de Saúde, o SUS), ficar sem receber salário (ele processa o Marília, clube para qual foi emprestado em 2009) e a pressão de diretoria e torcida do Toledo para voltar a jogar como antes. A gota d’água foi ter de mudar o apelido com o qual sempre foi conhecido.

“Isso me derrubou de vez psicologicamente. Para tentar me vender, eles (diretoria do Toledo) me fizeram mudar de apelido para possíveis interessados não associarem com o jogador que foi eliminado. Não era mais o Rafinha, era o Fernandes, que é um dos meus sobrenomes. Dentro de campo todo mundo me chamava de Rafinha, mas para fora era o Fernandes. Eu não queria mais ficar lá em Toledo nessa situação, mas eles me forçavam a permanecer para tentar me vender. De tanto que insisti, resolveram me liberar”.

Ele fez as malas, deixou para trás a noiva Lady e voltou para a casa dos pais em Mirassol, cidade de 55 mil habitantes onde nasceu e que chama a atenção pela quantidade de empresas que possui uma após a outra, na beira da rodovia estadual Washington Luiz.

“Aqui em Mirassol você passa na rua e te laçam para você trabalhar, tem muita empresa e pouca gente disposta a aceitar. Por isso não foi difícil arrumar emprego quando larguei o futebol”.  Antes disso, e ainda indeciso sobre o futuro, ele fez um teste no Ituano, clube da elite do futebol paulista, logo que retornou a São Paulo. “Não me esforcei muito para passar. Já fui profissional, ter que fazer “peneirão” não dá. Fui desanimado e não joguei bem”.

O encontro com a reportagem foi marcada para depois do expediente na Vitralfer, empresa na qual o garoto dá expediente das 7h às 17h. Na hora marcada, ele deixou o galpão enorme e de pouca ventilação - já não vestia macacão, apenas as botas de segurança, com o bico de ferro para evitar acidente. Na mão, um martelinho, hoje seu principal instrumento de trabalho como assistente de montador. Recebe R$ 900 por mês, menos do que os R$ 1.500 que ganhava como jogador de futebol.

Marcel Rizzo
Rafinha com a mãe Claudete, o pai Dorival, o amigo Neto e o irmão Diego, corintiano como Rafinha

Rafinha não gosta do trabalho na metalúrgica e está fazendo um curso de AutoCAD (programa de computador utilizado para a elaboração de peças de desenho técnico em duas dimensões e para criação de modelos tridimensionais). Em novembro, vai prestar prova para entrar no Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), em usinagem convencional, e pretende ser torneiro mecânico, uma profissão “mais sofisticada, mais bem vista, que foi do presidente Lula”, segundo o garoto. Rafinha não  ompletou o 2° grau. “Eu me arrependo de não ter estudado. Se eu quisesse, dava tempo. Mas moleque, jogando bola, você acha que vai ser o maior do mundo”.

O “dono” de Toledo
Maior do mundo Rafinha não era, mas podia se considerar o dono do Toledo dentro de campo aos 20 anos. Como ele mesmo definiu, estava “voando”. A bola era a esperança de um futuro confortável para ele e para a família (o pai Dorival, a mãe Claudete, os irmãos Diego e Cléber, que vivem em Mirassol, e para Lady). Hoje, a noiva e o filho dela de um primeiro relacionamento, são as únicas boas recordações que tem da cidade paranaense de 115 mil habitantes, que dá nome ao clube, distante 540 km de Curitiba.

O camisa 7 era o destaque de uma equipe ascendente no cenário paranaense e que começava a aparecer também fora do Estado. Bancada por duas empresas (a cervejaria Colônia e a Organização Work Serviços), o clube tinha dinheiro para investir em talentos e estrutura acima de média para o interior do Paraná – CT com quatro campos, por exemplo. Campeão da Copa do Interior de 2007, ganhou o direito de jogar a Série C em 2008.

“Não quero parecer 'mala', mas eu era o destaque do time. Eu que estava sempre à frente de todos, não deixava o time cair de produção, mesmo sendo um dos mais novos. Já tinha proposta para sair do Toledo, o clube perdeu dinheiro. Tudo acabou por causa da entrevista”, disse Rafinha. Meses antes, o clube tinha até preparado um DVD com algumas jogadas do atleta. Hoje, o vídeo está perdido no Youtube (veja as imagens abaixo).



Irno Picinini, presidente do Toledo, contou que o Fluminense pagaria R$ 500 mil para ficar com o jogador. O iG apurou que, na verdade, quem o compraria era a Unimed, empresa do ramo de planos de saúde que é a principal patrocinadora do clube carioca, mas que poderia colocá-lo inicialmente em outro time para ganhar experiência. “O Paraná Clube tentou me levar também, mas como o Irno estava esperando o Fluminense, não topou negociar”, disse Rafinha 

“Infelizmente, deu tudo errado. Não conseguimos vendê-lo por causa da eliminação”, afirmou Picinini.  Ele gosta de frisar que gastou mais de R$ 100 mil com Rafinha até ele deixar o clube, em abril. “Contratei um advogado conhecido, o Marcelo Amoretty, que trabalhava no Inter. O jogador ficou recebendo. Mas, depois de tudo, decidimos liberá-lo porque ele fez o pedido e já tinha sofrido bastante”.

Picinini não foi tão bonzinho assim na liberação como conta. O presidente do Toledo fez Rafinha assinar uma procuração na qual 40% dos direitos econômicos do atleta são dele. Não do clube, de Picinini mesmo. Rafinha diz que, se quiser voltar a jogar, 30% do que receber terá que repassar ao dirigente. “Mas se ele arrumar um clube, eu libero ele dessa procuração sem problema nenhum. É um garoto novo, que pode ter sucesso ainda”, afirmou Picinini ao iG.

As lesões
O retorno ao futebol depois da absolvição foi difícil também por causa das lesões. Logo nos primeiros treinos, sofreu uma contusão no púbis, bem na época que o Toledo fez parceria com o São Paulo. Vários profissionais foram emprestados ao clube paranaense, inclusive o técnico Sérgio Baresi, hoje interino do profissional são-paulino. “Pouco joguei por causa da lesão”, disse Rafinha.

Emprestado ao Marília no segundo semestre de 2009, machucou o tornozelo direito. Problema de ligamento, não diagnosticado no primeiro exame feito no interior paulista. Quando retornou a Toledo, a dor não o permitia treinar.  Feito novo exame, foi constatada a lesão. O Toledo estava com o time profissional inativo e não havia plano de saúde.

“Resolvi pagar do meu bolso. Fui ao médico, primeiro ele cobraria, depois disse que faria de graça, mas pelo SUS. Não pude colocar os ganchos, que normalmente são feitos nessa cirurgia, porque ficaria muito caro”, contou Rafinha. Ele garantiu que hoje poderia jogar normalmente, apesar da operação.

Há quem ainda tente ajudar Rafinha a continuar no futebol. Pérsio Rainho, ex-diretor do São Paulo que participou da parceria que o Toledo fez com o clube paulista em 2009, se aproximou do jogador depois da punição e disse, nesta semana, que ainda tenta arrumar um clube para o garoto (leia aqui). O ex-jogador é cético quanto a isso. “Se eu passar na prova para o Senai, aí que não escuto nem proposta. Quero estudar em ter uma profissão. Minha vida hoje é bem diferente. Já não penso mais naquela paixão de ser jogador. Foi passando aos poucos”. Aos 22 anos, ele é um ex-jogador precoce.


Leia mais sobre: Rafinha Toledo STJD Código Brasileiro de Justiça Desportiva

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Marcel Rizzo

Fachada da metalúrgica que Rafinha trabalha na beira da rodovia Washington Luiz

Local de trabalho
Fachada da metalúrgica na qual Rafinha trabalha na beira da rodovia Washington Luiz

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